Uma nova pesquisa revelou que a exposição a altas temperaturas ambientais na primeira infância pode prejudicar o desenvolvimento de habilidades fundamentais. Os resultados indicam que crianças que vivem em ambientes com temperaturas máximas médias superiores a 32 graus Celsius têm menor probabilidade de atingir marcos importantes do desenvolvimento, especialmente nas áreas de alfabetização e habilidades matemáticas. O estudo foi publicado em uma revista científica de referência em psicologia e psiquiatria infantil.
As temperaturas globais atingiram níveis recordes em 2024, aumentando as preocupações sobre os efeitos em cascata de um planeta em aquecimento na saúde humana. Pesquisas anteriores já haviam estabelecido vínculos entre o calor extremo e diversos problemas físicos em crianças e adultos. No entanto, ainda se sabia pouco sobre como a exposição ao calor durante os anos formativos da vida afeta o crescimento cognitivo e psicossocial.
Os primeiros anos de vida representam um período sensível para a maturação do cérebro. Os sistemas biológicos das crianças pequenas ainda não estão totalmente desenvolvidos, o que as torna menos eficientes na regulação da temperatura corporal por meio de mecanismos como a sudorese. Além disso, crianças pequenas dependem inteiramente dos adultos para adaptar o ambiente ou garantir hidratação adequada.
O calor pode interferir no desenvolvimento por diversos caminhos biológicos e ecológicos. Altas temperaturas podem causar desidratação e distúrbios do sono, ambos prejudiciais ao aprendizado. O estresse térmico também pode desencadear processos inflamatórios no cérebro e intensificar os sistemas de resposta ao estresse do organismo.
Para além dos efeitos fisiológicos diretos, o calor também pode modificar o ambiente em que a criança vive. Eventos climáticos extremos podem comprometer a segurança alimentar ao danificar plantações ou aumentar o risco de contaminação dos alimentos. O calor também pode favorecer a proliferação de vetores de doenças, como mosquitos, levando a infecções que prejudicam o crescimento infantil.
Segundo Jorge Cuartas, um dos autores do estudo, já se sabia que o calor extremo afeta a saúde física, mas havia evidências muito limitadas sobre como ele influencia o desenvolvimento infantil precoce, especialmente em países de baixa e média renda. Esta pesquisa preenche essa lacuna ao demonstrar que a exposição ao calor também é um fator de risco para o desenvolvimento durante a primeira infância.
Para investigar esses impactos, os pesquisadores utilizaram um grande conjunto de dados que incluiu 19.607 crianças com idades entre três e quatro anos. Os participantes viviam em seis países distintos: Geórgia, Gâmbia, Madagascar, Malawi, Serra Leoa e o Estado da Palestina. Esses países foram selecionados com base na disponibilidade de dados precisos, incluindo informações geográficas detalhadas e avaliações do desenvolvimento infantil. A coleta de dados ocorreu entre 2017 e 2020.
Os pesquisadores combinaram dados de questionários com registros climáticos de alta resolução. Para avaliar o desenvolvimento das crianças, utilizaram o Índice de Desenvolvimento da Primeira Infância, uma ferramenta padronizada desenvolvida pelo UNICEF para acompanhar marcos do desenvolvimento. Esse índice se baseia em relatos dos pais sobre habilidades e comportamentos específicos e abrange quatro domínios: alfabetização e numeracia, desenvolvimento físico, funcionamento socioemocional e abordagens de aprendizagem. A criança é considerada dentro do esperado quando consegue realizar a maioria das tarefas em cada domínio.
Em relação ao clima, a equipe utilizou um banco de dados climático que permitiu calcular a temperatura máxima média mensal à qual cada criança foi exposta desde o nascimento até o momento da entrevista. As coordenadas geográficas das residências foram associadas aos padrões históricos de temperatura. A análise estatística comparou crianças que viviam nas mesmas regiões, mas que nasceram ou cresceram em períodos com temperaturas diferentes, em vez de comparar regiões climaticamente muito distintas.
Essa abordagem ajudou a isolar o efeito específico das variações de temperatura e da exposição prolongada ao calor, controlando fatores como riqueza da família, escolaridade materna e se o domicílio estava localizado em área urbana ou rural. Os resultados mostraram uma associação negativa entre calor intenso e desenvolvimento global. Crianças expostas a temperaturas máximas médias acima de 32 graus Celsius apresentaram menor probabilidade de estar com o desenvolvimento adequado para a idade, mesmo após o controle de fatores climáticos e socioeconômicos.
De acordo com os pesquisadores, o calor extremo não apenas causa desconforto, mas pode interferir silenciosamente na forma como as crianças aprendem, se comunicam e desenvolvem habilidades básicas. Com a maior frequência de ondas de calor, proteger as crianças da exposição térmica torna-se uma questão de desenvolvimento com possíveis consequências de longo prazo para indivíduos e sociedades.
Quando os dados foram analisados por domínios específicos, os efeitos variaram. O impacto negativo do calor foi mais evidente nas habilidades de alfabetização e numeracia. Crianças expostas às temperaturas mais elevadas apresentaram uma queda estatisticamente significativa nesses marcos cognitivos em comparação com aquelas que viviam em ambientes mais frescos. Também foi observada uma associação entre calor e escores socioemocionais mais baixos a partir dos 32 graus Celsius, embora esse padrão não tenha sido consistente em faixas de temperatura ainda mais altas. O desenvolvimento físico mostrou uma leve associação positiva com calor moderado, mas não apresentou tendência clara em temperaturas extremas.
Os resultados também evidenciaram desigualdades importantes sobre quem é mais afetado pelo aumento das temperaturas. Crianças de famílias economicamente desfavorecidas sofreram uma queda mais acentuada nos indicadores de desenvolvimento à medida que o calor aumentava. Já crianças de famílias mais ricas não apresentaram a mesma trajetória negativa, sugerindo que recursos financeiros podem funcionar como um fator de proteção, possibilitando acesso a sistemas de resfriamento ou melhor nutrição para mitigar o estresse térmico.
A localização geográfica e a infraestrutura também influenciaram os resultados. Os efeitos negativos do calor foram mais pronunciados em áreas urbanas do que em áreas rurais, o que é compatível com o fenômeno das “ilhas de calor urbano”, nas quais as cidades retêm mais calor do que o campo. O acesso a serviços básicos mostrou-se igualmente crucial. Crianças que viviam em domicílios sem acesso adequado à água potável e ao saneamento sofreram perdas maiores no desenvolvimento quando expostas ao calor. A água é essencial para hidratação e resfriamento, enquanto o saneamento ajuda a prevenir doenças que se espalham mais facilmente em ambientes quentes.
Os pesquisadores também realizaram análises exploratórias sobre a exposição ao calor durante a gestação. Ao examinar dados de temperatura correspondentes ao período em que as crianças ainda estavam no útero, observaram-se algumas associações negativas entre calor no terceiro trimestre da gravidez e resultados de desenvolvimento, embora esse padrão tenha sido menos consistente do que o observado após o nascimento.
Os efeitos mais fortes observados entre crianças mais novas e aquelas em contextos mais vulneráveis chamaram especialmente a atenção dos pesquisadores. Ainda assim, é importante evitar interpretações equivocadas. O estudo não sugere que crianças que vivem em regiões naturalmente quentes sejam, por si só, menos desenvolvidas do que aquelas de regiões mais frias. A análise comparou crianças da mesma região expostas a diferentes temperaturas ao longo do tempo, justamente para evitar essa conclusão.
Segundo os autores, a exposição ao calor não determina o futuro de uma criança, e muitas demonstram grande resiliência. No entanto, o calor adiciona um risco evitável que pode se somar a desigualdades já existentes, tornando as estratégias de prevenção e adaptação especialmente importantes. Como toda pesquisa, o estudo apresenta limitações. A principal medida de desenvolvimento baseou-se em relatos dos pais, que podem não avaliar com total precisão as habilidades dos filhos. Além disso, os pesquisadores assumiram que as crianças viveram no mesmo local desde o nascimento, o que pode não ser verdadeiro em casos de migração familiar.
Os próximos passos da pesquisa envolvem compreender melhor os mecanismos que ligam o calor ao desenvolvimento infantil e identificar políticas públicas ou intervenções familiares capazes de proteger as crianças desses efeitos, especialmente em contextos com poucos recursos. O estudo intitulado “Calor ambiental e desenvolvimento na primeira infância: uma análise multinacional” foi conduzido por Jorge Cuartas, Lenin H. Balza, Andrés Camacho e Nicolás Gómez-Parra.



