Um estudo realizado no Japão descobriu que as associações entre marcadores inflamatórios e sintomas psicológicos, como depressão, ansiedade, fadiga e queixas somáticas, são mais fortes em indivíduos com baixa capacidade de regulação emocional ou com sono de baixa qualidade. Em contrapartida, essas associações foram atenuadas ou até mesmo invertidas em pessoas com boa regulação emocional ou sono de alta qualidade. O artigo foi publicado na revista Brain, Behavior, & Immunity – Health.
A inflamação é uma resposta biológica do sistema imunológico a lesões, infecções ou outras formas de ameaça ao organismo. Ela envolve a ativação de células imunes e a liberação de moléculas sinalizadoras, como citocinas, que ajudam a eliminar agentes nocivos e iniciar o reparo dos tecidos. A inflamação aguda costuma ser de curta duração e adaptativa, favorecendo a recuperação. Já a inflamação crônica persiste ao longo do tempo e pode se tornar prejudicial, contribuindo para uma ampla gama de problemas físicos e mentais.
A inflamação também pode ser local ou sistêmica. A inflamação local ocorre em um tecido ou área específica do corpo em resposta a uma lesão, infecção ou irritação. A inflamação sistêmica, por sua vez, refere-se a um estado inflamatório disseminado por todo o organismo, refletido por níveis elevados de marcadores inflamatórios circulantes, como a proteína C-reativa e diversas citocinas no sangue.
Pesquisas recentes têm relacionado cada vez mais a inflamação sistêmica a estados psicofisiológicos como fadiga, depressão, ansiedade e queixas somáticas. Níveis elevados de marcadores inflamatórios tendem a estar associados a cansaço persistente e redução de energia, mesmo na ausência de uma doença física claramente identificável.
A inflamação também pode influenciar o funcionamento do cérebro ao alterar sistemas de neurotransmissores e circuitos neurais envolvidos na regulação do humor. Isso ajuda a explicar por que a inflamação sistêmica crônica está associada a sintomas depressivos, como humor rebaixado, anedonia e lentificação cognitiva. A ansiedade também tem sido relacionada a processos inflamatórios, possivelmente por meio do aumento da reatividade ao estresse e de alterações na sinalização imunológica. Queixas somáticas, incluindo dor, desconforto gastrointestinal e tensão corporal, são comuns em estados de inflamação crônica.
O autor do estudo, Kao Yamaoka, e seus colegas buscaram explorar a relação entre inflamação sistêmica e estados psicofisiológicos, incluindo sintomas de depressão e ansiedade. Eles observam que, embora marcadores inflamatórios elevados estejam geralmente associados a piores desfechos psicológicos, isso não ocorre de forma uniforme em todos os indivíduos.
Os pesquisadores levantaram a hipótese de que a regulação emocional, a interocepção — a capacidade de perceber sensações internas do corpo — e o sono modulam essa relação. Esperava-se que indivíduos com maior sensibilidade interoceptiva, melhores habilidades de regulação emocional e sono de melhor qualidade fossem mais resilientes aos efeitos psicológicos negativos do aumento da inflamação.
Os participantes do estudo foram 155 adultos saudáveis, com idades entre 30 e 59 anos. Para participar, era necessário ter índice de massa corporal entre 18,5 e 30,0 e ter concluído o ensino médio. Foram excluídas pessoas com diagnóstico atual ou passado de demência, depressão ou outros transtornos psiquiátricos, gestantes ou lactantes, fumantes e indivíduos que não pudessem suspender medicamentos ou suplementos que pudessem interferir nos resultados.
Os participantes responderam a avaliações sobre regulação emocional, qualidade do sono, sensibilidade interoceptiva, processamento interoceptivo disfuncional, fadiga, sintomas depressivos, humor, ansiedade e respostas ao estresse. Também preencheram um questionário sobre sintomas gastrointestinais e forneceram amostras de sangue, permitindo a análise de marcadores inflamatórios.
Os resultados mostraram que as associações entre marcadores inflamatórios e sintomas como fadiga, queixas somáticas, depressão e ansiedade foram mais intensas em indivíduos com baixa regulação emocional ou sono de baixa qualidade. Em contraste, em pessoas com boa regulação emocional ou sono de alta qualidade, essas associações foram enfraquecidas ou até revertidas. Os efeitos moderadores da consciência interoceptiva foram mais fracos ou dependentes do contexto.
Segundo os autores, o estudo demonstrou que diferenças individuais na regulação emocional, no sono e na interocepção influenciam de maneira significativa a relação entre inflamação e bem-estar mental e físico subjetivo. Em especial, indivíduos com baixa regulação emocional ou sono inadequado mostraram-se mais vulneráveis aos efeitos negativos de marcadores inflamatórios elevados, como proteína C-reativa, interleucina-6 e fator de necrose tumoral alfa, que se associaram a maior fadiga, queixas somáticas, depressão e ansiedade. Por outro lado, quando a regulação emocional e o sono eram adequados, essas associações diminuíam ou, em alguns casos, se invertiam, sugerindo que a inflamação não leva necessariamente a desfechos adversos de saúde de forma uniforme, mas interage dinamicamente com características individuais.
O estudo contribui para o entendimento científico das conexões entre inflamação e estados psicológicos. No entanto, é importante destacar que a pesquisa foi realizada com uma amostra relativamente pequena e que o desenho do estudo não permite estabelecer relações causais definitivas a partir dos resultados. O artigo intitulado “Efeitos moderadores de fatores individuais na relação entre inflamação e estados psicofisiológicos em adultos saudáveis” foi conduzido por Kao Yamaoka, Yuri Ishii e Yuri Terasawa.



