Um novo estudo sugere que observar passivamente desconhecidos envolvidos em interações sociais afetuosas desencadeia uma resposta fisiológica mais associada ao estresse ou ao estado de alerta do que ao relaxamento. Os pesquisadores descobriram que a visualização de imagens de vínculo social provocou uma redução em uma métrica específica da frequência cardíaca ligada ao sistema corporal de “descanso e digestão”. Esses achados desafiam a suposição de que testemunhar conexões positivas entre outras pessoas induz automaticamente uma sensação de segurança ou de calma fisiológica no observador. O estudo foi publicado na revista Evolutionary Psychological Science.
Os seres humanos evoluíram para viver em grupos. Ao longo da história, o isolamento social frequentemente reduziu as chances de sobrevivência em ambientes hostis. Como consequência, o cérebro humano desenvolveu mecanismos para incentivar a formação de vínculos seguros. Uma das formas pelas quais os cientistas medem o estado fisiológico do corpo durante o engajamento social é por meio da variabilidade da frequência cardíaca.
O coração não bate como um metrônomo perfeito. O intervalo de tempo entre batimentos individuais varia levemente em uma pessoa saudável. Essa variação é amplamente controlada pelo sistema nervoso autônomo, que gerencia funções involuntárias do corpo e possui dois ramos principais.
O ramo simpático prepara o corpo para a ação, frequentemente descrito como a resposta de “luta ou fuga”. O ramo parassimpático sustenta um estado de calma, conhecido como “descanso e digestão”. O nervo vago é um componente central desse sistema parassimpático calmante. Quando o nervo vago está ativo, ele atua como um freio sobre o coração, aumentando a variabilidade entre os batimentos.
Esse tipo específico de variação é conhecido como variabilidade da frequência cardíaca mediada pelo nervo vago (vmHRV). Níveis elevados de vmHRV geralmente indicam que o corpo se encontra em um estado de segurança e engajamento social. Por outro lado, níveis baixos costumam sinalizar que esse “freio” foi retirado. Essa retirada geralmente ocorre quando o corpo percebe uma ameaça ou precisa mobilizar recursos.
Pesquisas anteriores já estabeleceram que receber apoio social ativo pode aumentar essa variabilidade. No entanto, sabe-se menos sobre os efeitos fisiológicos de simplesmente observar outras pessoas se conectando. Uma equipe de pesquisa liderada por Gabriela Guerra Leal Souza, da Universidade Federal de Ouro Preto, buscou investigar essa questão específica. O grupo contou com a primeira autora Cássia Regina Vieira Araújo e vários colaboradores de instituições brasileiras.
Os pesquisadores quiseram determinar se a percepção passiva de sinais agradáveis de vínculo social provocaria mudanças no sistema nervoso autônomo. Eles levantaram a hipótese de que ver imagens de pessoas interagindo de forma afetuosa sinalizaria segurança, prevendo, assim, um aumento na variabilidade da frequência cardíaca dos observadores.
Para testar essa hipótese, a equipe recrutou 72 estudantes universitários, homens e mulheres, com idade média de aproximadamente 23 anos. Foram aplicados critérios rigorosos de inclusão para garantir a confiabilidade dos dados cardíacos. Pessoas com diagnósticos de saúde mental ou física e aquelas que utilizavam determinados medicamentos foram excluídas.
O estudo utilizou um desenho “intra-sujeitos”, o que significa que todos os participantes visualizaram todas as categorias de imagens. Isso permitiu comparar as reações de cada indivíduo com sua própria linha de base, reduzindo o impacto de diferenças fisiológicas naturais entre pessoas distintas.
Os participantes permaneceram em um ambiente controlado e observaram uma série de imagens em uma tela de computador. Os estímulos principais consistiam em imagens de “vínculo”. Essas fotos mostravam duas pessoas envolvidas em atividades conjuntas, incluindo sinais de conexão social, como troca de olhares ou toques suaves.
Como comparação, os participantes também visualizaram um conjunto de imagens de “controle”. Essas fotos apresentavam os mesmos pares de pessoas das imagens de vínculo, mas realizando atividades separadamente, sem contato físico ou troca de olhares.
Os pesquisadores tomaram cuidado para garantir que a única diferença entre os conjuntos fosse a interação social. As imagens foram pareadas em termos de “valência” e “excitação”, assegurando que ambos os conjuntos fossem avaliados como igualmente agradáveis e igualmente estimulantes. Os cenários de fundo e o número de pessoas nas fotos permaneceram consistentes entre as condições.
Enquanto os participantes observavam as imagens, os pesquisadores registraram seus sinais eletrocardiográficos. A variabilidade da frequência cardíaca foi medida durante um período basal de repouso antes da apresentação das imagens, durante a visualização e também em um período de recuperação após a remoção dos estímulos.
Os resultados contrariaram as previsões iniciais da equipe. Os dados mostraram uma diminuição clara da variabilidade da frequência cardíaca mediada pelo nervo vago quando os participantes visualizaram as imagens de vínculo social. Essa mudança fisiológica não ocorreu durante a visualização das imagens de controle.
A redução da variabilidade durante a condição de vínculo indica um fenômeno conhecido como “retirada vagal”. O sistema parassimpático reduziu sua atividade, de forma semelhante ao que acontece em situações de estresse ou quando há uma demanda por atenção. Essa reação sugere que o corpo estava se mobilizando, e não relaxando.
O estudo também revelou que essa mudança fisiológica persistiu após o término da tarefa. A variabilidade da frequência cardíaca dos participantes não retornou imediatamente aos níveis basais depois que pararam de observar as imagens de vínculo. Esse efeito prolongado sugere um ajuste fisiológico sustentado.
Em contraste, as imagens de controle não produziram nenhuma alteração. Ver as mesmas pessoas sem sinais de vínculo social não modificou a variabilidade da frequência cardíaca em relação à linha de base. Essa especificidade indica que foi a interação social em si, e não a simples presença de pessoas, que desencadeou a retirada vagal.
Os pesquisadores ofereceram uma explicação evolutiva para esses resultados inesperados. Os seres humanos desenvolveram adaptações psicológicas para distinguir entre “nós” e “eles”, sendo motivados a se identificar com seus próprios grupos sociais. Interações dentro do próprio grupo costumam gerar uma sensação de segurança e pertencimento.
Entretanto, as pessoas nas fotografias eram desconhecidas para os participantes. Os autores sugerem que observar estranhos interagindo de forma afetuosa pode não evocar a mesma sensação de segurança que interações com amigos ou familiares. Em ambientes ancestrais, deparar-se com um grupo de desconhecidos poderia exigir vigilância, e não relaxamento.
Os autores propõem que, para ativar efetivamente o sistema parassimpático, o indivíduo precisa sentir pertencimento. Os estímulos visuais utilizados no experimento provavelmente não induziram essa identificação social. Os participantes estavam observando um “grupo externo”, e não um “grupo interno”.
O estudo indica que estímulos sociais agradáveis, por si só, não são suficientes para ativar o “freio vagal”. O contexto do relacionamento parece ser determinante. Sem uma conexão pessoal ou sensação de inclusão, o cérebro pode não interpretar a cena como um sinal de segurança.
Existem limitações que afetam a amplitude da interpretação desses resultados. A amostra foi composta exclusivamente por estudantes universitários, geralmente jovens e com alto nível educacional, o que pode não representar a população geral. Fatores como idade ou nível socioeconômico podem influenciar a forma como as pessoas processam sinais sociais.
Além disso, o estudo utilizou imagens estáticas, e não vídeos ou interações reais. O vínculo social no mundo real é dinâmico e envolve som e movimento, o que pode gerar respostas fisiológicas diferentes. Os pesquisadores também observaram que não coletaram dados sobre a etnia dos participantes.
Outro ponto destacado é que o estudo não avaliou os sentimentos conscientes de pertencimento dos participantes. Pesquisas futuras poderiam incluir questionários de autorrelato para compreender melhor o estado psicológico do observador. Seria útil saber se os participantes se sentiram explicitamente excluídos ao ver imagens de estranhos.
A equipe sugere que estudos futuros investiguem diferentes perfis demográficos. Pesquisas com adultos mais velhos ou pessoas de diferentes contextos culturais poderiam revelar se essa resposta é universal. Também seria informativo comparar reações a imagens de estranhos com reações a imagens de amigos e familiares dos próprios participantes.
Esta pesquisa oferece a primeira evidência desse tipo sobre a observação passiva de vínculos sociais. Ela destaca a complexidade do sistema humano de monitoramento social. Embora o apoio social seja geralmente benéfico, a simples observação da intimidade alheia não garante um benefício fisiológico para quem observa.
O estudo, intitulado “Passively Viewing Social Bonding Cues Decreases Vagally Mediated Heart Rate Variability”, foi assinado por Cássia Regina Vieira Araújo, Fabiana Cristina de Oliveira Souza, Kíssyla Christine Duarte Lacerda, Nacha Samadi Andrade Rosário, Perciliany Martins de Souza, Tiago Arruda Sanchez, Izabela Mocaiber e Gabriela Guerra Leal Souza.



