Um estudo recente publicado na revista Computers in Human Behavior sugere que indivíduos que utilizam o smartphone de forma excessiva apresentam maior atividade cerebral em regiões associadas à dor social quando vivenciam exclusão social. Os achados fornecem evidências de que a hipersensibilidade à rejeição social pode ser um fator psicológico central que impulsiona a conectividade digital compulsiva. Essas diferenças neurais destacam a importância de considerar vulnerabilidades sociais e emocionais ao tentar compreender por que algumas pessoas têm dificuldade em controlar o uso do smartphone.
O uso excessivo de smartphones vem sendo cada vez mais compreendido como um padrão comportamental que se assemelha a outras formas de dependência. Tradicionalmente, a investigação científica sobre esse fenômeno tem se concentrado no controle cognitivo ou nos sistemas de recompensa do cérebro. Essa abordagem frequentemente trata o dispositivo como uma fonte de dopamina, de forma semelhante ao que ocorre em estudos sobre jogos ou uso de substâncias. No entanto, essa perspectiva tende a negligenciar a natureza essencialmente social da tecnologia móvel.
Os smartphones são ferramentas centrais para manter o sentimento de pertencimento e a conexão com outras pessoas. O impulso para permanecer conectado pode surgir da necessidade de evitar sentimentos negativos associados ao isolamento. Diante disso, os pesquisadores buscaram investigar os aspectos sociocognitivos dessa condição, procurando entender se usuários intensivos processam a rejeição social de maneira diferente daqueles com hábitos de uso mais moderados.
“Este estudo foi motivado pela observação de que as pesquisas sobre uso excessivo de smartphones têm se concentrado predominantemente no processamento de recompensas e no controle cognitivo, enquanto os mecanismos sociocognitivos permanecem pouco explorados”, afirmou o autor do estudo Robert Christian Wolf, vice-diretor do Departamento de Psiquiatria Geral e Psicoterapia do Hospital Universitário de Heidelberg. “Considerando que muitos comportamentos relacionados ao smartphone são inerentemente sociais, buscamos preencher essa lacuna examinando como indivíduos com uso excessivo de smartphones processam experiências sociais aversivas no nível neural. Também pretendíamos esclarecer como conceitos como exclusão social, dor social e medo de ficar de fora (FOMO) podem se relacionar ao uso excessivo de smartphones dentro de um modelo consolidado de dependências comportamentais.”
Para investigar essas questões, a equipe recrutou 41 participantes com idades entre 18 e 30 anos. Todos eram destros e não apresentavam histórico de doenças neurológicas ou transtornos mentais. Os pesquisadores utilizaram a versão curta da Escala de Dependência de Smartphone para dividir os participantes em dois grupos distintos.
O primeiro grupo foi composto por 23 indivíduos identificados como usuários excessivos de smartphone, classificação baseada no autorrelato de perda de controle sobre o uso do aparelho e no impacto negativo desse comportamento em suas rotinas diárias. O segundo grupo foi formado por 18 participantes que serviram como grupo controle, com hábitos típicos de uso do smartphone.
Os pesquisadores utilizaram a ressonância magnética funcional para medir a atividade cerebral. Essa tecnologia acompanha alterações no fluxo sanguíneo em diferentes áreas do cérebro, servindo como um indicador indireto da ativação neural. Durante o exame, cada participante realizou uma tarefa conhecida como paradigma Cyberball.
O Cyberball é um jogo virtual de lançamento de bola criado para simular interação social e, posteriormente, rejeição. Os participantes eram informados de que estavam jogando on-line com duas outras pessoas reais. Para aumentar o realismo da situação, o jogo apresentava imagens geradas por inteligência artificial que representavam os supostos outros jogadores.
O experimento foi dividido em blocos de inclusão e exclusão. Durante as fases de inclusão, os jogadores virtuais lançavam a bola para o participante com a mesma frequência. Já nas fases de exclusão, os jogadores virtuais paravam completamente de lançar a bola para o participante, criando efetivamente a sensação de ser ignorado ou excluído.
Os dados de neuroimagem revelaram diferenças claras na forma como os dois grupos processavam essa rejeição social. Em comparação com a fase de inclusão, o grupo com uso excessivo de smartphone apresentou um aumento significativo da atividade no córtex cingulado médio direito durante a exclusão, estendendo-se também ao córtex frontal superior direito.
O córtex cingulado médio é uma região do cérebro frequentemente associada ao processamento de emoções negativas. Ele faz parte da rede neural responsável pelo componente afetivo, ou desagradável, da dor. O aumento da ativação nessa área sugere que os usuários excessivos podem ter vivenciado a exclusão social como mais emocionalmente dolorosa ou angustiante.
Em contraste, o grupo controle apresentou um padrão diferente de atividade cerebral. Durante a fase de exclusão, esses participantes mostraram maior ativação no córtex parietal superior esquerdo, uma região mais relacionada ao processamento sensorial e ao gerenciamento da atenção do que ao processamento da dor emocional.
Os pesquisadores também analisaram a relação entre a atividade cerebral e sistemas específicos de neurotransmissores. Eles compararam os dados de imagem funcional com mapas padronizados de receptores químicos no cérebro. Essa análise indicou que os sistemas dopaminérgico e serotoninérgico estiveram significativamente envolvidos na resposta neural à exclusão em todos os participantes.
Além das medidas biológicas, o estudo coletou dados psicométricos. Os participantes responderam à Escala de Medo de Ficar de Fora e ao Inventário de Dependência de Smartphone. Os resultados confirmaram que o grupo de uso excessivo apresentou escores significativamente mais altos de medo de ficar de fora, conhecido como FOMO.
Os pesquisadores também identificaram uma correlação entre a atividade cerebral e sintomas específicos de dependência. A atividade no córtex parietal superior esquerdo esteve positivamente associada aos escores de prejuízo funcional no grupo de uso excessivo. Isso sugere uma ligação entre a forma como o cérebro processa informações sociais e o grau em que o uso do smartphone interfere no funcionamento diário.
Os autores propõem que a hiperatividade no córtex cingulado médio indica uma vulnerabilidade específica. Se indivíduos com uso excessivo de smartphones vivenciam a rejeição social como mais dolorosa, eles podem se sentir mais motivados a evitá-la. O smartphone, então, passa a funcionar como um mecanismo de segurança para garantir inclusão social constante e prevenir esse sofrimento.
“Nossos achados sugerem que pessoas que usam smartphones de forma excessiva podem experimentar a exclusão social como mais emocionalmente dolorosa em nível neural”, disse Wolf ao PsyPost. “Essa sensibilidade aumentada pode promover uma maior dependência do smartphone como estratégia principal para preservar a conexão social ou evitar sentimentos de exclusão. Em termos cotidianos, o uso excessivo do smartphone pode ser impulsionado menos pelo prazer e mais por tentativas de regular o sofrimento associado à desconexão social percebida ou antecipada.”
Essa interpretação está alinhada à ideia de que o medo de ficar de fora atua como uma força motivadora da conectividade. O FOMO representa a apreensão de que outras pessoas estejam vivenciando experiências gratificantes das quais alguém está ausente. Embora os escores de FOMO tenham sido mais elevados no grupo de uso excessivo, eles não se correlacionaram diretamente com as alterações na atividade cerebral observadas durante o momento específico de exclusão.
“Os efeitos observados são modestos, mas significativos, pois surgem de forma consistente em regiões cerebrais conhecidas por processar dor social e controle cognitivo”, afirmou Wolf. “Em vez de refletirem uma disfunção neural em sentido patológico, os resultados indicam diferenças sutis na forma como experiências sociais são processadas. Esses vieses neurais podem se acumular ao longo do tempo e contribuir para a manutenção do uso excessivo de smartphones.”
Como toda pesquisa, o estudo apresenta limitações. O tamanho da amostra foi relativamente pequeno, o que pode restringir a generalização dos resultados para a população em geral. Além disso, o estudo utilizou um desenho transversal, captando apenas um momento específico no tempo, o que impede conclusões sobre causa e efeito.
“Uma ressalva importante é que nossos achados não implicam que os smartphones em si causem maior dor social ou que o uso excessivo de smartphones constitua necessariamente uma condição clínica, como uma dependência comportamental manifesta, em todas as circunstâncias”, observou Wolf. “O desenho transversal também impede conclusões causais sobre se a sensibilidade à exclusão social leva ao uso excessivo de smartphones ou se ocorre o contrário. Além disso, a tarefa Cyberball utilizada representa a exclusão social de forma relativamente simplificada e artificial, o que pode não capturar totalmente a complexidade das interações sociais no mundo real.”
“Pesquisas futuras devem adotar desenhos longitudinais e experimentais para esclarecer os caminhos causais entre sensibilidade à exclusão social, FOMO e uso excessivo de smartphones. Temos especial interesse em estudos que captem processos sociais antecipatórios e em investigações sobre modulação do uso do smartphone, como fases de restrição. Integrar medidas ecológicas e de interação social real será essencial para melhorar a validade externa.”
“Este estudo reforça a importância de conceituar o uso excessivo de smartphones dentro de um modelo sociocognitivo e afetivo, no qual o comportamento orientado pela recompensa está inserido na busca e manutenção de recompensas sociais”, explicou Wolf. “Ao integrar análises neurais, psicométricas e neuroquímicas, buscamos contribuir para um modelo mais abrangente do uso excessivo de smartphones, destacando a vulnerabilidade social como um alvo potencial para estratégias mais eficazes de prevenção e intervenção, especialmente para indivíduos com maior risco de comportamento aditivo.”
O estudo, intitulado “Neural correlates of social exclusion in individuals with excessive smartphone use”, foi assinado por Gudrun M. Henemann, Mike M. Schmitgen, Sophie H. Haage, Jakob P. Rosero, Patrick Bach, Nadine D. Wolf, Julian Koenig e Robert C. Wolf.



