Uma nova pesquisa indica que o consumo diário de refrigerantes e bebidas esportivas pode prejudicar as habilidades cognitivas de adolescentes. Uma análise recente sugere que essas bebidas açucaradas perturbam os padrões de sono, o que, por sua vez, leva a dificuldades de memória, concentração e tomada de decisões. Os resultados foram publicados na revista Nutritional Neuroscience.
O cérebro adolescente passa por um período de rápido desenvolvimento e reorganização. Essa fase é marcada por mudanças no córtex pré-frontal, região responsável pelo planejamento e controle de impulsos. Como o cérebro ainda está amadurecendo, ele é especialmente sensível à alimentação e a fatores ambientais.
Pesquisadores já haviam identificado ligações entre alto consumo de açúcar e diversos problemas de saúde. No entanto, a relação específica entre diferentes tipos de bebidas açucaradas e a clareza mental em adolescentes ainda não estava bem definida. Shuo Feng, do Departamento de Comportamento em Saúde da Texas A&M University, buscou esclarecer essa conexão.
O estudo foi projetado para ir além de uma ligação direta entre açúcar e função cerebral. A investigação buscou determinar se a duração do sono atua como um “mediador” — isto é, uma variável que explica como duas outras variáveis se relacionam. Neste caso, a questão era se bebidas açucaradas prejudicam o sono, que por sua vez prejudica a cognição.
Os dados vieram da pesquisa nacional Youth Risk Behavior Surveillance Survey (YRBS) de 2021, conduzida pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). O banco final incluiu respostas de 8.229 estudantes do ensino médio dos Estados Unidos. Os participantes informaram com que frequência consumiram refrigerantes e bebidas esportivas na última semana e estimaram sua duração média de sono por noite.
Para medir dificuldades cognitivas, o questionário perguntou se problemas físicos, mentais ou emocionais causaram “sérias dificuldades para se concentrar, lembrar ou tomar decisões”. Modelos estatísticos analisaram as relações considerando idade, sexo e atividade física.
A análise revelou padrões distintos conforme o tipo de bebida e o sexo dos estudantes. O consumo diário de refrigerantes mostrou forte associação com dificuldades cognitivas tanto em meninos quanto em meninas. Comparados aos que não consumiam, adolescentes que bebiam refrigerante todos os dias tinham maior probabilidade de relatar problemas sérios de memória e concentração.
Já as bebidas esportivas mostraram um padrão ligeiramente diferente: o consumo diário esteve associado a dificuldades cognitivas em meninas, mas essa relação não foi estatisticamente clara em meninos.
Um ponto central foi o papel do sono. Maior consumo de bebidas açucaradas esteve associado a menos horas de descanso, e essa redução do sono atuou como caminho que conecta o consumo às dificuldades cognitivas. Em ambos os sexos, a duração do sono mediou a relação entre refrigerantes e problemas cognitivos — sugerindo que parte da dificuldade de foco ocorre porque esses adolescentes dormem menos.
Os mecanismos biológicos incluem a cafeína, presente em muitas dessas bebidas. A cafeína bloqueia receptores de adenosina, substância que promove sonolência, aumentando temporariamente a alerta, mas prejudicando o impulso natural do corpo para dormir. O açúcar também estimula a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e motivação. A superestimulação crônica desse sistema pode alterar a expressão genética no hipotálamo, região que regula sono e memória, aumentando a vulnerabilidade à desregulação cognitiva.
O estudo também abordou a plasticidade sináptica — a capacidade do cérebro de fortalecer ou enfraquecer conexões entre neurônios. Diferenças biológicas entre sexos podem explicar por que bebidas esportivas tiveram impacto cognitivo mais claro em meninas.
Bebidas esportivas contêm menos açúcar que refrigerantes (cerca de 34 g em 600 ml, contra quase o dobro no refrigerante). Além disso, costumam ser consumidas durante atividade física, que melhora metabolismo e regulação hormonal, podendo amenizar alguns efeitos negativos — embora nas meninas que consumiam diariamente os prejuízos cognitivos tenham persistido.
O pesquisador destacou fatores socioeconômicos e marketing direcionado aos jovens, além da ampla disponibilidade dessas bebidas em escolas e comunidades.
O estudo tem limitações. Trata-se de um levantamento transversal, que captura um momento no tempo, sem provar causalidade. Também depende de autorrelato, sujeito a erros de memória. A avaliação cognitiva foi baseada em uma única pergunta ampla, e parte da amostra foi excluída por dados incompletos, podendo introduzir viés.
Apesar disso, os resultados apoiam intervenções de saúde pública. Reduzir o consumo de bebidas açucaradas pode melhorar o sono e o desempenho escolar. Educadores e profissionais de saúde podem enfatizar higiene do sono e redução de cafeína e açúcar, especialmente à noite.
Pesquisas futuras devem usar medidas objetivas, como tecnologias vestíveis para monitorar sono, e estudos experimentais para isolar efeitos de ingredientes como cafeína e xarope de milho rico em frutose.
O estudo, “The association of sugar-sweetened beverages consumption with cognitive difficulties among U.S. adolescents: a mediation effect of sleep using Youth Risk Behavior Surveillance Survey 2021”, foi conduzido por Shuo Feng.



