Uma revisão recente de pesquisas com animais sugere que a cafeína pode ajudar a aliviar sintomas de ansiedade e depressão ao reduzir a inflamação no cérebro. Os pesquisadores analisaram vários experimentos e descobriram que o estimulante amplamente consumido diminuiu de forma consistente sinais comportamentais de sofrimento em roedores. Os resultados foram publicados na revista Translational Psychiatry.
Transtornos mentais como ansiedade e depressão afetam milhões de pessoas no mundo. Embora estejam ligados ao sofrimento emocional, também envolvem mudanças físicas no cérebro. Uma dessas mudanças é a neuroinflamação, uma resposta imunológica que pode danificar células cerebrais e alterar o funcionamento dos neurotransmissores.
Os neurotransmissores são mensageiros químicos que permitem a comunicação entre as células do cérebro. Quando a inflamação interfere nesses sinais, podem surgir alterações de humor, motivação e memória. Como os medicamentos atuais não funcionam para todos, pesquisadores têm buscado compostos naturais que possam ajudar.
A cafeína é uma substância psicoativa presente no café, chá e chocolate. Ela atua principalmente bloqueando receptores de adenosina — estruturas nas células cerebrais que, quando ativadas, promovem sonolência e reduzem a atividade nervosa. Existem dois tipos principais desses receptores ligados ao humor: A1 e A2A. Ao bloqueá-los, a cafeína aumenta a vigilância e influencia a liberação de dopamina e serotonina, neurotransmissores essenciais para prazer, motivação e regulação emocional.
A cafeína também possui propriedades antioxidantes, ajudando a neutralizar moléculas nocivas. Por influenciar tanto a química cerebral quanto a inflamação, cientistas quiseram investigar seu potencial no tratamento de transtornos de humor. A pesquisadora Laís da Silva Neves, da Universidade Federal Fluminense, liderou a investigação.
A equipe realizou uma revisão sistemática, reunindo estudos anteriores sobre cafeína em modelos animais de ansiedade e depressão. Foram identificados 17 experimentos elegíveis: seis sobre ansiedade e onze sobre depressão.
Nos estudos de ansiedade, os roedores foram submetidos a situações estressantes (como privação de sono ou exposição ao cheiro de predadores) para induzir comportamentos ansiosos. Após isso, receberam cafeína por água ou injeções. Em testes de exploração — como labirintos elevados — animais ansiosos tendem a evitar áreas abertas, enquanto os menos ansiosos exploram mais. A cafeína reverteu consistentemente o comportamento ansioso, incentivando a exploração e melhorando o desempenho em testes de memória.
No cérebro dos animais, a cafeína reduziu citocinas pró-inflamatórias — proteínas que sinalizam inflamação — e diminuiu o estresse oxidativo, ao mesmo tempo em que fortaleceu as defesas antioxidantes naturais.
Os estudos sobre depressão mostraram resultados semelhantes. Para induzir sintomas depressivos, alguns experimentos utilizaram estresse social crônico ou uma toxina bacteriana que provoca inflamação sistêmica. Esses animais costumam desistir rapidamente em testes de natação ou perder o interesse por líquidos doces — comportamentos análogos à perda de motivação e prazer em humanos.
Após o tratamento com cafeína, os roedores recuperaram a motivação e o interesse por recompensas. Esses efeitos foram acompanhados por redução da inflamação cerebral e menor ativação da microglia, células imunológicas do sistema nervoso que podem causar danos quando permanecem ativadas por muito tempo.
Alguns estudos compararam a cafeína com antidepressivos tradicionais e encontraram efeitos comportamentais semelhantes aos da imipramina. Testes com café comum versus descafeinado mostraram que a versão com cafeína era muito mais eficaz na redução da inflamação.
A revisão também destacou compostos vegetais que atuam junto com a cafeína. Por exemplo, o ácido cafeico em baixas doses potencializou os efeitos antidepressivos, e extratos de chá verde mostraram proteção contra depressão induzida por inflamação. Além disso, a cafeína aumentou níveis do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), proteína que promove sobrevivência neuronal e formação de novas conexões.
Apesar dos resultados promissores, há limitações: quase todos os estudos utilizaram roedores machos adultos, e as doses variaram bastante. Doses baixas a moderadas foram benéficas, mas doses muito altas pioraram ansiedade e memória, indicando a importância de definir quantidades seguras.
Pesquisas futuras devem incluir diferentes idades e ambos os sexos, além de padronizar doses. Até lá, esses estudos em animais oferecem uma base sólida para investigar como uma bebida comum do dia a dia pode ajudar a proteger o cérebro contra os efeitos físicos do estresse.
O estudo, “Effects of caffeine on neuroinflammation in anxiety and depression: a systematic review of rodent studies”, foi conduzido por Laís da Silva Neves, Giovanna Várzea Roberti Monteiro de Mattos, Yasmin Oliveira-Nazareth, Rosane Souza da Silva e Paula Campello-Costa.



