Um estudo recente revelou como a bebida psicodélica ayahuasca altera as ondas cerebrais para induzir experiências místicas profundas e pensamentos vívidos e espontâneos. Ao registrar a atividade elétrica do cérebro antes e durante a fase ativa da substância, os pesquisadores descobriram que o estado cerebral em repouso de uma pessoa pode prever a intensidade com que ela sentirá certas mudanças corporais e emocionais. A pesquisa foi publicada no Journal of Psychopharmacology.
A ayahuasca é uma bebida de origem vegetal que contém compostos psicoativos, principalmente a dimetiltriptamina (DMT). Ela é utilizada há séculos em práticas tradicionais sul-americanas para induzir estados alterados de consciência. Recentemente, profissionais de saúde têm investigado a bebida como possível tratamento para depressão grave, condição que afeta centenas de milhões de pessoas no mundo.
Como a substância provoca mudanças profundas na percepção humana, pesquisadores querem entender exatamente como ela atua biologicamente e se é possível prever a reação psicológica de um paciente antes de uma sessão clínica. Essa previsão poderia ajudar médicos a personalizar tratamentos e garantir um ambiente terapêutico seguro.
Os pesquisadores Natan Silva-Costa e Jéssica Andrade Pessoa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, lideraram a investigação dos mecanismos neurais por trás desses estados alterados. O foco foi entender como a droga afeta o mind-wandering (devaneio mental), que é o fluxo espontâneo de pensamentos não estruturados quando a mente está em repouso.
Para acompanhar essas mudanças mentais, a equipe utilizou eletroencefalografia (EEG), um método que mede sinais elétricos do cérebro por meio de sensores no couro cabeludo. Esses sinais formam ondas de diferentes velocidades, como ondas delta (lentas), alfa (intermediárias) e beta (mais rápidas), associadas a estados mentais como sono profundo, relaxamento ou concentração ativa.
O estudo contou com 50 voluntários saudáveis que nunca haviam consumido ayahuasca. O experimento foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo — ou seja, nem participantes nem pesquisadores sabiam quem recebeu a bebida real. O placebo foi cuidadosamente preparado para imitar a cor, o sabor e até leves efeitos físicos da ayahuasca.
Os participantes permaneceram em um quarto hospitalar silencioso e com luz baixa, ouvindo música. As ondas cerebrais foram registradas antes da ingestão da bebida e novamente duas e quatro horas depois. Após a sessão, os voluntários responderam questionários detalhados sobre percepções visuais, emoções, experiências místicas e pensamentos espontâneos.
Os relatos confirmaram mudanças intensas na percepção. Em comparação ao placebo, quem consumiu ayahuasca relatou alterações visuais marcantes, emoções intensas e sensação de transcendência do tempo e do espaço. Muitos relataram sensação de unidade interior e contato com algo sagrado. Também surgiram experiências como sensação corporal em ondas, estados oníricos enquanto acordados e sinestesia (mistura de sentidos, como “ver sons”).
Os pensamentos espontâneos também mudaram radicalmente. Em vez de preocupações cotidianas, os participantes relataram um “devaneio caótico e significativo”, altamente visual e carregado de significado pessoal — semelhante a sonhos vívidos ou sonhos lúcidos.
Essas experiências corresponderam a mudanças específicas nas ondas cerebrais. Houve redução generalizada das ondas alfa, que normalmente inibem imagens visuais quando estamos relaxados. Essa queda provavelmente permitiu a geração das intensas imagens mentais relatadas. Também houve aumento de ondas delta na região frontal e aumento de ondas teta e beta em regiões posteriores do cérebro.
Níveis mais baixos de atividade teta estiveram associados a sensações mais fortes de unidade mística e pensamentos profundos — padrão semelhante ao observado em meditação profunda. Além disso, as ondas cerebrais em repouso previram a reação à droga: pessoas com menor atividade teta inicial relataram maior interocepção (percepção de sensações internas do corpo) durante a experiência. Já níveis mais baixos de ondas beta iniciais foram associados a emoções mais positivas e maior felicidade durante o efeito.
Esses achados sugerem que um simples exame cerebral pode ajudar a prever se a experiência será mais positiva ou desafiadora. Ainda assim, o estudo possui limitações: o ambiente hospitalar não reproduz o contexto social e cultural de rituais tradicionais, e alguns participantes sentiram sonolência, o que afetou análises. Além disso, parte dos questionários foi respondida dois dias depois, o que pode ter reduzido a precisão das memórias.
Pesquisas futuras devem investigar como diferentes ambientes influenciam a experiência e ampliar o número de participantes. Essa capacidade de previsão pode, no futuro, ajudar profissionais de saúde a garantir segurança e maximizar benefícios terapêuticos caso a substância seja aprovada para tratamento psiquiátrico.
O estudo, “Predicting and exploring ayahuasca effects: Perception, mind-wandering, and EEG oscillations”, foi conduzido por Natan Silva-Costa, Jéssica Andrade Pessoa, Kátia Cristina Andrade, Sérgio Mota-Rolim, Fernanda Palhano-Fontes, Draulio B. Araujo e Isabel Wießner.



