Pessoas que frequentemente adicionam sal às refeições podem enfrentar um risco maior de desenvolver depressão. Um novo artigo publicado na Nutritional Neuroscience demonstra que o hábito de pegar o saleiro está fortemente ligado a sintomas depressivos e ao transtorno depressivo maior. Reduzir a quantidade de sal extra adicionada à mesa pode ser uma estratégia útil para proteger o bem-estar mental.
Profissionais de saúde mental reconhecem que a depressão representa um grande peso de doença em todo o mundo. A condição costuma levar a humor persistentemente baixo, perda de interesse nas atividades diárias e redução significativa da expectativa de vida. Identificar fatores cotidianos de estilo de vida que contribuem para esse transtorno continua sendo uma prioridade de saúde pública.
Especialistas estudam há muito tempo como os hábitos alimentares influenciam o humor e a saúde mental. Uma dieta nutritiva pode proteger contra transtornos de humor, enquanto alimentos ultraprocessados podem agravar sintomas psicológicos. No entanto, a prática específica de adicionar sal extra à comida é um hábito alimentar raramente investigado.
Adicionar sal é extremamente comum nas dietas ocidentais, influenciado por preferências de paladar e normas culturais. O alto consumo de sódio já é conhecido por causar problemas como hipertensão e aumento do risco de doenças cardíacas. Pesquisadores suspeitaram que esse excesso também poderia prejudicar o cérebro por vias biológicas relacionadas.
Para testar essa hipótese, os cientistas analisaram tanto dados de questionários quanto informações genéticas. A investigação foi liderada por Ming Chen, do Hospital Popular Provincial de Guangdong, em parceria com o cardiologista Qiang Li e especialistas em psiquiatria e saúde cardiovascular.
A equipe analisou dados de mais de 15 mil adultos que participaram do National Health and Nutrition Examination Survey entre 2007 e 2018. Os participantes responderam com que frequência adicionavam sal à comida à mesa, excluindo o sal usado no preparo. Também preencheram o Patient Health Questionnaire, que avalia humor e interesse nas atividades nas últimas duas semanas. Pontuações iguais ou superiores a 10 indicam depressão clínica.
A análise revelou um padrão claro: adicionar sal com frequência esteve positivamente associado à depressão. Pessoas com maior preferência por sal apresentaram maior probabilidade de sintomas depressivos, mesmo após ajustes para fatores como idade, renda, escolaridade, tabagismo e doenças crônicas.
Como estudos observacionais não provam causalidade, os pesquisadores usaram a técnica de randomização mendeliana, que analisa variações genéticas ligadas a preferências por sal. Foram utilizados dados do UK Biobank, com quase meio milhão de pessoas. Variantes genéticas associadas ao desejo por sal também apareceram com maior frequência em indivíduos com depressão.
Os resultados mostraram que a predisposição genética para maior consumo de sal esteve associada a um aumento de 11% no risco de sintomas depressivos e 28% no risco de transtorno depressivo maior, sugerindo um possível caminho biológico entre o consumo de sódio e o sofrimento psicológico.
Os pesquisadores propuseram algumas explicações biológicas. Uma delas envolve o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável pela resposta ao estresse. O excesso de sódio pode desregular esse sistema, aumentando hormônios do estresse como o cortisol, frequentemente alterados na depressão. Outra possibilidade é que o alto consumo de sal aumente inflamação e estresse oxidativo, afetando regiões cerebrais importantes para a regulação emocional, como o hipocampo.
Também pode haver um ciclo comportamental: emoções negativas podem levar ao consumo de alimentos reconfortantes e salgados, que por sua vez agravam o humor, criando um ciclo de retroalimentação.
Os autores reconhecem limitações. Os dados dependem de autorrelato e não mediram a quantidade exata de sódio ingerida. Além disso, a amostra incluiu apenas adultos dos Estados Unidos, o que limita a generalização global.
Pesquisas futuras deverão realizar estudos controlados de longo prazo para entender melhor como o sódio afeta a saúde mental ao longo do tempo.
O estudo, “Linking salt consumption to depression: triangulating evidence from Mendelian randomization and observational studies”, foi conduzido por Ming Chen, Qiang Li, Yihui Liu, Linyan Fu, Cai-Lan Hou e Hao-Zhang Huang.



