Um homem do Reino Unido, que é considerado o paciente com demência mais jovem da Grã-Bretanha, faleceu recentemente em decorrência da doença, aos apenas 24 anos. Andre Yarham, de Norfolk, na Inglaterra, tinha apenas 22 anos quando recebeu o diagnóstico de demência. Aos 24 anos, a maioria dos cérebros ainda está se consolidando na vida adulta. No entanto, o cérebro de Yarham aparentava ter décadas a mais, assemelhando-se ao de uma pessoa de 70 anos, segundo exames de ressonância magnética que ajudaram a confirmar o diagnóstico.
Yarham começou a apresentar os primeiros sintomas da demência em 2022. Familiares relataram que ele se tornava cada vez mais esquecido e, por vezes, permanecia com uma expressão vazia no rosto. Nos estágios finais de sua vida, perdeu a capacidade de falar, já não conseguia cuidar de si mesmo, passou a apresentar comportamentos considerados inadequados e ficou restrito a uma cadeira de rodas.
A demência é geralmente associada à velhice. No entanto, algumas formas da doença podem surgir de maneira surpreendentemente precoce e evoluir de forma extremamente rápida. Um exemplo é a demência frontotemporal, que foi o tipo diagnosticado em Yarham. Diferentemente da doença de Alzheimer, que costuma afetar primeiro a memória, a demência frontotemporal compromete áreas do cérebro ligadas à personalidade, ao comportamento e à linguagem. Essas regiões localizam-se nos lobos frontal e temporal, situados atrás da testa e acima das orelhas.
Essas áreas cerebrais são responsáveis por funções como planejamento, controle de impulsos, compreensão da fala e expressão verbal. Quando são danificadas, as pessoas podem mudar de forma profundamente angustiante para os familiares, tornando-se retraídas, impulsivas ou incapazes de se comunicar. A demência frontotemporal é menos comum, representando cerca de um em cada 20 casos de demência. O que a torna especialmente cruel é o fato de poder surgir ainda na juventude.
Em muitos casos, essa forma de demência possui um forte componente genético. Alterações em genes específicos podem comprometer a forma como as células cerebrais lidam com proteínas. Em vez de serem degradadas e reutilizadas, essas proteínas se acumulam dentro dos neurônios, interferindo em sua capacidade de funcionar e sobreviver. Com o tempo, as células afetadas deixam de funcionar e morrem. À medida que mais células são perdidas, o próprio tecido cerebral passa a encolher.
Ainda não se sabe completamente por que esse processo pode começar tão cedo na vida. No entanto, quando uma pessoa apresenta uma mutação genética muito poderosa, a doença não precisa de décadas para se manifestar. Nesse caso, a mutação acelera os danos e a capacidade natural do cérebro de resistir falha rapidamente.
Exames cerebrais realizados enquanto Yarham ainda estava vivo mostraram uma redução impressionante do volume cerebral para alguém tão jovem. Porém, comparar seu cérebro ao de uma pessoa de 70 anos pode ser enganoso. Seu cérebro não havia simplesmente “envelhecido mais rápido”. Em vez disso, um grande número de neurônios foi perdido em um curto espaço de tempo em decorrência da doença.
No envelhecimento saudável, o cérebro sofre mudanças lentas. Algumas regiões tornam-se um pouco mais finas, mas a estrutura geral permanece preservada por décadas. Já nas formas agressivas de demência, redes cerebrais inteiras entram em colapso simultaneamente. Na demência frontotemporal, os lobos frontal e temporal podem encolher de forma dramática. À medida que essas áreas se deterioram, as pessoas perdem as habilidades que elas sustentam, como linguagem, controle emocional e capacidade de tomar decisões. Isso explica por que Yarham perdeu a fala de forma tardia, porém abrupta, e por que sua necessidade de cuidados em tempo integral aumentou tão rapidamente.
A família de Yarham decidiu doar seu cérebro para a pesquisa científica. Trata-se de um gesto extraordinário, capaz de transformar uma tragédia em esperança para outras pessoas. Atualmente, a demência não tem cura. Uma vez que os sintomas começam, não há como interrompê-los, e os tratamentos disponíveis para retardar sua progressão têm efeito limitado. Parte disso se deve ao fato de o cérebro ser extremamente complexo e ainda não totalmente compreendido. Cada cérebro doado ajuda a reduzir essa lacuna de conhecimento.
Cérebros afetados por demência de início muito precoce são extremamente raros. Cada doação permite que cientistas estudem, em detalhes, o que deu errado no nível das células e das proteínas. Embora exames de imagem revelem quais áreas do cérebro foram perdidas, apenas o tecido cerebral doado pode explicar o motivo dessas perdas. Os pesquisadores conseguem analisar quais proteínas se acumularam, quais tipos de células foram mais vulneráveis e de que forma a inflamação e as respostas imunológicas contribuíram para os danos. Esse conhecimento alimenta diretamente os esforços para desenvolver tratamentos capazes de retardar, interromper ou até prevenir a demência.
A decisão da família de permitir o estudo de um caso tão raro e precoce de demência frontotemporal pode ajudar a desvendar segredos que orientarão tratamentos por muitas gerações. Como neurocientista, frequentemente surge a pergunta de como algo assim pode acontecer com alguém tão jovem. A resposta honesta é que ainda estamos apenas começando a compreender a biologia que torna alguns cérebros vulneráveis desde o início da vida.
Casos como esse reforçam a importância de investimentos contínuos em pesquisa sobre o cérebro e da generosidade de pessoas dispostas a doar tecidos para a ciência. A história desse jovem de 24 anos é um lembrete de que a demência não é uma única doença e não é um problema restrito à velhice. Compreender por que isso aconteceu será um pequeno, porém essencial, passo para garantir que não volte a acontecer no futuro.



