Uma análise recente de um grande banco de dados sobre desenvolvimento revela que crianças que tocam instrumentos musicais ao longo de vários anos apresentam habilidades de vocabulário mais fortes do que seus pares não músicos. Os resultados indicam que o treinamento musical pode atuar como um fator de proteção contra as desvantagens acadêmicas frequentemente associadas à vivência em bairros de baixa renda. Esta pesquisa foi publicada na Annals of the New York Academy of Sciences.
Educadores e neurocientistas debatem há décadas até que ponto o treinamento artístico impacta o cérebro. Tocar um instrumento é uma atividade exigente que requer a integração entre percepção auditiva e controle motor fino. A prática obriga o cérebro a monitorar altura e ritmo, mantendo a atenção por períodos prolongados.
Os pesquisadores suspeitam que essas demandas mentais rigorosas fortalecem habilidades cognitivas gerais. A teoria sugere que a disciplina exigida pela música se transfere para outros domínios, como o processamento da linguagem e a regulação da atenção.
Assal Habibi, professora associada de psicologia da Universidade do Sul da Califórnia, liderou a investigação. Habibi e seus colegas do Brain and Creativity Institute buscaram determinar se esses benefícios cognitivos se mantêm ao longo do tempo. Eles também quiseram compreender se o treinamento musical afeta as crianças de forma diferente dependendo do contexto socioeconômico em que vivem. A equipe concentrou-se especificamente em saber se a música poderia funcionar como um fator de equalização para crianças que enfrentam adversidades econômicas.
Para responder a essas questões, os pesquisadores utilizaram dados do Estudo ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development), o maior estudo longitudinal sobre desenvolvimento cerebral e saúde infantil nos Estados Unidos. Esse extenso conjunto de dados acompanha milhares de crianças à medida que transitam da infância para a adolescência. A escala do estudo permite controlar variáveis que pesquisas menores frequentemente não conseguem captar.
A equipe analisou uma coorte de mais de 5.000 crianças que tinham entre 9 e 10 anos no início do estudo. Os participantes foram categorizados de acordo com suas atividades extracurriculares. A principal comparação foi entre “músicos”, definidos como crianças que participaram continuamente de treinamento musical por dois anos, e “não músicos”. Para garantir que os efeitos observados fossem específicos da música, e não apenas da participação em atividades extracurriculares em geral, os músicos também foram comparados a crianças que praticavam futebol.
As crianças foram avaliadas por meio de uma bateria abrangente de testes destinados a medir funções executivas e habilidades linguísticas. Esses testes incluíram tarefas que avaliaram memória de trabalho, controle inibitório e vocabulário. Por exemplo, o Picture Vocabulary Test pedia que as crianças associassem palavras faladas a imagens correspondentes. Outro teste, o Stop-Signal Task, media impulsividade ao exigir que a criança inibisse uma resposta quando um sinal específico aparecia.
A análise inicial mostrou que os músicos apresentavam desempenho superior ao dos não músicos em praticamente todas as medidas cognitivas no início do estudo. Eles obtiveram escores mais altos em reconhecimento de leitura, memória e velocidade de processamento. Essa diferença inicial é comum nesse tipo de pesquisa e frequentemente levanta a questão de saber se a música torna as crianças mais inteligentes ou se crianças com maior desempenho cognitivo são simplesmente mais propensas a escolher a música.
Para lidar com essa questão, a equipe analisou como as crianças evoluíram ao longo de dois anos. Eles observaram que, embora todas as crianças melhorassem naturalmente com a idade, os músicos apresentaram crescimento acelerado em áreas específicas. A melhora mais marcante ocorreu na tarefa de vocabulário por imagens. Os dados indicaram que a diferença nas habilidades linguísticas entre músicos e não músicos aumentou ao longo dos dois anos do estudo.
Em seguida, o estudo examinou a influência da qualidade do bairro utilizando o Area Deprivation Index, uma métrica que avalia o status socioeconômico de uma região com base em fatores como renda, escolaridade e qualidade da moradia. Em geral, crianças de bairros com maior privação tendem a obter escores mais baixos em testes cognitivos do que aquelas de áreas mais favorecidas.
Os resultados mostraram uma interação clara entre treinamento musical e privação do bairro. Entre as crianças que não tocavam música, aquelas provenientes de bairros mais desfavorecidos apresentaram menor crescimento no vocabulário ao longo dos dois anos em comparação com seus pares de áreas mais ricas, refletindo a conhecida “lacuna de desempenho” educacional.
Entretanto, esse padrão não foi observado entre os músicos. Crianças que praticavam música apresentaram a mesma taxa de melhora no vocabulário independentemente de viverem em bairros com alta ou baixa privação. O treinamento musical pareceu proteger os alunos de áreas desfavorecidas contra a estagnação observada em seus vizinhos não músicos. Esse achado sugere que programas de música podem ser uma ferramenta poderosa para reduzir desigualdades socioeconômicas no desempenho acadêmico.
Além das análises estatísticas tradicionais, os pesquisadores utilizaram técnicas de aprendizado de máquina para validar os resultados. Eles empregaram um algoritmo conhecido como support vector machine, que classifica dados ao identificar limites ideais entre grupos. O objetivo era verificar se o computador conseguiria identificar corretamente uma criança como musicista ou não apenas com base em seus escores cognitivos.
Os modelos de aprendizado de máquina conseguiram distinguir músicos de crianças que não participavam de nenhuma atividade organizada. O algoritmo baseou-se fortemente em escores de linguagem para fazer essa distinção, reforçando a forte ligação entre engajamento musical e habilidades verbais.
O modelo também tentou diferenciar músicos de jogadores de futebol, tarefa mais complexa, já que ambos os grupos tendem a vir de famílias com mais recursos e apoio do que crianças sem atividades extracurriculares. Ainda assim, o algoritmo conseguiu identificar os músicos, priorizando o desempenho em leitura e vocabulário. Isso sugere que, embora esportes e música estejam ambos associados a um desenvolvimento saudável, a música possui uma relação específica com a linguagem que o esporte não reproduz.
Os pesquisadores observaram que música e linguagem compartilham mecanismos fundamentais de processamento. Ambas dependem da capacidade do cérebro de interpretar sequências sonoras complexas. A chamada “hipótese OPERA” propõe que a precisão neural exigida pela música aprimora a capacidade do cérebro de processar a fala. Essa base biológica compartilhada explica por que os efeitos de transferência são mais evidentes em tarefas de vocabulário e leitura.
Apesar do grande tamanho da amostra, o estudo apresenta limitações. Os dados sobre participação musical foram fornecidos pelos pais, o que pode introduzir imprecisões quanto à frequência de prática ou à qualidade do ensino recebido. O estudo também não diferenciou entre aulas particulares, bandas escolares ou tipos de instrumentos.
Além disso, trata-se de um estudo observacional, não experimental. Embora os pesquisadores tenham controlado fatores como renda familiar e escolaridade dos pais, não foi possível eliminar totalmente o viés de auto-seleção. É possível que crianças com maior aptidão linguística tenham mais probabilidade de manter aulas de música por dois anos, o que faria do treinamento musical um marcador de habilidades pré-existentes, e não a única causa da melhora observada.
Os autores também destacaram que os modelos de classificação foram menos precisos ao comparar músicos com jogadores de futebol do que com crianças sem atividades. Isso sugere que parte dos benefícios cognitivos pode estar relacionada ao engajamento em atividades estruturadas de modo geral, já que disciplina, interação social e seguir instruções são comuns tanto ao esporte quanto às artes.
Pesquisas futuras precisarão explorar os detalhes do treinamento musical. Será importante investigar se tocar violino tem um impacto diferente de tocar bateria ou cantar em um coral, assim como examinar como a intensidade da prática se relaciona com a magnitude dos benefícios cognitivos.
Este estudo oferece evidências robustas sobre o valor da educação musical e destaca o potencial da música como ferramenta de enriquecimento cognitivo. Os achados são especialmente relevantes para formuladores de políticas públicas e educadores que atuam em comunidades com poucos recursos. Se o treinamento musical realmente puder proteger crianças dos efeitos negativos da privação socioeconômica sobre a cognição, ele representa uma intervenção escalável e culturalmente rica.



