Um novo estudo sugere que a raiva e o ódio não são meramente diferentes intensidades de um mesmo sentimento, mas sim sistemas emocionais distintos com funções evolutivas específicas. A pesquisa indica que, enquanto a raiva motiva as pessoas a negociar por um tratamento melhor, o ódio impulsiona os indivíduos a neutralizar ou eliminar uma ameaça. Esses resultados foram publicados na revista Evolution and Human Behavior.
Cientistas discutem há muito tempo a relação entre raiva e ódio. Alguns modelos psicológicos sugerem que o ódio é simplesmente uma forma mais intensa ou duradoura de raiva. Outras perspectivas argumentam que são emoções qualitativamente diferentes. Os autores do estudo atual abordaram esse debate sob um prisma adaptacionista, que considera as emoções humanas como mecanismos evoluídos para resolver problemas específicos enfrentados por nossos ancestrais.
“Raiva e ódio são centrais para o conflito e a agressão, mas nas conversas cotidianas — e muitas vezes na pesquisa — elas são tratadas basicamente como a mesma coisa, apenas em intensidades diferentes de ‘estar bravo’”, explicou o autor do estudo, Mitchell Landers, pesquisador de pós‑doutorado na Universidade da Califórnia, em San Diego. “Do ponto de vista evolutivo, essa é uma afirmação forte. Se, em vez disso, forem emoções distintas, elas deveriam ser especializadas para problemas diferentes e gerar padrões de comportamento diferentes. Partimos de uma ideia simples: se você confundir raiva com ódio, vai interpretar mal o que pessoas iradas ou odiosas estão tentando alcançar e provavelmente aplicará a estratégia errada para resolver o conflito.”
Sob esse enfoque, a raiva e o ódio parecem resolver problemas adaptativos diferentes. Os pesquisadores propõem que a raiva evoluiu como um sistema de barganha: ela serve para recalibrar uma relação quando um parceiro de cooperação subvaloriza o indivíduo que se sente injustiçado. O conceito central é o chamado “ratio de bem-estar”, que representa o quanto alguém valoriza o bem-estar de outra pessoa em relação ao próprio. Quando o ratio de bem-estar de um parceiro é muito baixo, ele pode impor custos ao outro. A raiva surge para sinalizar que esse tratamento é inaceitável, usando ameaças de impor custos ou retirar benefícios para pressionar o alvo a valorizar mais quem está com raiva. O objetivo final é restaurar a cooperação, fazendo com que o parceiro se importe mais.
O ódio, por outro lado, lida com um problema fundamentalmente diferente. Os pesquisadores argumentam que ele evoluiu para lidar com indivíduos “tóxicos” — pessoas cuja mera existência ou bem-estar impõe um custo líquido à aptidão do indivíduo. Nesses casos, negociar é ineficaz, pois o problema não é que o alvo subvalorize o hater, mas que é um inimigo ou um prejuízo. Consequentemente, o objetivo funcional do ódio não é melhorar o relacionamento, mas neutralizar a ameaça por meio de estratégias que reduzam o custo imposto, como distanciar-se, danificar o status do alvo ou eliminá-lo completamente.
Se essas emoções forem adaptações distintas, deveriam desencadear estratégias comportamentais previsíveis e distintas. Para testar essa hipótese, os autores utilizaram um desenho de recordação em primeira pessoa. Eles recrutaram participantes de duas amostras nacionais: 368 dos Estados Unidos e 357 do Reino Unido. Os participantes foram aleatoriamente designados para duas condições. Na condição de raiva, foram convidados a relembrar uma pessoa por quem estavam “muito zangados, mas não odiavam”. Na condição de ódio, foram instruídos a recordar a pessoa que “mais odeiam no mundo”. Em seguida, escreveram uma breve descrição do motivo do sentimento para trazer a emoção à tona.
Após essa indução, os participantes avaliaram seu grau de concordância com 16 estratégias comportamentais e objetivos. Oito itens representavam táticas de recalibração associadas à raiva, como “confrontar a pessoa para falar sobre o problema” ou “pedir desculpas para seguirmos em frente”. Os outros oito itens representavam táticas de neutralização ligadas ao ódio, como “nunca mais falar com essa pessoa pelo resto da vida” ou “fantasiar matá-la”. Os pesquisadores também incluíram sete questões adicionais para sondar atitudes sociais, medindo a percepção da eficácia de pedidos de desculpas e a disposição para cooperar. Os participantes avaliaram, por exemplo, a probabilidade de ajudar o alvo em situação de necessidade ou de ouvir seu lado da história.
Os resultados forneceram evidências para funções evolutivas distintas dessas emoções. Em ambas as amostras, as tendências de comportamento foram consistentes: participantes na condição de raiva mostraram forte preferência por estratégias de recalibração — queriam confrontar, explicar seu ponto de vista e receber um pedido de desculpas. Já os da condição de ódio endossaram estratégias de neutralização, expressando desejo de infligir dano financeiro, social ou físico ao alvo e forte preferência por evitá-lo permanentemente. Os dados sugerem que o ódio ativa um sistema motivacional projetado para romper laços, não para repará-los.
As perguntas adicionais iluminaram mais essas diferenças. Pessoas irritadas geralmente consideravam pedidos de desculpas eficazes e demonstravam disposição para ouvir o alvo e potencialmente restaurar a relação. Indivíduos cheios de ódio, contudo, não viam valor em desculpas e mostravam uma forte tendência a evitar o alvo mesmo que isso lhes causasse prejuízos pessoais. Ao analisar a intensidade emocional, os pesquisadores notaram que uma raiva mais intensa estava associada a maior uso de estratégias de barganha, mas também, em casos de repetido fracasso, poderia evoluir para táticas de neutralização, aproximando-se do ódio. Por sua vez, quanto mais intenso o ódio, menor o uso de estratégias de barganha, sinalizando que se trata de uma mudança qualitativa, não apenas quantitativa.
“Raiva é projetada para negociar; ódio para eliminar”, resume Landers. “Quando uma pessoa está com raiva, quer explicações, diálogo, pedido de desculpas e mudança de comportamento, o que reflete que ela valoriza o alvo e quer manter o relacionamento, mas em condições melhores. Quando se está com ódio, o padrão se inverte: os impulsos dominantes são minar o alvo, removê-lo do convívio social ou até destruí-lo. Na prática, se alguém está com raiva de você, desculpas e explicações podem ajudar; se está em estado de ódio, pressionar pela reconciliação pode sair pela culatra, pois o objetivo não é reparar, mas distanciar ou eliminar.”
O estudo possui limitações: baseou-se em relatos pessoais de pensamentos e desejos, não em comportamentos observados, e as amostras vieram de países ocidentais educados e democráticos, o que pode não refletir todas as culturas. “É importante notar que nosso arcabouço é descritivo, não moral”, ressalta Landers. “Dizer que o ódio funciona para neutralizar uma ameaça percebida não é o mesmo que justificar o ódio.”
Pesquisas futuras poderiam investigar os pontos de transição entre essas emoções para entender exatamente quando e por que a raiva se transforma em ódio. Os autores também sugerem estudar manifestações não violentas de ódio para esclarecer ainda mais os limites entre esses sistemas emocionais. O objetivo maior é construir teorias das emoções que façam previsões claras e testáveis sobre como as pessoas agirão em conflitos, pois é nesses contextos que as emoções mais importam. Distinguindo se alguém está zangado ou odioso, poderemos escolher intervenções mais apropriadas em relacionamentos, ambientes de trabalho ou contextos intergrupais.
Link para o estudo: The evolutionary logic of anger and hatred: an empirical test



