Uma nova pesquisa sugere que um tipo específico de treinamento cerebral pode ajudar pessoas com ansiedade social a romper o hábito de focar instantaneamente em sinais sociais ameaçadores. Um estudo publicado no Journal of Affective Disorders demonstra que incorporar imagens emocionais a exercícios de memória altera o modo como os olhos se orientam automaticamente para faces zangadas. Esses achados oferecem um caminho potencial para terapias baseadas em computador que abordem os padrões cognitivos automáticos que alimentam a ansiedade social.
A ansiedade social costuma ser caracterizada por uma hipervigilância em relação à rejeição ou crítica. Essa condição se manifesta fisicamente na forma como uma pessoa observa o ambiente: indivíduos com alto grau de ansiedade social tendem a vasculhar a multidão em busca de sinais de desaprovação. Esse fenômeno é chamado de viés atencional, agindo como um filtro que prioriza informações ameaçadoras em detrimento de detalhes neutros ou positivos, geralmente de forma tão rápida que o indivíduo não se dá conta.
Pesquisadores tentaram anteriormente corrigir esse hábito por meio de programas de treinamento cognitivo. Esses programas normalmente envolvem tarefas de memória de trabalho — o sistema cerebral responsável por reter e processar informações temporariamente. Os métodos de treinamento padrão costumam usar formas ou números neutros para aumentar o controle cognitivo geral, partindo da teoria de que um cérebro mais forte pode regular melhor as respostas ao medo. Contudo, esses métodos neutros costumam falhar em ajudar as pessoas a regular emoções reais.
Huan Zhang e colegas, da Northwest Normal University, na China, levantaram a hipótese de que o treinamento precisa ser mais específico: os exercícios deveriam incluir conteúdo emocional para serem eficazes. Essa abordagem é chamada de treinamento de memória de trabalho emocional. Os pesquisadores quiseram testar se essa integração emocional produziria resultados melhores do que o treinamento padrão. Eles desenharam uma investigação em duas partes com estudantes universitários. O objetivo era primeiro mapear os movimentos oculares associados à ansiedade e, depois, tentar modificá‑los.
No primeiro experimento, a equipe buscou confirmar exatamente como a ansiedade altera os padrões de olhar. Eles recrutaram 69 estudantes de graduação e dividiram esses participantes em dois grupos com base em seus escores em uma escala de ansiedade social. Um grupo tinha altos níveis de ansiedade social e o outro, níveis baixos. Os pesquisadores usaram tecnologia de rastreamento ocular de alta precisão para monitorar onde os participantes olhavam na tela do computador. Os participantes realizaram uma tarefa conhecida como paradigma dot‑probe: a tela mostrava simultaneamente duas faces por um momento breve, uma neutra e a outra com expressão zangada ou feliz. Após as imagens desaparecerem, um ponto aparecia no lugar de uma das faces e os participantes tinham de apertar um botão para indicar onde o ponto estava. O rastreador registrava exatamente para onde seus olhos se moviam durante os poucos milissegundos em que as faces eram visíveis.
Os resultados mostraram uma distinção clara entre os dois grupos. Os estudantes com alta ansiedade social demonstraram forte viés para as faces zangadas: seus olhos iam imediatamente para a imagem ameaçadora. Essa métrica, chamada de “orientação de fixação inicial”, mede o que os olhos veem primeiro. O grupo de alta ansiedade não só olhava o rosto ameaçador primeiro, como também passava mais tempo olhando para ele. Em contraste, o grupo de baixa ansiedade mostrava o padrão oposto, tendendo a olhar primeiro para as faces felizes, sugerindo que indivíduos não ansiosos podem ter um viés protetor em favor de pistas sociais positivas. Os pesquisadores também descobriram que os estudantes altamente ansiosos tinham dificuldade em se desligar das faces zangadas; uma vez fixada a atenção na ameaça, ela permanecia presa ali, confirmando que a vigilância precoce é uma característica chave da ansiedade social.
Com essa linha de base estabelecida, os pesquisadores partiram para o segundo experimento. Eles convidaram 58 estudantes com alta ansiedade social a participar de um programa de treinamento. Esses alunos foram aleatoriamente designados a dois grupos: um recebeu o treinamento experimental de memória de trabalho emocional e o outro recebeu a versão padrão, não emocional, como controle. Ambos frequentaram 20 sessões de treinamento ao longo de um mês. O treinamento utilizou uma tarefa chamada “dual n‑back”, um exercício cognitivamente exigente em que os participantes monitoram duas sequências de informações simultaneamente, lembrando itens e identificando quando um item atual corresponde a outro apresentado várias etapas antes. O grupo controle usou formas e números neutros; o grupo emocional usou rostos e palavras emocionais. A dificuldade ajustava‑se automaticamente conforme o desempenho.
Após o mês de treinamento, os estudantes retornaram ao laboratório e repetiram o teste de rastreamento ocular para ver se os padrões de olhar haviam mudado. Os dados mostraram melhora específica no grupo que fez o treinamento emocional: esses participantes apresentaram uma redução marcante na tendência de olhar primeiro para faces zangadas. O viés de “orientação de fixação inicial” em direção à ameaça diminuiu, sugerindo que o treinamento emocional recalibrou a atenção automática, ensinando o cérebro a filtrar sinais de ameaça irrelevantes. O grupo controle não mostrou essa melhora específica. Embora o treinamento tenha alterado a direção inicial do olhar, ele não mudou o tempo de permanência: a duração da fixação permaneceu semelhante à de antes do treinamento. Isso indica que a intervenção afetou principalmente o estágio inicial e automático da atenção, ajudando a prevenir o “snap” inicial para o perigo, mas sendo menos eficaz para olhar para longe depois que a atenção já se fixou.
Ambos os grupos melhoraram em tarefas cognitivas gerais, mas apenas o grupo emocional viu a transferência dessas habilidades para o processamento de expressões faciais. Os autores observam que o conteúdo específico do treinamento é importante: fortalecer o cérebro de modo geral não corrige automaticamente os vieses emocionais; o cérebro parece precisar praticar com dados emocionais para melhorar sua regulação. O estudo tem limitações: os participantes eram estudantes universitários com altos escores de ansiedade, mas não pacientes clínicos com Transtorno de Ansiedade Social, e os resultados podem diferir em populações com sintomas mais severos. Além disso, as palavras emocionais usadas no treinamento eram geralmente negativas e não específicas de rejeição social; palavras mais alinhadas aos medos sociais poderiam produzir efeitos mais fortes. Também não se sabe por quanto tempo os benefícios persistem sem prática contínua.
Apesar desses fatores, a pesquisa fornece evidências de um mecanismo de mudança, sugerindo que processos atencionais precoces são maleáveis. Os dados de rastreamento ocular oferecem prova objetiva de que o treinamento cognitivo pode alterar reações fisiológicas rápidas. Essa abordagem poderá complementar terapias tradicionais como a terapia cognitivo-comportamental, tornando os exercícios de exposição mais toleráveis ao reduzir o viés automático de buscar ameaças. O estudo destaca a ligação intrincada entre controle cognitivo e processamento emocional e sugere que, ao fortalecer a capacidade do cérebro de lidar com informações emocionais, podemos atenuar o reflexo automático de procurar medo em uma sala cheia de gente.



