Pessoas que cresceram em ambientes mais duros ou imprevisíveis tendem a relatar relacionamentos românticos de pior qualidade na vida adulta, em parte porque investem mais esforço em buscar novos parceiros. Este estudo foi publicado na revista Evolutionary Psychology.
Décadas de pesquisas em psicologia demonstram que os ambientes familiares precoces moldam os relacionamentos amorosos na vida adulta. Indivíduos expostos à instabilidade, conflitos ou dificuldades econômicas na infância têm maior probabilidade de vivenciar menor satisfação nos relacionamentos e níveis mais elevados de conflito posteriormente. Tradicionalmente, essas associações têm sido explicadas pela teoria do apego, que se concentra em como as interações iniciais com cuidadores moldam expectativas sobre proximidade, confiança e segurança emocional nas parcerias adultas.
Monika Kwiek e colegas buscaram ampliar essa perspectiva integrando a teoria do apego com a teoria da história de vida, um referencial evolutivo que enfatiza como os ambientes iniciais moldam estratégias de longo prazo para acasalamento e parentalidade. Enquanto a teoria do apego se centra nos vínculos emocionais, a teoria da história de vida destaca como as pessoas distribuem esforços entre a busca por parceiros (esforço de acasalamento) e o investimento em filhos e na vida familiar de longo prazo (esforço parental).
Os pesquisadores recrutaram 332 adultos poloneses (idade média de 39 anos) que tinham filhos. Esses participantes foram recrutados por meio de estudantes de psicologia da Universidade Jagiellonian. Essa amostra de adultos de meia-idade do Leste Europeu permitiu testar teorias que frequentemente são examinadas principalmente em populações de estudantes norte-americanos.
Os participantes responderam a uma série de questionários que avaliaram aspectos centrais de seus relacionamentos românticos atuais, orientações de apego, tendências de acasalamento e parentalidade, e características dos ambientes da infância.
A satisfação no relacionamento romântico foi medida por meio de sete itens que captam o quanto o relacionamento atende às expectativas e a felicidade geral com o parceiro (por exemplo: “Meu relacionamento atendeu às minhas expectativas iniciais”). O conflito no relacionamento foi avaliado a partir de perguntas sobre a frequência e a intensidade de desentendimentos, especialmente aqueles envolvendo desconfiança ou reatividade emocional (por exemplo: “Meu parceiro e eu discutimos com frequência porque não confio nele/nela”).
Os estilos de apego foram medidos em duas dimensões: ansiedade de apego e evitação do apego, refletindo, respectivamente, tendências ao medo de abandono e ao desconforto com a proximidade (por exemplo: “Preciso de muita reafirmação de que sou amado(a) pelo meu parceiro” e “Quero me aproximar do meu parceiro, mas acabo recuando”).
O esforço de acasalamento foi avaliado por itens que captavam competitividade com pares, flerte e busca por parceiros novos ou indisponíveis, enquanto o esforço parental se concentrou em cuidados, apoio emocional e investimento de recursos nos filhos e na vida familiar.
Os pesquisadores também coletaram relatos retrospectivos sobre a dureza e imprevisibilidade da infância, como instabilidade financeira, mudanças frequentes de residência ou ausência parental, além de percepções sobre segurança do bairro e coesão social durante o crescimento. Informações sobre escolaridade dos pais foram incluídas como um indicador adicional do contexto socioeconômico inicial. Todas as medidas foram traduzidas para o polonês por meio de procedimentos validados.
Os resultados revelaram que o esforço de acasalamento foi um caminho central ligando os ambientes precoces à qualidade dos relacionamentos românticos na vida adulta. Indivíduos que cresceram em condições mais duras ou imprevisíveis relataram maior esforço de acasalamento na idade adulta, o que esteve associado a menor satisfação no relacionamento e maior conflito. Essas associações se mantiveram mesmo após o controle da ansiedade e da evitação do apego, sugerindo que o esforço de acasalamento contribuiu de forma única para os desfechos do relacionamento, e não apenas como reflexo de um apego inseguro.
Embora os ambientes iniciais tenham se relacionado ao investimento parental posterior, o esforço parental em si não esteve associado à satisfação ou ao conflito no relacionamento romântico. Isso sugere que orientações voltadas ao cuidado podem ser moldadas pelas condições da infância sem influenciar diretamente a qualidade da parceria amorosa, enquanto comportamentos ligados ao acasalamento parecem estar mais diretamente conectados à dinâmica do casal.
Os estilos de apego apresentaram relações distintas com as dimensões da história de vida. Maior evitação do apego, mas não maior ansiedade de apego, esteve associada a menor esforço parental, enquanto nenhuma das dimensões de apego se relacionou de forma significativa com o esforço de acasalamento.
Em conjunto, esses achados sugerem que estratégias de acasalamento e orientações de apego refletem vias parcialmente independentes pelas quais experiências precoces moldam os relacionamentos românticos na vida adulta, com o esforço de acasalamento desempenhando um papel mais direto na satisfação e no conflito do relacionamento.
Cabe destacar que a amostra era altamente escolarizada e predominantemente feminina, o que limita a generalização dos resultados e reflete um viés comum em pesquisas de história de vida, que tendem a incluir populações associadas a estratégias de história de vida mais lentas.
O estudo, “Life History, Attachment and Romantic Relationship Outcomes in an Eastern European Adult Sample”, foi conduzido por Monika Kwiek, Daniel J. Kruger e Przemyslaw Piotrowski.



