Uma nova análise de dados de mais de 50 mil pessoas indica que os homens apresentam um padrão de atração sexual mais exclusivo do que as mulheres. A pesquisa mostra que, enquanto os homens tendem a preferir fortemente um gênero em detrimento do outro, as mulheres costumam apresentar uma gama mais ampla de possíveis atrações. Esses resultados foram publicados em uma revista científica especializada em pesquisa sobre sexualidade.
Durante décadas, pesquisadores tentaram mapear as diferenças na forma como homens e mulheres vivenciam o desejo sexual. Estudos mais antigos frequentemente se baseavam na medição de sinais físicos de excitação em ambientes de laboratório. Esses experimentos costumavam sugerir que os homens são “específicos por gênero”, ou seja, geralmente demonstram excitação física apenas ao visualizar o gênero pelo qual se sentem atraídos.
Em contraste, esses mesmos estudos históricos frequentemente encontravam que mulheres heterossexuais apresentavam excitação física ao observar imagens tanto de homens quanto de mulheres. Isso levou à teoria predominante de que a sexualidade feminina seria inerentemente menos específica do que a masculina. No entanto, permanecia a dúvida se esse padrão também se aplicava aos sentimentos psicológicos de atração e às fantasias sexuais.
Para responder a essa questão, Sapir Keinan-Bar, Yoav Bar-Anan e Daphna Joel, pesquisadores da Escola de Ciências Psicológicas e da Escola Sagol de Neurociência da Universidade de Tel Aviv, conduziram a investigação atual. Eles buscaram determinar se a diferença entre homens e mulheres em relação à especificidade de gênero também aparece quando se medem sentimentos autorrelatados e associações subconscientes, além de examinar como esses padrões se manifestam em diferentes orientações sexuais.
A equipe reuniu dados de três grandes bases online independentes, totalizando 56.892 participantes. Os dados vieram de voluntários que acessaram sites de pesquisa ou utilizaram plataformas de questionários pagos. Os pesquisadores analisaram respostas a perguntas diretas sobre identidade sexual, nas quais os participantes avaliavam, em escalas numéricas, seu nível de atração por homens e por mulheres. Eles também relataram a frequência de fantasias eróticas envolvendo homens ou mulheres, permitindo a comparação dos relatos conscientes de desejo.
Além dessas perguntas diretas, o estudo utilizou medidas indiretas de atração. Uma das principais ferramentas foi o Teste de Associação Implícita, um procedimento computadorizado que avalia a força das conexões mentais entre diferentes conceitos. Durante esse teste, o participante classifica palavras ou imagens em categorias como “homens” ou “mulheres” e “sinto atração sexual” ou “não sinto atração sexual”. A velocidade com que a pessoa realiza essa tarefa indica a força das associações automáticas: respostas mais rápidas sugerem conexões mentais mais fortes.
Os pesquisadores também utilizaram uma variação chamada Teste de Associação Implícita Baseado em Questionário, que emprega afirmações em vez de palavras ou imagens isoladas. Essa versão avalia a atração por homens e mulheres separadamente, em vez de compará-las diretamente.
A análise desse amplo conjunto de dados revelou um padrão consistente: os homens, em geral, apresentaram maior especificidade de gênero do que as mulheres. Essa tendência apareceu nos relatos de atração, na frequência de fantasias e nas medidas indiretas de associação. Os dados mostraram que os homens relataram níveis muito altos de atração pelo gênero preferido e níveis muito baixos de atração pelo gênero não preferido, criando uma grande diferença estatística entre o que desejam e o que rejeitam.
As mulheres, por outro lado, apresentaram um perfil diferente. Elas relataram níveis um pouco menores de atração pelo gênero preferido em comparação aos homens e, mais importante, níveis mais altos de atração pelo gênero não preferido. Isso sugere que, do ponto de vista psicológico, as mulheres são mais abertas à atração por um gênero que não seja o principal.
O estudo também esclareceu a natureza da atração entre mulheres heterossexuais. Ao contrário de algumas interpretações de estudos fisiológicos antigos, mulheres heterossexuais não se mostraram completamente inespecíficas. Elas demonstraram preferência clara por homens em relatos diretos e em medidas indiretas. No entanto, a intensidade dessa preferência não foi tão exclusiva quanto a preferência que homens heterossexuais demonstraram por mulheres. As mulheres apresentaram uma preferência distinta, mas menos extrema, um padrão consistente em diferentes amostras.
A pesquisa também analisou participantes que se identificaram como gays ou lésbicas. Nesses grupos, a diferença de especificidade entre homens e mulheres foi diferente. A grande disparidade observada entre homens e mulheres heterossexuais frequentemente foi menor, inexistente ou até invertida entre participantes gays e lésbicas. Em alguns casos, mulheres lésbicas apresentaram níveis de especificidade semelhantes ou até maiores do que homens gays, sugerindo que o alto grau de exclusividade observado em homens heterossexuais pode ser uma característica específica desse grupo, e não um traço universal da sexualidade masculina.
A análise das fantasias sexuais reforçou os resultados sobre atração. Os homens relataram fantasias quase exclusivamente com o gênero preferido. As mulheres também relataram fantasias principalmente com o gênero preferido, mas com exceções mais frequentes do que os homens.
Os autores avaliaram diversas explicações teóricas para esses achados. Uma hipótese comum afirma que os homens simplesmente teriam um desejo sexual mais elevado do que as mulheres. Os dados, no entanto, desafiaram essa ideia. Se esse fosse o caso, os homens deveriam relatar maior atração por todos os gêneros. Em vez disso, as mulheres relataram maior atração pelo gênero não preferido do que os homens, indicando que a diferença não se resume à quantidade total de desejo sexual.
Outra explicação considera o impacto das normas sociais. A sociedade frequentemente impõe expectativas rígidas sobre a masculinidade heterossexual, e os homens podem sofrer sanções sociais ao demonstrar interesse por outros homens. Essa pressão social pode incentivar os homens a relatar atração extrema por mulheres e negar qualquer atração por homens, produzindo o padrão altamente específico observado. As mulheres, em geral, enfrentam menos estigma social ao expressar maior flexibilidade em suas atrações.
Os autores também discutiram a teoria da objetificação sexual. Na cultura ocidental, mulheres são frequentemente retratadas como objetos sexuais, o que pode levar pessoas de todos os gêneros a desenvolver algum grau de atração por mulheres. Os resultados ofereceram certo suporte a essa hipótese: em geral, a atração pelo gênero não preferido foi maior quando esse gênero era feminino. Por exemplo, mulheres heterossexuais relataram mais atração por mulheres do que homens heterossexuais relataram por homens.
Os pesquisadores destacaram ainda a importância de categorias mais detalhadas para a orientação sexual. O estudo permitiu que os participantes se identificassem como “majoritariamente heterossexuais” ou “majoritariamente gays”, em vez de usar apenas categorias rígidas. Essa nuance revelou que boa parte da flexibilidade observada vinha das pessoas que se encaixavam nessas categorias intermediárias. As mulheres foram mais propensas do que os homens a se identificar nessas categorias, enquanto os homens tenderam a se identificar como exclusivamente heterossexuais ou gays, o que é coerente com o achado de maior especificidade masculina.
O estudo apresenta limitações. Os dados vieram de amostras online, que podem não representar perfeitamente a população geral. Os participantes eram majoritariamente falantes de inglês e provavelmente mais jovens e liberais. As medidas também dependem da honestidade nos autorrelatos e da suposição de que o tempo de reação reflita atração, o que são aproximações da experiência real. Além disso, a pesquisa não mediu excitação fisiológica, o que impede comparações diretas com estudos laboratoriais mais antigos.
Pesquisas futuras poderão investigar esses padrões em diferentes culturas. Examinar sociedades com normas de gênero distintas pode ajudar a separar tendências biológicas de condicionamentos sociais. Também seria relevante verificar se a alta especificidade observada em homens heterossexuais se mantém em culturas com concepções diferentes de masculinidade. O estudo foi intitulado “Gender-Specificity in Sexual Attraction and Fantasies: Evidence from Self-Report and Indirect Measures” e foi conduzido por Sapir Keinan-Bar, Yoav Bar-Anan e Daphna Joel.



