Pesquisas recentes sugerem que o consumo frequente de alimentos ultraprocessados está associado a uma queda significativa no bem-estar mental e a uma maior prevalência de sofrimento mental clínico. Os achados indicam que esses hábitos alimentares podem contribuir para dificuldades específicas na regulação emocional, no funcionamento cognitivo e para sentimentos depressivos. Essa análise em larga escala foi publicada na revista Frontiers in Nutrition.
Evidências científicas já estabeleceram fortes conexões entre o processamento industrial de alimentos e problemas físicos como doenças cardíacas e diabetes. A literatura existente também aponta associações entre uma dieta de baixa qualidade e riscos aumentados de depressão ou ansiedade.
No entanto, o impacto mais amplo desses alimentos sobre o funcionamento mental geral ainda era menos claro. Os autores do novo estudo buscaram quantificar a carga total que esses alimentos impõem à saúde mental global. Eles procuraram determinar quanto do sofrimento mental clínico na população geral poderia ser atribuído especificamente às escolhas alimentares, e não a outras circunstâncias da vida.
“Estávamos tentando entender o que está impulsionando a queda dos escores de saúde mental em cada geração mais jovem que observamos no Global Mind Project”, afirmou a autora do estudo Tara C. Thiagarajan, da Sapien Lab.
“O quociente de saúde mental, ou MHQ, é uma métrica que agrega capacidades positivas e sintomas de saúde mental em um escore geral que reflete a capacidade de lidar com os desafios da vida e funcionar de forma produtiva. Embora tenhamos analisado fatores como smartphones e vínculos familiares, que contribuem para isso, eles não explicavam todo o efeito. Decidimos então investigar os alimentos ultraprocessados como uma possibilidade, dado o aumento de seu consumo entre as gerações mais jovens e o número crescente de aditivos alimentares não regulamentados, muitos dos quais são conhecidos por serem neurotóxicos.”
O Global Mind Project coleta informações sobre saúde mental por meio de uma avaliação on-line chamada Mind Health Quotient. Para este estudo, os pesquisadores analisaram respostas de 400.787 adultos de 60 países, coletadas em 2023.
Os participantes completaram uma avaliação abrangente com 47 itens que cobriam uma ampla gama de sintomas e funções mentais. Essas avaliações geraram um escore que variava de sofrimento intenso a pleno florescimento.
O questionário perguntava com que frequência os participantes consumiam alimentos processados, embalados ou fast food não preparados com ingredientes frescos. Os exemplos incluíam fast food, bebidas açucaradas, refeições de micro-ondas e lanches salgados. Os respondentes escolheram uma frequência que ia de “raramente/nunca” até “várias vezes ao dia”.
Para analisar esse conjunto de dados complexo, os pesquisadores utilizaram modelos avançados de aprendizado de máquina capazes de processar simultaneamente 108 diferentes fatores de vida. Essa abordagem permitiu isolar a influência específica da dieta, levando em conta outras variáveis que afetam a saúde mental.
A análise revelou um declínio consistente no bem-estar mental à medida que a frequência de consumo de alimentos ultraprocessados aumentava. Indivíduos que consumiam esses alimentos várias vezes ao dia apresentaram escores significativamente mais baixos de saúde mental em comparação com aqueles que raramente ou nunca os consumiam. Os dados indicaram uma relação gradual, na qual cada aumento na frequência de consumo correspondia a uma piora do bem-estar.
Alguns sintomas mostraram-se mais sensíveis aos hábitos alimentares do que outros. Os resultados indicaram que sintomas associados à depressão, como sentimentos de tristeza e sofrimento emocional, estavam fortemente ligados ao alto consumo de alimentos processados.
Além disso, os dados mostraram que consumidores frequentes apresentavam mais dificuldades de controle cognitivo, como manter o foco. Problemas de controle emocional, como dificuldade em lidar com a raiva, também foram mais prevalentes nesse grupo.
Os achados sugerem que, se uma pessoa “está se sentindo deprimida ou enfrentando desafios no controle emocional e cognitivo (por exemplo, irritar-se ou chorar facilmente, ou ter dificuldade de concentração), o consumo de alimentos ultraprocessados pode ser o motivo”, disse Thiagarajan ao PsyPost.
Um aspecto central da análise foi isolar a dieta de outras possíveis causas de sofrimento. A associação negativa entre alimentos processados e bem-estar mental permaneceu forte mesmo após o controle da frequência de exercícios físicos e do histórico de traumas.
Indivíduos que se exercitavam regularmente, mas consumiam alimentos processados com frequência, relataram pior bem-estar mental do que aqueles que se exercitavam regularmente e consumiam alimentos integrais. Isso sugere que o exercício pode não ser suficiente para compensar totalmente os impactos mentais negativos de uma dieta inadequada.
Os pesquisadores também examinaram o papel do nível socioeconômico. A análise mostrou que uma renda elevada não parecia proteger contra os efeitos de uma dieta baseada em alimentos processados.
Pessoas com renda mais alta que consumiam alimentos processados com frequência apresentaram escores de saúde mental semelhantes aos de pessoas com renda mais baixa que raramente consumiam esse tipo de alimento. Esse achado sugere que a qualidade nutricional da alimentação pode ser um fator mais importante para o bem-estar mental do que os recursos financeiros nesse contexto.
Os pesquisadores utilizaram seus modelos para estimar a proporção de sofrimento mental potencialmente causada por esses hábitos alimentares. As simulações sugeriram que entre 3,4% e 7,8% da amostra global total apresentou sofrimento mental em nível clínico associado ao consumo de alimentos ultraprocessados. Esse percentual representa um número expressivo de indivíduos quando aplicado a grandes populações.
Nos Estados Unidos e em outros países de língua inglesa, a carga estimada foi consideravelmente maior. O estudo estima que, entre jovens adultos de 18 a 34 anos nessas regiões, a dieta pode responder por uma parcela substancial dos casos de sofrimento mental clínico. Esse impacto pareceu ser menor em populações mais velhas, possivelmente devido a hábitos alimentares diferentes ao longo da vida.
“Os efeitos são substanciais. Em primeiro lugar, aqueles que consomem alimentos ultraprocessados todos os dias (grupo dominado por homens jovens) têm quase quatro vezes mais chance de apresentar diagnósticos clínicos de saúde mental do que aqueles que raramente consomem esse tipo de alimento”, explicou Thiagarajan.
“Entre os que consomem alimentos ultraprocessados quase diariamente, nosso estudo mostra que cerca de um terço dos problemas clínicos de saúde mental pode ser atribuído a esse hábito alimentar, após o controle de inúmeros outros fatores causais possíveis. Em segundo lugar, quanto mais você consome, mais triste e desregulado você fica. É uma escala contínua — não existe uma quantidade ‘boa’.”
Os pesquisadores discutem vários mecanismos biológicos que podem explicar esses achados. Alimentos ultraprocessados frequentemente contêm aditivos e carecem de nutrientes essenciais para a saúde cerebral. Esses alimentos podem alterar o microbioma intestinal, que se comunica diretamente com o cérebro. Alterações nesse sistema já foram associadas à regulação do humor e ao funcionamento cognitivo.
Além disso, alimentos altamente processados costumam ser densos em calorias, mas pobres em nutrientes. O consumo frequente pode substituir alimentos integrais que fornecem vitaminas e minerais críticos para o desenvolvimento neural. Os pesquisadores sugerem que o efeito cumulativo dessas deficiências nutricionais pode comprometer a capacidade do cérebro de funcionar de maneira ideal.
Apesar do grande tamanho da amostra, o estudo apresenta algumas limitações. O desenho foi transversal, ou seja, captou um retrato em um único momento, em vez de acompanhar as pessoas ao longo dos anos. Isso impede afirmar com certeza que os alimentos causam o sofrimento, já que pessoas com sofrimento mental podem fazer escolhas alimentares diferentes.
O estudo também se baseou em dados autorrelatados, que podem estar sujeitos a erros de memória ou à interpretação individual das perguntas. A definição de alimento ultraprocessado também pode variar entre culturas e indivíduos. Respondentes de diferentes países podem ter pensado em tipos distintos de alimentos ao responder à pesquisa.
Pesquisas futuras são necessárias para validar esses achados por meio de estudos longitudinais. Acompanhar os participantes ao longo do tempo ajudaria a estabelecer se mudanças na dieta precedem mudanças na saúde mental. Os autores também sugerem que ensaios clínicos poderiam ajudar a determinar se a eliminação desses alimentos leva a melhorias diretas nos sintomas mentais.
O estudo sugere que reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados pode ser uma estratégia viável para melhorar a saúde mental da população. Os resultados fornecem evidências para a incorporação de recomendações alimentares em diretrizes de saúde mental. Os pesquisadores argumentam que intervenções de políticas públicas, como rotulagem ou tributação, podem ser necessárias para mudar padrões de consumo.
Olhando para o futuro, os pesquisadores “gostariam de entender melhor os efeitos de diferentes tipos de alimentos ultraprocessados e também até que ponto esses efeitos são reversíveis quando se interrompe o consumo”, afirmou Thiagarajan.
O estudo, intitulado “Estimation of the nature and magnitude of mental distress in the population associated with ultra-processed food consumption”, foi assinado por Jerzy Bala, Oleksii Sukhoi, Jennifer Jane Newson, Priscila Pereira Machado, Mark Lawrence e Tara C. Thiagarajan.



