Um novo estudo publicado na revista Computers in Human Behavior sugere que receber uma notificação no smartphone interrompe a concentração de uma pessoa por cerca de sete segundos. A pesquisa mostra que a frequência com que alguém verifica o celular e o número de notificações recebidas são melhores preditores dessa distração do que o tempo total diário de uso de tela. Esses achados indicam que hábitos digitais fragmentados desempenham um papel significativo na forma como a tecnologia afeta a atenção humana.
Embora estudos anteriores já tenham demonstrado que notificações prejudicam o desempenho em tarefas, muitos utilizaram alertas artificiais que não refletiam condições reais. Além disso, frequentemente não mediam com precisão a duração da distração nem isolavam os mecanismos psicológicos envolvidos.
Os pesquisadores buscaram separar as diferentes razões pelas quais uma notificação captura a atenção. Eles investigaram se a distração ocorre devido à saliência perceptiva — ou seja, o impacto visual repentino do alerta —, ao condicionamento (hábitos aprendidos de responder ao celular) ou à relevância pessoal da mensagem.
“As pessoas recebem um número muito grande de notificações diariamente (mais de 100 por dia, em média, na nossa amostra). Embora já se saiba que notificações capturam automaticamente a atenção, sabemos menos sobre os mecanismos cognitivos envolvidos e por que algumas pessoas são mais vulneráveis do que outras”, explicou o autor Hippolyte Fournier, pesquisador da University of Lausanne.
O estudo contou com 180 estudantes universitários, com média de idade de cerca de 21 anos, divididos aleatoriamente em três grupos. Todos realizaram a tarefa de Stroop, um teste clássico de atenção e processamento cognitivo.
Na tarefa, palavras que representam cores aparecem na tela, mas com cores diferentes do que está escrito (por exemplo, a palavra “azul” escrita em vermelho). Os participantes devem identificar a cor da fonte, ignorando o significado da palavra — o que exige esforço cognitivo intenso. Durante essa atividade, notificações semelhantes às de smartphones eram exibidas na tela.
Para tornar a experiência realista, os pesquisadores utilizaram uma estratégia de engano experimental. No primeiro grupo, os participantes acreditavam que seus próprios celulares estavam conectados ao computador, fazendo com que as notificações parecessem pessoais.
No segundo grupo, os participantes viam notificações realistas de redes sociais, mas sabiam que pertenciam a outra pessoa. Isso permitiu testar o efeito do condicionamento sem relevância pessoal.
No terceiro grupo, os participantes viam notificações borradas, sem conteúdo legível, apenas com movimento visual semelhante a alertas reais, isolando o efeito da saliência perceptiva.
Antes do experimento, os participantes responderam questionários sobre ansiedade (incluindo ansiedade social e medo de ficar de fora — FOMO). Após o experimento, os pesquisadores coletaram três semanas de dados reais de uso de smartphone para analisar padrões de comportamento.
Os resultados mostraram que uma única notificação desacelera o processamento cognitivo por cerca de sete segundos. Esse efeito ocorreu em todos os grupos, mas foi mais forte quando a notificação era percebida como pessoal.
Isso sugere que a distração resulta de uma combinação de fatores: impacto visual, hábitos aprendidos e relevância emocional.
Dentro do grupo de notificações pessoais, o nível de distração variou conforme a relevância percebida. Notificações que despertavam maior emoção ou curiosidade causavam atrasos maiores na resposta.
Os pesquisadores também mediram a dilatação da pupila, um indicador fisiológico de ativação mental e emocional. As mudanças na pupila acompanharam os atrasos comportamentais, indicando que notificações emocionalmente relevantes geram respostas físicas mensuráveis no organismo.
Ao analisar os hábitos diários, os cientistas descobriram que o tempo total de tela não foi um bom preditor de distração. Em vez disso, o número de notificações recebidas e a frequência de checagem do celular tiveram maior impacto.
Pessoas com uso mais fragmentado — ou seja, que checam o celular frequentemente ao longo do dia — apresentaram maiores prejuízos de atenção.
“Nossos resultados sugerem que notificações interrompem o processamento cognitivo por cerca de sete segundos e que essa interrupção envolve múltiplos mecanismos, incluindo saliência perceptiva, condicionamento e relevância social”, afirmou Fournier.
“Mais importante, descobrimos que não é apenas o tempo total de uso que importa, mas a fragmentação do uso — o número de notificações e a frequência de checagem.”
Embora sete segundos pareçam pouco, o impacto acumulado é significativo, já que notificações podem ocorrer dezenas ou centenas de vezes por dia, prejudicando concentração e produtividade.
Curiosamente, os níveis de ansiedade não se mostraram fortemente relacionados à intensidade da distração no grupo principal. Isso sugere que, quando as notificações são percebidas como positivas ou interessantes, a ansiedade geral não altera significativamente o efeito.
Os pesquisadores destacam algumas limitações. A dilatação da pupila pode ser influenciada por fatores físicos, como iluminação da tela. Além disso, como as notificações eram geralmente percebidas como positivas, o estudo pode não refletir totalmente o impacto de mensagens negativas.
Os autores também alertam contra interpretações extremas, como evitar completamente redes sociais. O objetivo é promover um uso mais consciente e equilibrado da tecnologia.
“O objetivo não é proibição, mas uso informado e adaptativo”, afirmou Fournier.
Pesquisas futuras irão investigar como notificações se tornam tão eficazes em capturar atenção e se o uso frequente altera a capacidade de manter foco em objetivos de longo prazo. Outro foco será entender o comportamento de rolagem compulsiva e sua relação com regulação emocional.
Os pesquisadores também destacam o desafio de estudar esses efeitos em ambientes controlados sem perder realismo, e apontam que o uso de notificações reais no experimento abre caminhos promissores para pesquisas futuras.
O estudo, intitulado “Attention hijacked: How social media notifications disrupt cognitive processing”, foi conduzido por Hippolyte Fournier e colaboradores.



