Uma nova análise sugere que padrões específicos de adversidade na infância estão associados a um envelhecimento biológico mais acelerado em mulheres na vida adulta. A pesquisa indica que o impacto dessas experiências precoces varia de acordo com o sexo e o contexto racial ou étnico das pessoas. Publicados na revista Psychoneuroendocrinology, os achados destacam como desvantagens sociais vividas décadas atrás podem deixar marcas químicas duradouras no DNA.
Cientistas já estabeleceram que eventos difíceis na infância podem prejudicar a saúde a longo prazo. Esses eventos são frequentemente chamados de experiências adversas na infância, ou ACEs, e incluem situações como abuso físico, divórcio dos pais e instabilidade no lar.
Geralmente, os pesquisadores avaliam essas adversidades somando-as para criar um escore cumulativo. Uma pessoa que vivenciou divórcio e pobreza, por exemplo, receberia um escore dois. No entanto, esse método de contagem apresenta limitações.
Ele pressupõe que todas as experiências difíceis afetam o corpo da mesma forma e ignora o fato de que diferentes problemas costumam ocorrer simultaneamente. Um simples escore pode não captar combinações específicas de estressores que são particularmente prejudiciais.
Uma equipe de pesquisadores liderada por Xiaoyan Zhang, da Universidade de Nova York, buscou corrigir essa limitação. Eles utilizaram uma abordagem estatística que identifica padrões ocultos nos dados, permitindo agrupar indivíduos de acordo com os tipos específicos de adversidade que enfrentaram.
O estudo utilizou dados do Health and Retirement Study, uma grande pesquisa longitudinal que representa a população de adultos mais velhos nos Estados Unidos. A análise concentrou-se em 3.586 participantes que forneceram amostras de sangue em 2016.
A partir dessas amostras, os pesquisadores extraíram DNA para analisar a metilação. A metilação do DNA envolve marcas químicas que se ligam à molécula de DNA e podem ativar ou desativar genes sem alterar o código genético subjacente.
Os padrões de metilação mudam de forma previsível à medida que os seres humanos envelhecem. Isso permite aos cientistas criar “relógios epigenéticos” que estimam a idade biológica de uma pessoa. Quando a idade biológica é maior do que a idade cronológica, considera-se que o envelhecimento está ocorrendo de forma acelerada.
Os pesquisadores utilizaram três relógios epigenéticos avançados em sua análise. Dois deles, conhecidos como GrimAge e PhenoAge, foram desenvolvidos para prever riscos à saúde e expectativa de vida. O terceiro, chamado DunedinPoAm, funciona como um velocímetro, medindo a velocidade com que uma pessoa está envelhecendo em determinado momento.
Zhang e seus colegas buscaram interpretar esses marcadores biológicos a partir da perspectiva da interseccionalidade. Esse arcabouço teórico propõe que raça e sexo não são categorias isoladas, mas sistemas interligados que moldam experiências de vida e desfechos em saúde de maneira única.
A equipe inicialmente identificou padrões distintos de adversidade na infância. Eles observaram que esses padrões diferiam entre participantes hispânicos em comparação com participantes negros e brancos, o que exigiu análises separadas para garantir maior precisão.
Entre participantes negros e brancos, os modelos computacionais identificaram dois grupos principais. O primeiro foi a classe de “Baixa Adversidade”. O segundo foi a classe de “Adversidade Financeira”, caracterizada por dificuldades econômicas e pela necessidade de receber ajuda financeira durante a infância.
Entre participantes hispânicos, os modelos também identificaram dois grupos distintos. Um deles foi definido principalmente por “Baixa Escolaridade dos Pais”. O outro enfrentou “Adversidade Socioeconômica”, que incluía desemprego paterno e dificuldades financeiras, além da baixa escolaridade parental.
Em seguida, os pesquisadores examinaram as associações entre esses grupos e os relógios epigenéticos. Eles descobriram que mulheres que cresceram em contextos classificados como adversos apresentavam sinais de envelhecimento biológico mais rápido. Essa associação não foi estatisticamente clara entre os homens do estudo.
Mulheres negras e brancas no grupo de Adversidade Financeira apresentaram idades biológicas mais elevadas segundo o relógio GrimAge e também mostraram um ritmo de envelhecimento mais acelerado no DunedinPoAm, em comparação com mulheres do grupo de Baixa Adversidade.
No caso das mulheres hispânicas, aquelas no grupo de Adversidade Socioeconômica tenderam a apresentar idades biológicas mais altas no relógio PhenoAge e um envelhecimento mais rápido do que as mulheres do grupo de Baixa Escolaridade dos Pais. Isso sugere que a combinação de instabilidade financeira e desorganização familiar é especialmente desgastante para o organismo.
O estudo não encontrou os mesmos padrões entre os homens. Homens negros e brancos do grupo de Adversidade Financeira não envelheceram de forma significativamente mais rápida do que aqueles do grupo de Baixa Adversidade. Da mesma forma, homens hispânicos não apresentaram diferenças estatisticamente relevantes com base em sua classe de adversidade na infância.
No entanto, os pesquisadores observaram que, de modo geral, os homens exibiam envelhecimento biológico mais acelerado do que as mulheres em todos os grupos. Esse achado é consistente com dados médicos mais amplos, que mostram que homens costumam ter menor expectativa de vida e início mais precoce de algumas doenças relacionadas ao envelhecimento. A ausência de variação por classe de adversidade sugere que os homens podem envelhecer biologicamente por vias diferentes.
Os resultados observados nas mulheres dão suporte à hipótese do “desgaste” (weathering). Esse conceito propõe que o estresse crônico associado à desvantagem social e econômica vai desgastando os sistemas do corpo ao longo do tempo, e essa carga cumulativa acaba se manifestando como envelhecimento precoce.
A associação entre adversidade e envelhecimento em mulheres permaneceu mesmo após o controle de fatores do estilo de vida na idade adulta. Os pesquisadores ajustaram as análises para variáveis como tabagismo, índice de massa corporal e pobreza na vida adulta. Ainda assim, o vínculo entre dificuldades precoces e envelhecimento celular persistiu.
Isso sugere que o estresse vivido no início da vida pode se tornar biologicamente incorporado. As experiências estressantes durante períodos sensíveis do desenvolvimento parecem estabelecer uma trajetória de saúde que se estende até a velhice. Isso implica que intervenções realizadas apenas na idade adulta podem não ser suficientes para reverter totalmente os efeitos das desvantagens da infância.
Os pesquisadores observaram que o GrimAge foi o indicador mais consistente dessas diferenças. Esse relógio específico foi construído a partir de dados sobre tabagismo e proteínas plasmáticas para prever mortalidade, e sua sensibilidade o torna uma ferramenta robusta para detectar os custos biológicos de longo prazo do estresse.
Há limitações importantes a serem consideradas. O estudo baseou-se em relatos retrospectivos das experiências na infância, o que pode estar sujeito a falhas de memória. Além disso, a amostra foi composta por adultos mais velhos que sobreviveram até idades avançadas.
Esse foco em sobreviventes significa que o estudo pode não capturar indivíduos que morreram precocemente em decorrência de adversidades severas. Esse viés de sobrevivência pode atenuar as associações observadas. Os resultados também podem não se aplicar a gerações mais jovens, que enfrentam outros tipos de estressores contemporâneos.
Pesquisas futuras são necessárias para compreender por que homens e mulheres respondem de maneira diferente a essas exposições precoces. É possível que diferenças biológicas na forma como os sexos lidam com o estresse desempenhem um papel. Também é possível que papéis sociais de gênero influenciem a forma como o trauma é internalizado.
Os autores sugerem que estudos futuros incluam populações mais jovens. Acompanhar indivíduos ao longo do tempo ajudaria a confirmar como essas mudanças biológicas se desenvolvem. Compreender o momento em que essas alterações ocorrem pode revelar janelas ideais para intervenção.
Este estudo reforça a ideia de que nem toda adversidade na infância é igual. A combinação específica de dificuldades financeiras e instabilidade familiar é relevante. Além disso, o impacto biológico dessas experiências parece estar profundamente entrelaçado ao sexo e ao contexto social da pessoa.
Enfrentar desigualdades de saúde em adultos mais velhos pode exigir um olhar retrospectivo para os primeiros anos de vida. Políticas que reduzam a pobreza infantil e promovam estabilidade familiar podem gerar benefícios de longo prazo para o envelhecimento saudável. As evidências biológicas sugerem que redes de proteção social para crianças também são investimentos em saúde pública.
O estudo, intitulado “Adverse childhood experiences patterns and biological aging in a representative sample of older Americans”, foi assinado por Xiaoyan Zhang, Natalie Slopen, Ariel A. Binns e Adolfo G. Cuevas.



