Novas pesquisas sugerem que a menopausa é acompanhada por mudanças distintas na estrutura do cérebro e por um aumento significativo de desafios relacionados à saúde mental. Embora a terapia de reposição hormonal pareça ajudar a manter a velocidade de reação, ela não parece prevenir a perda de tecido cerebral nem aliviar sintomas de depressão, de acordo com este conjunto específico de dados. Essas observações foram publicadas on-line na revista Psychological Medicine.
A menopausa representa uma grande transição biológica, marcada pelo fim da menstruação e por uma queda acentuada nos hormônios reprodutivos. As mulheres frequentemente relatam uma variedade de sintomas nesse período, que vão desde ondas de calor até dificuldades com o sono e a regulação do humor.
Muitas pessoas recorrem à terapia de reposição hormonal para lidar com esses obstáculos físicos e psicológicos. Apesar do uso comum desses tratamentos, a comunidade médica ainda tem dúvidas sobre como essas mudanças hormonais afetam o próprio cérebro. Pesquisas anteriores produziram resultados mistos quanto a saber se os tratamentos hormonais protegem o cérebro ou se podem representar riscos.
Para esclarecer esses efeitos, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Cambridge realizou uma análise em larga escala. Katharina Zuhlsdorff, pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Cambridge, foi a autora principal do estudo.
Ela trabalhou ao lado da autora sênior Barbara J. Sahakian e de colegas dos Departamentos de Psiquiatria e Psicologia. O objetivo do grupo foi oferecer um panorama mais claro de como o fim da fertilidade influencia o bem-estar mental, as habilidades cognitivas e a arquitetura física do cérebro.
A equipe utilizou dados do UK Biobank, um enorme banco de dados biomédico que contém informações genéticas e de saúde de cerca de meio milhão de participantes. Para esta investigação específica, foi selecionada uma amostra de quase 125 mil mulheres.
As participantes foram divididas em três grupos distintos para fins de comparação: mulheres que ainda não haviam passado pela menopausa, mulheres pós-menopausa que nunca utilizaram terapia hormonal e mulheres pós-menopausa que faziam uso desse tipo de terapia.
A investigação avaliou inicialmente o bem-estar psicológico entre os diferentes grupos. Os dados mostraram que mulheres que já haviam passado pela menopausa relataram níveis mais elevados de ansiedade e depressão em comparação com aquelas que ainda não tinham passado por essa transição.
A qualidade do sono também pareceu piorar após esse marco biológico. Os pesquisadores observaram que mulheres que faziam uso de terapia de reposição hormonal relataram, na verdade, mais dificuldades de saúde mental do que aquelas que não utilizavam o tratamento. Esse grupo também relatou níveis mais altos de cansaço.
Esse resultado pareceu inicialmente contraintuitivo, já que a terapia hormonal costuma ser prescrita para ajudar no humor. Para compreender isso, os autores analisaram o histórico médico prévio das participantes. Eles descobriram que as mulheres que receberam essas terapias tinham maior probabilidade de já apresentar depressão ou ansiedade antes mesmo de iniciar a medicação. Isso sugere que os médicos podem estar prescrevendo os hormônios especificamente para mulheres que já enfrentam sintomas mais graves.
O estudo também avaliou a rapidez com que as participantes conseguiam pensar e processar informações. Os pesquisadores constataram que o tempo de reação normalmente diminui como parte do processo de envelhecimento.
No entanto, a menopausa pareceu acelerar esse declínio na velocidade de processamento. Nesse domínio específico, a terapia hormonal mostrou um possível benefício. Mulheres pós-menopausa que utilizavam hormônios apresentaram tempos de reação mais rápidos do que aquelas que não utilizavam, praticamente igualando-se às velocidades das mulheres pré-menopausa.
A doutora Katharina Zühlsdorff destacou a nuance desses achados cognitivos ao afirmar: “A menopausa parece acelerar esse processo, mas a TRH parece frear um pouco, desacelerando ligeiramente o envelhecimento”.
Embora os tempos de reação variassem, o estudo não encontrou diferenças semelhantes no desempenho de memória. Os pesquisadores aplicaram tarefas destinadas a testar a memória prospectiva, que é a capacidade de lembrar de realizar uma ação no futuro. Também utilizaram uma tarefa de amplitude de dígitos para medir a capacidade da memória de trabalho. Em todos os três grupos, o desempenho nessas tarefas de memória permaneceu relativamente semelhante.
Um subconjunto menor, com cerca de 11 mil mulheres, realizou exames de ressonância magnética para medir o volume cerebral. Os pesquisadores concentraram-se na substância cinzenta, o tecido que contém o corpo das células nervosas. Eles analisaram especificamente regiões envolvidas na memória e na regulação emocional, incluindo o hipocampo, o córtex entorrinal e o córtex cingulado anterior.
O hipocampo é uma estrutura profunda no cérebro, em formato de cavalo-marinho, essencial para a aprendizagem e a memória. O córtex entorrinal funciona como uma porta de entrada, canalizando informações entre o hipocampo e o restante do cérebro. O córtex cingulado anterior desempenha um papel central no controle das emoções, do impulso e da tomada de decisões.
Os exames revelaram que mulheres pós-menopausa apresentavam volumes reduzidos de substância cinzenta nessas áreas-chave em comparação com mulheres pré-menopausa. Essa redução ajuda a explicar as taxas mais elevadas de problemas de humor nesse grupo. De forma inesperada, o grupo que fazia uso de terapia hormonal apresentou os menores volumes cerebrais de todos. O tratamento não pareceu prevenir a perda de tecido cerebral associada ao fim dos anos reprodutivos.
As regiões específicas identificadas no estudo são frequentemente implicadas em condições neurodegenerativas. A professora Barbara Sahakian destacou a possível importância de longo prazo dessa observação ao explicar: “As regiões do cérebro onde observamos essas diferenças são aquelas que tendem a ser afetadas pela doença de Alzheimer. A menopausa pode tornar essas mulheres mais vulneráveis no futuro”.
Embora o tamanho da amostra tenha sido grande, o desenho do estudo foi observacional, e não experimental. Isso significa que os pesquisadores puderam identificar associações, mas não podem afirmar de forma definitiva que a menopausa ou a terapia hormonal causaram as mudanças observadas.
A população do UK Biobank também tende a ser mais rica e saudável do que a população geral, o que pode enviesar os resultados. Além disso, o estudo baseou-se em dados autorrelatados para algumas medidas, o que pode introduzir imprecisões.
O achado relacionado à terapia hormonal e ao menor volume cerebral é difícil de interpretar sem pesquisas adicionais. Ainda não está claro se a medicação contribui para a redução ou se as mulheres que a utilizam já apresentavam estruturas cerebrais diferentes desde o início.
Os pesquisadores enfatizam que mais estudos são necessários para separar esses fatores. Pesquisas futuras poderiam examinar fatores genéticos ou outras condições de saúde que possam influenciar a forma como os hormônios afetam o cérebro.
Apesar dessas limitações, o estudo destaca a realidade biológica da menopausa, confirmando que essa transição envolve mais do que apenas mudanças reprodutivas.
Christelle Langley ressaltou a necessidade de sistemas de apoio mais amplos ao afirmar: “Todos nós precisamos ser mais sensíveis não apenas à saúde física, mas também à saúde mental das mulheres durante a menopausa e reconhecer quando elas estão enfrentando dificuldades”.
O estudo, intitulado “Emotional and cognitive effects of menopause and hormone replacement therapy”, foi assinado por Katharina Zuhlsdorff, Christelle Langley, Richard Bethlehem, Varun Warrier, Rafael Romero Garcia e Barbara J. Sahakian.



