A maioria das pessoas conhece bem a sensação de ansiedade ao aguardar o resultado de um exame médico ou de uma entrevista de emprego. Um novo estudo sugere que esse sentimento de apreensão é muito mais poderoso do que a empolgação de esperar por um desfecho positivo.
A pesquisa indica que a intensidade dessa apreensão leva as pessoas a evitar riscos e a exigir resultados imediatos. Esse comportamento ajuda a explicar por que impaciência e aversão ao risco costumam aparecer juntas nos mesmos indivíduos. Os achados foram publicados na revista Cognitive Science.
Economistas tradicionalmente enxergaram a disposição para correr riscos e a paciência como traços de personalidade separados. Em teoria, uma pessoa poderia ser ousada ao assumir riscos e, ao mesmo tempo, muito paciente. No entanto, pesquisadores frequentemente observam que essas duas características tendem a se correlacionar. Pessoas que evitam riscos geralmente são as mesmas que não gostam de esperar por uma recompensa.
Chris Dawson, da University of Bath, e Samuel G. B. Johnson, da University of Waterloo, buscaram explicar essa conexão. Eles propuseram que o elo está nas emoções que as pessoas sentem enquanto aguardam um resultado. Para isso, distinguiram as emoções vividas após um evento daquelas sentidas antes que ele aconteça.
Quando um evento ocorre, experimentamos emoções “reativas”. Sentimos prazer ao ganhar dinheiro ou desprazer ao perdê-lo. Antes do evento, porém, vivenciamos emoções “antecipatórias”. Podemos saborear a ideia de um ganho ou temer a possibilidade de uma perda.
Os pesquisadores levantaram a hipótese de que essas emoções antecipatórias não são simétricas. Eles suspeitavam que o medo de uma perda futura é muito mais intenso do que o prazer antecipado de um ganho futuro. Se isso for verdade, esperar por um resultado gera um custo psicológico significativo.
Para testar essa teoria, Dawson e Johnson analisaram um grande conjunto de dados do Reino Unido, utilizando o British Household Panel Survey e o estudo Understanding Society. Essas pesquisas acompanharam aproximadamente 14 mil indivíduos ao longo de um período que vai de 1991 a 2024.
A equipe precisava de uma forma de medir apreensão e antecipação positiva sem perguntar diretamente aos participantes. Eles desenvolveram um método inovador usando dados sobre expectativas financeiras e bem-estar geral. As pesquisas perguntavam aos participantes se eles esperavam que sua situação financeira melhorasse ou piorasse no ano seguinte.
Em seguida, os pesquisadores observaram como essas expectativas afetavam a felicidade atual dos participantes. Se uma pessoa esperava piorar financeiramente e sua felicidade diminuía, essa queda representava a apreensão. Se esperava melhorar e sua felicidade aumentava, esse aumento representava o prazer antecipado.
A análise revelou um desequilíbrio marcante entre esses dois estados emocionais. O impacto negativo de antecipar uma perda foi mais de seis vezes maior do que o impacto positivo de antecipar um ganho. Isso sugere que o cérebro humano atribui muito mais peso à dor futura do que ao prazer futuro.
Os pesquisadores também mediram as emoções “reativas” usando o mesmo método, observando como os participantes se sentiam após realmente vivenciarem uma perda ou um ganho financeiro. Como esperado, as perdas doeram mais do que os ganhos trouxeram satisfação.
No entanto, o desequilíbrio nas emoções reativas foi muito menor do que o observado nas emoções antecipatórias. As perdas concretizadas tiveram cerca do dobro do impacto dos ganhos concretizados. Já a apreensão antecipatória foi três vezes mais desequilibrada do que a experiência emocional após o evento.
Esse achado sugere que o próprio período de espera é uma grande fonte de sofrimento. Os pesquisadores descrevem esse fenômeno como “aversão à apreensão”, que é diferente do conceito mais conhecido de aversão à perda.
O estudo então conectou esses padrões emocionais às preferências econômicas. As pesquisas incluíam perguntas sobre a disposição geral dos participantes para correr riscos, além de medidas de paciência por meio de escalas de gratificação adiada.
Os resultados mostraram uma forte correlação entre altos níveis de apreensão e aversão ao risco. Pessoas que experimentavam apreensão intensa eram muito menos propensas a assumir riscos, o que faz sentido dentro do modelo proposto pelos pesquisadores.
Assumir um risco cria uma situação em que um resultado negativo é possível, o que desencadeia a apreensão. Ao evitar completamente o risco, o indivíduo elimina a fonte desse sentimento desagradável.
Os resultados também mostraram uma forte conexão entre apreensão e impaciência. Pessoas que sentiam altos níveis de apreensão estavam menos dispostas a esperar por recompensas. Isso também se alinha ao modelo dos pesquisadores.
Esperar por um resultado incerto prolonga a experiência de apreensão. Uma pessoa que odeia esperar pode estar simplesmente tentando reduzir o tempo que passa se sentindo ansiosa. Ao escolher recompensas imediatas, ela interrompe esse ciclo emocional.
O estudo constatou que o prazer antecipado desempenha um papel muito menor na tomada de decisões. O prazer de imaginar um resultado positivo geralmente é fraco, possivelmente porque essa antecipação positiva costuma vir misturada ao medo de que o evento desejado não aconteça.
Os autores verificaram se esses resultados poderiam ser explicados apenas por traços de personalidade. Por exemplo, uma pessoa com alto nível de neuroticismo poderia ser naturalmente mais ansiosa e avessa ao risco. Os pesquisadores controlaram estatisticamente os “Cinco Grandes” traços de personalidade em suas análises.
Mesmo após considerar o neuroticismo e outros traços, o efeito da apreensão permaneceu. Isso sugere que a assimetria das emoções antecipatórias é um mecanismo psicológico distinto, e não apenas um reflexo de uma personalidade mais ansiosa.
Essa pesquisa oferece uma explicação unificada para certos comportamentos econômicos. Ela sugere que preferências por risco e preferências temporais não são independentes, mas moldadas pelo desejo de gerenciar emoções antecipatórias.
Os autores usam a analogia de uma roleta para explicar seus achados. Quando uma pessoa aposta na roleta, ela não está apenas avaliando as chances de ganhar ou perder, mas também decidindo se consegue suportar a sensação de observar a roleta girar.
Se a apreensão de perder for avassaladora, a pessoa não apostará. Se apostar, desejará que a roleta pare o mais rápido possível. O simples ato de apostar gera um fluxo de desconforto emocional que dura até que o resultado seja conhecido.
Há algumas limitações no estudo. Ele se baseia em dados observacionais, e não em experimentos controlados. As emoções foram inferidas a partir de respostas a questionários, e não medidas fisiologicamente.
Além disso, o estudo pressupõe que mudanças no bem-estar são causadas por expectativas financeiras. É possível que outros fatores não medidos tenham influenciado tanto a felicidade quanto as expectativas. Ainda assim, o uso de dados longitudinais ajuda a controlar diferenças individuais estáveis.
Os achados têm implicações para diversos setores. Na área da saúde, pacientes podem evitar exames preventivos porque o medo de um resultado negativo supera o benefício de saber. Reduzir o tempo de espera pelos resultados pode incentivar mais pessoas a realizarem testes.
No campo financeiro, investidores podem preferir aplicações de baixo retorno em vez de ações para evitar a ansiedade das oscilações do mercado. Esse “prêmio da apreensão” pode explicar por que ativos considerados seguros costumam ser supervalorizados. Os investidores pagam um preço pela tranquilidade emocional.
Pesquisas futuras podem investigar formas de modificar essas emoções antecipatórias. Se as pessoas aprenderem a reduzir sua apreensão, talvez consigam tomar decisões melhores no longo prazo. Técnicas da terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, poderiam ajudar investidores e pacientes a lidar melhor com a ansiedade.
O estudo oferece uma nova lente para compreender a irracionalidade humana. Muitas vezes fazemos escolhas que parecem ruins no papel porque estamos otimizando nosso estado emocional imediato. Estamos dispostos a pagar um preço alto para evitar a sombra do futuro.
O estudo, intitulado “Asymmetric Anticipatory Emotions and Economic Preferences: Dread, Savoring, Risk, and Time”, foi assinado por Chris Dawson e Samuel G. B. Johnson.



