Uma nova pesquisa que utilizou técnicas avançadas de neuroimagem revela que a infecção pelo SARS-CoV-2 pode induzir alterações duradouras no cérebro, mesmo em indivíduos que se sentem totalmente recuperados. O estudo identificou mudanças específicas na microestrutura do tecido cerebral e nos níveis de substâncias químicas que distinguem pessoas com Long COVID daquelas que se recuperaram sem sintomas persistentes, bem como de indivíduos que nunca foram infectados. Esses achados foram publicados na revista Brain, Behavior, & Immunity – Health.
A disseminação global da COVID-19 resultou em um número significativo de pessoas que passaram a apresentar problemas de saúde persistentes, conhecidos como Long COVID. Entre os sintomas mais comuns estão fadiga intensa, disfunção cognitiva frequentemente descrita como “névoa mental” e distúrbios do sono.
A equipe de pesquisa do Centro Nacional de Neuroimunologia e Doenças Emergentes da Universidade de Griffith já havia estudado a Encefalomielite Miálgica/Síndrome da Fadiga Crônica (EM/SFC). Os pesquisadores observaram que os sintomas do Long COVID frequentemente se sobrepõem aos observados na EM/SFC, o que motivou a investigação de possíveis mecanismos cerebrais semelhantes entre essas condições.
Profissionais da saúde também notaram que, mesmo após a recuperação da fase aguda da COVID-19, alguns indivíduos continuam apresentando um leve retardo cognitivo. Estudos de imagem anteriores tentaram mapear essas alterações, mas produziram resultados inconsistentes.
Muitas dessas pesquisas não compararam diretamente três grupos distintos: pessoas com Long COVID, pessoas totalmente recuperadas e indivíduos que nunca contraíram o vírus. Para preencher essa lacuna, os pesquisadores utilizaram uma abordagem multimodal de ressonância magnética (MRI), que permitiu avaliar simultaneamente o conteúdo de mielina, a integridade do tecido cerebral e os níveis neuroquímicos.
“Quando a pandemia de COVID-19 surgiu, muitas pessoas começaram a apresentar sintomas semelhantes aos observados na EM/SFC. Essa observação nos motivou a investigar o Long COVID e determinar se ele envolve alterações cerebrais semelhantes às encontradas na EM/SFC”, afirmou o autor do estudo Kiran Thapaliya, pesquisador do Centro Nacional de Neuroimunologia e Doenças Emergentes. “Mesmo após a recuperação completa da COVID-19, alguns indivíduos continuaram relatando sintomas persistentes, como névoa mental. Isso nos levou a comparar alterações cerebrais entre três grupos: pessoas com Long COVID, indivíduos totalmente recuperados da COVID-19 e pessoas que nunca tiveram COVID-19.”
O estudo incluiu 47 participantes da região de Gold Coast, em Queensland, Austrália. A amostra foi composta por 19 indivíduos diagnosticados com Long COVID segundo diretrizes da Organização Mundial da Saúde, 12 indivíduos que se recuperaram da COVID-19 sem sintomas persistentes e 16 controles saudáveis sem histórico de infecção por SARS-CoV-2. Todos os participantes tinham entre 18 e 65 anos.
Os pesquisadores excluíram indivíduos com outras condições médicas relevantes para garantir que os resultados fossem específicos da COVID-19. Os participantes responderam a questionários detalhados sobre seus sintomas, avaliando níveis de dor, função física, gravidade da fadiga e comprometimento cognitivo. O grupo com Long COVID relatou níveis significativamente mais elevados de dor e fadiga, além de piores escores de função física e cognitiva em comparação aos outros grupos.
Os participantes foram submetidos a exames em um aparelho de ressonância magnética de 3 Tesla. Durante os exames, foram coletados três tipos principais de dados. Primeiramente, imagens ponderadas em T1 e T2 foram utilizadas para criar mapas de razão, que fornecem uma estimativa do conteúdo de mielina no cérebro. A mielina é a camada protetora que envolve as fibras nervosas e permite a comunicação rápida entre os neurônios.
Em segundo lugar, os pesquisadores utilizaram imagens por difusão, uma técnica que rastreia o movimento das moléculas de água no tecido cerebral, revelando a arquitetura microscópica do cérebro e a integridade da substância branca. Por fim, foi empregada a espectroscopia por ressonância magnética, que funciona como uma biópsia virtual, permitindo medir os níveis de substâncias químicas específicas em regiões cerebrais selecionadas. A análise química concentrou-se no córtex cingulado posterior, uma área envolvida em memória e emoção.
O estudo revelou diferenças amplas nos mapas de razão T1w/T2w, usados como indicador da intensidade do sinal de mielina. Comparando pacientes com Long COVID aos controles saudáveis, os pesquisadores encontraram maior intensidade de sinal no giro pré-central e no giro temporal médio. O giro pré-central é essencial para o controle motor, enquanto o giro temporal médio desempenha papel fundamental na memória. Esse aumento sugere possíveis processos de remielinização ou inflamação nessas regiões.
A comparação entre o grupo recuperado e o grupo com Long COVID mostrou diferenças ainda mais marcantes. Indivíduos recuperados apresentaram intensidades de sinal significativamente mais altas no tronco encefálico e no cerebelo em comparação aos pacientes com Long COVID. O tronco encefálico controla funções vitais, como o ciclo sono-vigília e o processamento da dor, enquanto o cerebelo coordena o movimento voluntário e o equilíbrio. A menor intensidade de sinal nessas áreas entre os pacientes com Long COVID pode estar relacionada à fadiga persistente e às limitações físicas relatadas.
Os pesquisadores também identificaram alterações em indivíduos que aparentemente se recuperaram completamente. Em comparação aos controles nunca infectados, o grupo recuperado apresentou maior intensidade de sinal no giro pré-central e no córtex cingulado posterior. Isso indica que o vírus pode deixar marcas no cérebro mesmo na ausência de sintomas evidentes, sugerindo a ocorrência de mudanças compensatórias após a infecção.
As imagens por difusão forneceram evidências adicionais de alterações estruturais. Pacientes com Long COVID apresentaram menor difusividade média nas regiões dentadas do cerebelo em comparação aos controles saudáveis. Essa medida está relacionada à densidade e organização do tecido, e valores mais baixos podem indicar restrição do movimento da água, possivelmente devido a inchaço ou remodelação tecidual. O grupo recuperado também mostrou menor difusividade no núcleo caudado em comparação aos controles. O núcleo caudado está envolvido em processos motores e de aprendizagem.
A análise química por espectroscopia destacou desequilíbrios metabólicos significativos, principalmente entre o grupo com Long COVID e o grupo recuperado. Os pacientes com Long COVID apresentaram níveis significativamente mais baixos de glutamina, um aminoácido que sustenta o sistema imunológico e a produção de energia. Essa redução sugere que o organismo pode estar esgotando suas reservas para combater inflamação persistente ou desregulação imunológica.
Por outro lado, os pacientes com Long COVID exibiram níveis mais elevados de N-acetilaspartato (NAA) em comparação ao grupo recuperado. O NAA é um marcador de saúde e metabolismo neuronal, e normalmente níveis baixos indicam dano. Contudo, os pesquisadores propõem que o aumento do NAA nesse contexto possa representar uma resposta compensatória, indicando que o cérebro está trabalhando mais para manter sua função diante do estresse metabólico, ou ainda refletir estresse osmótico relacionado aos sintomas da condição.
Os pesquisadores analisaram a relação entre esses marcadores biológicos e os sintomas relatados. No grupo com Long COVID, observaram uma correlação significativa entre a intensidade do sinal de mielina e a função física. Menor intensidade de sinal no giro temporal médio esteve associada a pior função física, apoiando a ideia de que a redução da mielina compromete a eficiência da comunicação entre cérebro e corpo.
Um padrão semelhante foi observado em relação à cognição. Houve uma correlação negativa entre a intensidade do sinal no mesencéfalo e os escores cognitivos, sugerindo que alterações na região do tronco encefálico estão ligadas à gravidade do comprometimento cognitivo. Essas associações fornecem uma base biológica para os sintomas subjetivos relatados pelos pacientes.
“Este estudo mostra claramente que mesmo indivíduos que não apresentam sintomas após a recuperação da COVID-19 podem ainda sofrer efeitos de longo prazo do vírus no cérebro”, afirmou Thapaliya ao PsyPost.
Como toda pesquisa, o estudo apresenta limitações. Seu desenho transversal capturou apenas um momento específico, não permitindo determinar se as alterações cerebrais observadas são permanentes ou evoluem ao longo do tempo. O tamanho da amostra foi relativamente pequeno, com menos de 50 participantes, o que pode limitar a replicação dos resultados em populações maiores.
Os pesquisadores também destacaram que os métodos estatísticos utilizados para identificar agrupamentos cerebrais envolvem limiares que podem introduzir erros, embora tenham sido aplicados ajustes estatísticos padrão. Além disso, o estudo é exploratório, tendo como objetivo gerar hipóteses para pesquisas futuras, e não fornecer ferramentas diagnósticas clínicas definitivas.
Pesquisas futuras deverão validar esses achados em amostras maiores e mais diversas. Estudos longitudinais seriam especialmente valiosos, acompanhando indivíduos desde a infecção até a recuperação ou o desenvolvimento do Long COVID. Isso permitiria observar se as alterações cerebrais se resolvem conforme os sintomas melhoram e esclarecer a linha do tempo da remielinização e das mudanças metabólicas.
O estudo, intitulado “Altered brain tissue microstructure and neurochemical profiles in long COVID and recovered COVID-19 individuals: A multimodal MRI study”, foi assinado por Kiran Thapaliya, Sonya Marshall-Gradisnik, Maira Inderyas e Leighton Barnden.



