Um novo estudo publicado na revista Addictive Behaviors Reports sugere que a ansiedade de ficar de fora de eventos sociais pode alimentar comportamentos aditivos no TikTok, os quais, por sua vez, levam a falhas cotidianas de memória e atenção. Os pesquisadores descobriram que o uso excessivo do popular aplicativo de vídeos curtos atua como uma ponte entre ansiedades sociais subjacentes e a tendência da pessoa a esquecer compromissos ou perder o foco em tarefas diárias. Esses resultados destacam como o design específico das plataformas modernas de mídia social pode influenciar o funcionamento do cérebro humano.
Yao Wang, pesquisador do Centre for Cognitive and Brain Sciences da University of Macau, liderou a investigação ao lado de colegas da Alemanha e da China. A equipe buscou compreender como determinados estados psicológicos levam as pessoas ao uso excessivo de aplicativos digitais e se esses hábitos acabam transbordando para a vida offline.
Os pesquisadores concentraram-se no conceito psicológico conhecido como medo de ficar de fora (fear of missing out, ou FOMO). Esse conceito descreve a preocupação persistente de que outras pessoas estejam vivenciando experiências gratificantes sem você. Esse sentimento gera um forte desejo de permanecer constantemente conectado ao que os outros estão fazendo.
Os psicólogos distinguem duas categorias desse medo. A primeira é o traço de FOMO, que representa uma característica relativamente estável da personalidade — ou seja, uma tendência geral de se preocupar em ser excluído em diversas áreas da vida. A segunda é o estado de FOMO, que corresponde a uma condição temporária e situacional, frequentemente experimentada como a urgência imediata de verificar notificações ou redes sociais.
O estudo também examinou o fenômeno das falhas cognitivas cotidianas, que se refere a erros mentais rotineiros que quase todas as pessoas cometem ocasionalmente, como perder as chaves, esquecer o motivo de ter entrado em um cômodo ou ter dificuldade de manter a atenção durante uma conversa.
Além disso, os pesquisadores investigaram o que chamaram de tendências ao transtorno de uso do TikTok, caracterizado por um uso tão excessivo do aplicativo que a pessoa perde o controle sobre seu comportamento. Isso pode levar à priorização do aplicativo em detrimento de responsabilidades reais, prejudicando o funcionamento diário.
Pesquisas anteriores já haviam mostrado que o uso excessivo geral de redes sociais conecta ansiedade social a lapsos mentais. O hábito constante de checar a internet consome recursos cognitivos. Contudo, os autores reconheceram que diferentes plataformas possuem arquiteturas distintas.
A equipe quis investigar se o TikTok, com seu feed infinito de vídeos curtos e algoritmo altamente personalizado, cria um caminho psicológico específico. Esses recursos são projetados para capturar e manter a atenção do usuário de maneira mais intensa do que redes sociais mais antigas.
Para examinar essas relações, os pesquisadores analisaram dados de um grande levantamento realizado na Alemanha. Selecionaram apenas adultos usuários ativos do TikTok que haviam completado todas as avaliações psicológicas necessárias, resultando em uma amostra final de 720 participantes (249 homens e 471 mulheres), com idade média de aproximadamente 38 anos.
Os participantes responderam a questionários padronizados que mediam ansiedade social geral, impulsos situacionais de checar a internet, frequência de falhas cognitivas cotidianas e gravidade do uso do TikTok. Este último incluía perguntas sobre a dificuldade de parar de assistir vídeos e sobre prejuízos no trabalho causados pelo uso do aplicativo.
A análise estatística revelou um padrão claro. Pessoas com níveis mais altos de FOMO relataram mais falhas cognitivas rotineiras. Essa associação foi observada tanto para o traço estável quanto para o estado temporário de FOMO.
Importante: o uso excessivo do TikTok funcionou como mediador entre essas variáveis. Ou seja, o medo de ficar de fora levava a um aumento no uso do aplicativo, que por sua vez estava associado a mais lapsos de memória e atenção. Em termos estatísticos, trata-se de um efeito de mediação.
Os pesquisadores sugerem que o medo subjacente impulsiona a checagem frequente do aplicativo como forma de aliviar a ansiedade. Esse comportamento fragmenta a atenção ao longo do dia. Com o tempo, essa fragmentação drena energia mental e reduz a capacidade do cérebro de manter foco prolongado em atividades do mundo real, aumentando esquecimentos e distrações.
Um achado interessante envolveu a diferença entre os dois tipos de FOMO. Em estudos anteriores sobre uso geral de redes sociais, o estado de FOMO (ligado a notificações imediatas) mostrava relação mais forte com o uso excessivo. No caso do TikTok, entretanto, o traço estável de FOMO foi um preditor mais forte do comportamento problemático.
Os autores sugerem que isso pode estar relacionado ao design da plataforma. O algoritmo altamente personalizado do TikTok pode explorar vulnerabilidades mais profundas da personalidade, oferecendo um fluxo contínuo de conteúdo que alivia uma ansiedade mais difusa e persistente — não apenas a urgência de responder a notificações específicas.
O estudo apresenta limitações importantes. Seu desenho transversal impede estabelecer causalidade. É possível que a relação funcione na direção oposta: pessoas com dificuldades naturais de atenção e memória podem estar mais propensas ao uso excessivo do aplicativo. Também é possível que o uso excessivo intensifique a ansiedade social ao longo do tempo.
Além disso, os dados foram baseados em autorrelato, o que pode introduzir vieses, já que participantes podem subestimar o tempo de uso ou a frequência de falhas cognitivas.
Pesquisas futuras poderiam acompanhar usuários ao longo do tempo e utilizar dados objetivos de tempo de tela para medir o uso real do aplicativo. Apesar das limitações, o estudo oferece uma visão mais detalhada de como o design específico de plataformas digitais pode impactar a atenção humana.
O artigo, intitulado “On TikTok use disorder tendencies, fear of missing out and everyday cognitive failure”, foi escrito por Yao Wang, Sebastian Markett, Zhiying Zhao e Christian Montag.



