Uma análise recente da literatura psicológica indica que o viés racial na infância é impulsionado por mais do que apenas uma preferência por pessoas que se parecem consigo mesmas. Uma revisão de pesquisas existentes sugere que as observações das crianças sobre hierarquias sociais e desigualdades de riqueza desempenham um papel central na formação de suas atitudes raciais. Crianças a partir dos três anos de idade associam alto status social a traços positivos, o que frequentemente as leva a favorecer pessoas brancas em detrimento de pessoas negras e de outras raças em sociedades marcadas pela desigualdade. O artigo foi publicado na revista Social and Personality Psychology Compass.
Pesquisadores documentam há décadas que as crianças desenvolvem vieses raciais cedo na vida. Um padrão comum observado no desenvolvimento social é a “preferência pelo grupo interno” (in-group preference), em que indivíduos tendem a preferir membros de sua própria categoria social. Esse padrão se mantém em categorias como gênero, em que meninos tendem a preferir meninos e meninas tendem a preferir meninas.
No entanto, esse padrão se torna inconsistente quando os pesquisadores examinam a raça. Crianças brancas nos Estados Unidos geralmente demonstram uma forte preferência por outras crianças brancas. Em contraste, crianças negras e de outras raças frequentemente não mostram o mesmo nível de preferência pelo próprio grupo.
Alguns estudos indicam que crianças de grupos racializados podem até demonstrar preferência por pessoas brancas em relação a pessoas de sua própria origem racial. Amber D. Williams e Xinguo Zhang, pesquisadores da Universidade de Washington, buscaram compreender as razões por trás dessa discrepância. Eles propuseram que a variação no viés é parcialmente explicada pela forma como as crianças percebem e processam o status social.
O status social é definido pelo fato de um indivíduo ou grupo possuir maior acesso a recursos, poder ou influência. Nos Estados Unidos, sistemas históricos criaram uma realidade em que pessoas brancas, em geral, detêm mais riqueza e poder político do que pessoas negras. Williams e Zhang analisaram como a consciência infantil dessas disparidades interage com o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas.
Os autores começaram revisando o contexto histórico que criou as diferenças de status observadas pelas crianças. Eles observaram que séculos de escravidão, seguidos por segregação e políticas habitacionais discriminatórias, estabeleceram uma persistente desigualdade de riqueza entre americanos brancos e negros. Esses fatores estruturais resultam em disparidades visíveis no cotidiano.
As crianças são observadoras atentas de seus ambientes. A revisão destaca pesquisas que mostram que, por volta dos três ou quatro anos, as crianças já reconhecem indicadores de status social. Esses indicadores incluem tamanho físico, posse de roupas novas ou de marca e poder de decisão.
Uma vez que as crianças identificam quem detém alto status, elas tendem a formar preferências sociais específicas. Os pesquisadores encontraram um conjunto robusto de evidências mostrando que crianças pequenas preferem fazer amizade com indivíduos de alto status. As crianças também tendem a prever que pessoas de alto status possuem traços de personalidade positivos, como generosidade e competência.
Essa preferência por status parece se transferir para grupos raciais. Como as crianças frequentemente observam pessoas brancas ocupando posições de maior status em comparação com pessoas negras, elas costumam estender essa preferência baseada em status ao grupo racial como um todo. Isso ajuda a explicar por que crianças brancas demonstram forte viés em favor do próprio grupo, já que sua identidade racial se alinha ao grupo de alto status.
Isso também explica por que crianças de grupos racializados podem demonstrar preferência pelo grupo externo. Elas lidam com um conflito entre sua própria identidade e um ambiente social que sinaliza que o grupo externo possui mais valor ou recursos. Os pesquisadores identificaram vários mecanismos cognitivos que reforçam essa ligação entre status e viés racial.
Um desses mecanismos é conhecido como “rotulação afetiva” (affective tagging). Esse processo envolve a associação automática de sentimentos positivos a indivíduos que vivenciam resultados positivos. Pesquisas mostram que crianças preferem pessoas que têm sorte em vez daquelas que não têm, mesmo quando o resultado é totalmente aleatório.
Essa associação mental é “pegajosa” e difícil de reverter. Quando as crianças veem um grupo com mais recursos, elas “rotulam” esse grupo com afeto positivo. Isso ocorre independentemente de como os recursos foram adquiridos.
Outro fator cognitivo é a “heurística da inerência” (inherence heuristic). Trata-se de um atalho mental que leva as pessoas a atribuir os padrões observados a traços inerentes dos indivíduos envolvidos. Quando as crianças veem desigualdade, raramente supõem que ela seja causada por forças externas, como história ou sorte.
Em vez disso, tendem a assumir que o grupo mais rico é inerentemente mais inteligente, mais trabalhador ou melhor de alguma forma. A revisão cita estudos em que crianças atribuíram diferenças de riqueza a habilidades individuais, e não a herança ou acaso. Essa atribuição interna faz com que a desigualdade pareça justa e merecida na mente da criança.
O conceito de “essencialismo social” aprofunda ainda mais essas visões. O essencialismo é a crença de que categorias sociais, como raça, baseiam-se em diferenças profundas e biológicas que determinam a natureza de uma pessoa. Embora a raça seja, na realidade, uma construção social, muitas crianças e adultos a veem como uma realidade biológica.
Quando as crianças enxergam a raça como um traço essencial, tornam-se mais propensas a acreditar que as diferenças de status que observam são naturais e imutáveis. Os autores observam que esse sistema de crenças prediz atitudes mais negativas em relação a grupos de menor status. Ele cria uma lógica em que diferenças biológicas explicariam por que um grupo tem mais do que outro.
A revisão também enfatiza o papel da socialização. As crianças não desenvolvem essas ideias no vazio. As mensagens que recebem dos pais e da cultura mais ampla moldam a forma como interpretam a desigualdade.
Quando adultos explicam a desigualdade pela lente da meritocracia — sugerindo que as pessoas têm o que conquistam por meio do trabalho duro — isso reforça a heurística da inerência. Implica que quem tem menos simplesmente não se esforçou o suficiente. Por outro lado, explicar as razões estruturais ou injustas da desigualdade pode reduzir o viés.
Os autores apontam pesquisas que demonstram que as atitudes das crianças mudam quando elas aprendem sobre barreiras externas. Por exemplo, quando as crianças aprendiam que um grupo perdeu um jogo por regras manipuladas, e não por falta de habilidade, mostravam menor preferência pelos vencedores. Isso sugere que a forma como os adultos explicam o mundo importa.
A identidade da criança também influencia esses processos. A revisão indica que crianças pertencentes a grupos marginalizados percebem a desigualdade de maneira diferente daquelas de grupos dominantes. À medida que crescem, crianças de grupos de menor status tornam-se menos propensas a ver a hierarquia social como justa.
Os pesquisadores também discutiram a trajetória de desenvolvimento desses vieses. A tendência de recorrer a explicações internas para a desigualdade é mais forte em crianças mais novas. À medida que entram no final da infância e na adolescência, tornam-se mais capazes de compreender argumentos estruturais e complexos.
Essa mudança no desenvolvimento oferece uma janela para intervenções. Crianças mais velhas e adolescentes conseguem entender melhor conceitos como discriminação e injustiça histórica. Essa compreensão pode levar à redução do viés, à medida que percebem que o sistema não é necessariamente justo.
Apesar das evidências robustas reunidas, os autores reconhecem limitações no campo atual de estudo. Grande parte das pesquisas sobre desigualdade utiliza paradigmas de “grupos fictícios”. Nesses estudos, os pesquisadores criam grupos imaginários (por exemplo, “Time Vermelho” versus “Time Azul”) para testar como as crianças reagem a diferenças de status.
Esse método é usado para evitar reforçar estereótipos raciais reais durante os experimentos. No entanto, os autores argumentam que grupos fictícios não conseguem capturar plenamente a realidade da raça nos Estados Unidos. A raça está profundamente enraizada na história e na cultura de uma forma que divisões aleatórias de times não estão.
Os pesquisadores defendem trabalhos futuros que unam a psicologia social e o desenvolvimento cognitivo. Psicólogos sociais frequentemente se concentram em identidade e contexto cultural, enquanto especialistas em desenvolvimento cognitivo focam em mecanismos mentais, como a heurística da inerência.
A combinação dessas perspectivas poderia oferecer uma compreensão mais holística do viés racial. Os autores sugerem que estudos futuros examinem, de forma segura, como as crianças raciocinam sobre a desigualdade racial no mundo real. Isso exigiria protocolos sensíveis para garantir que as crianças não fiquem com impressões negativas.
A revisão argumenta, por fim, que enfrentar o viés racial exige abordar como as crianças compreendem o status social. Simplesmente dizer às crianças que todos são iguais pode não ser suficiente se elas observam desigualdades marcantes em seu dia a dia. As intervenções precisam ajudá-las a entender por que essas desigualdades existem.
Ao oferecer explicações estruturais para as disparidades que as crianças veem, os adultos podem interromper os processos cognitivos que levam ao viés. Os autores concluem que compreender esses mecanismos é um passo necessário para promover uma sociedade mais equitativa.
O estudo, “The Role of Social Status in the Development of Racial Bias in Childhood”, foi assinado por Amber D. Williams e Xinguo Zhang.



