Quando campanhas de saúde pública buscam mudar comportamentos, elas frequentemente recorrem a uma linguagem urgente e diretiva. Uma nova análise abrangente sugere que dizer às pessoas exatamente o que elas “devem” fazer pode sair pela culatra ao desencadear uma resposta psicológica defensiva. Essa síntese de pesquisas existentes confirma que uma linguagem impositiva cria uma sensação de liberdade ameaçada, o que leva à resistência e reduz a probabilidade de persuasão. Esses achados foram publicados no Journal of Communication.
Os pesquisadores se concentraram em um conceito conhecido como teoria da reatância psicológica. Esse arcabouço ajuda a explicar por que a persuasão muitas vezes falha. A ideia central é que as pessoas valorizam sua autonomia e a liberdade de escolher seus próprios comportamentos. Quando uma mensagem sugere que essa liberdade está sendo removida ou restringida, os indivíduos experimentam um estado motivacional negativo chamado reatância. Esse estado os impulsiona a restaurar o senso de autonomia perdido. Eles podem fazer isso ignorando a mensagem ou engajando-se no comportamento proibido para provar que ainda podem fazê-lo.
O estudo foi conduzido por uma equipe de pesquisa liderada por Ma. O objetivo foi esclarecer como tipos específicos de linguagem acionam esse processo defensivo no contexto da saúde pessoal. Embora pesquisas anteriores já tenham examinado esse fenômeno, havia debate sobre como diferentes componentes da reatância interagem. Os pesquisadores quiseram compreender a cadeia de eventos que vai da leitura de uma mensagem à sua rejeição. Também buscaram identificar exatamente quais palavras funcionam como gatilhos.
Para isso, a equipe realizou uma meta-análise, uma técnica estatística que combina dados de múltiplos estudos independentes para identificar tendências amplas. Os pesquisadores analisaram mais de mil relatórios para encontrar experimentos adequados. Ao final, selecionaram 35 estudos envolvendo um total de 10.658 participantes. Todos os estudos escolhidos abordavam temas de saúde pessoal, como cessação do tabagismo ou consumo de álcool. Foram excluídos estudos sobre comportamentos pró-sociais, como doação de órgãos, para garantir que as motivações psicológicas fossem consistentes.
Os pesquisadores analisaram os dados para testar uma sequência específica de eventos. Eles propuseram que uma linguagem que ameaça a liberdade leva à percepção de ameaça. Essa percepção, então, gera um estado de reatância. Por fim, essa reatância resulta em desfechos negativos de persuasão, como a recusa em adotar o comportamento saudável. A análise envolveu a codificação dos resultados estatísticos dos estudos incluídos para verificar se essas ligações se mantinham de forma consistente.
Uma parte central da investigação envolveu definir o que constitui a “reatância em estado”. Os pesquisadores examinaram diferentes modelos usados na área. Alguns estudiosos anteriores viam a reatância principalmente como uma emoção, especificamente a raiva. Outros a viam como um processo cognitivo, como a elaboração de contra-argumentos à mensagem. O estudo atual adotou um “modelo entrelaçado”, que trata a raiva e os pensamentos negativos como componentes inseparáveis da mesma reação.
Os resultados confirmaram as expectativas dos pesquisadores. Foi encontrada uma associação estatística entre o uso de linguagem que ameaça a liberdade e a sensação, por parte dos participantes, de que suas escolhas estavam sendo restringidas. Quando as mensagens usavam palavras que implicavam falta de escolha, as pessoas relataram níveis mais altos de ameaça percebida. Essa percepção não foi meramente passiva; ela atuou como um catalisador para a resposta defensiva.
O estudo também estabeleceu que essa ameaça percebida está fortemente associada à reatância em estado. Quando as pessoas sentiam que sua liberdade estava sob ataque, ficavam com raiva e geravam pensamentos negativos sobre a mensagem. Isso confirma que o sentimento de ameaça é um precursor necessário da reatância. A reação emocional e cognitiva não ocorre no vazio; é uma resposta direta à percepção de que a autonomia está em risco.
Quanto ao desfecho final, a análise mostrou que a reatância em estado afeta negativamente a persuasão. Quando os participantes experimentaram altos níveis de reatância, foram menos propensos a concordar com a mensagem ou a ter intenção de mudar seu comportamento. Os pesquisadores observaram que, embora essa relação negativa fosse consistente, ela era relativamente fraca. Isso sugere que, embora a reatância prejudique a persuasão, ela não é o único fator envolvido. Outros elementos ainda podem influenciar a decisão de adotar comportamentos saudáveis.
Os pesquisadores também examinaram a própria linguagem. Eles criaram um código detalhado para categorizar os tipos de palavras usados nos experimentos. Procuraram “expressões imperativas”, como “deve” ou “tem que”, além de “afirmações absolutas”, pontos de exclamação e menções explícitas à falta de escolha. A análise mostrou que a maioria dos estudos manipulou a ameaça usando essas características diretivas.
Em contraste, mensagens de baixa ameaça frequentemente usavam “expressões sugestivas”, como “poderia” ou “considere”. Essas mensagens ofereciam recomendações em vez de ordens. A meta-análise confirmou que mensagens de alta ameaça foram eficazes em gerar a percepção de ameaça. No entanto, os pesquisadores descobriram que simplesmente contar o número de características ameaçadoras não previa a intensidade da reação. Isso indica que o contexto e a combinação específica de palavras importam mais do que a quantidade de termos impositivos.
A equipe também investigou se a forma de medir a reatância alterava os resultados. Eles compararam estudos que mediam apenas raiva com aqueles que mediam apenas pensamentos negativos. Não encontraram diferença estatística entre os desfechos. Isso sustenta o modelo entrelaçado, sugerindo que, seja a resistência expressa por raiva ou por argumentos mentais, o impacto sobre a persuasão é, em grande medida, o mesmo.
Há ressalvas importantes a considerar. O estudo revelou alta heterogeneidade entre as pesquisas incluídas, o que significa que os resultados variaram amplamente de um experimento para outro. Embora as tendências gerais fossem claras, a força dos efeitos diferiu conforme fatores não mensurados. Os pesquisadores sugeriram que diferenças demográficas, como idade ou gênero, podem influenciar como as pessoas respondem à linguagem ameaçadora. Por exemplo, os dados indicaram que a reatância pode prejudicar mais a persuasão entre homens do que entre mulheres.
Outra limitação é o foco em mensagens baseadas em texto. A análise considerou apenas linguagem escrita, sem levar em conta elementos visuais, como imagens gráficas ou esquemas de cores, que também podem desencadear reações defensivas. Os autores observaram que pesquisas futuras devem explorar como o design visual contribui para a percepção de liberdade ameaçada.
As implicações para a comunicação em saúde são claras. Criadores de mensagens enfrentam um delicado equilíbrio: transmitir a gravidade dos riscos à saúde sem ferir a necessidade de autonomia do público. O uso de linguagem “dogmática” ou “controladora” pode chamar atenção, mas corre o risco de afastar exatamente as pessoas que a campanha pretende ajudar. Os autores sugerem considerar estratégias alternativas. Abordagens narrativas ou enquadramentos positivos podem alcançar a mesma urgência sem acionar os mecanismos defensivos do público.
Os pesquisadores enfatizaram que até efeitos pequenos importam em saúde pública. Embora a relação negativa entre reatância e persuasão não seja enorme, ela pode se acumular ao longo do tempo. A exposição repetida a mensagens autoritárias pode gerar uma resistência generalizada aos conselhos de saúde. Esse “efeito bumerangue” cria um cenário em que a campanha produz o oposto do resultado pretendido.
Pesquisas futuras precisam refinar a manipulação da linguagem. O estudo constatou que muitos experimentos combinaram múltiplas características ameaçadoras, dificultando isolar quais palavras específicas causam mais danos. É necessário testar esses elementos individualmente. Além disso, mais estudos são necessários para compreender como a reatância opera em diferentes contextos culturais ou com diferentes comportamentos de saúde.
O estudo, intitulado “Psychological reactance in persuasive health communication: A meta-analysis of the roles of freedom-threatening language, perceived freedom threat, and state reactance”, foi assinado por Ma, H., Ebesu, A. e Dillard, J. P.



