Uma nova pesquisa sugere que existe uma relação bidirecional entre o tempo que as crianças passam sentadas e sua saúde mental, criando um ciclo em que a inatividade alimenta sentimentos de depressão e vice-versa. Essa dinâmica parece ir além da criança, pois o humor e os níveis de inatividade do filho podem influenciar o bem-estar mental dos pais. Os resultados foram publicados na revista Mental Health and Physical Activity.
Há décadas, especialistas reconhecem que os seres humanos passam grande parte do tempo acordados em comportamentos sedentários. Esse termo refere-se a qualquer comportamento realizado em vigília com gasto energético de 1,5 equivalentes metabólicos ou menos enquanto a pessoa está sentada, reclinada ou deitada. Exemplos comuns incluem assistir televisão, jogar videogame sentado ou permanecer sentado em sala de aula. Embora as consequências físicas da inatividade sejam bem documentadas, o impacto na saúde mental é uma preocupação crescente.
Nos últimos anos, o tempo de tela aumentou consideravelmente entre adolescentes, levando pesquisadores a questionarem como esses comportamentos se relacionam com transtornos de humor, como a depressão. A maioria dos estudos anteriores focou em adultos. Quando incluem jovens, frequentemente dependem de autorrelatos, que podem ser imprecisos, pois as pessoas têm dificuldade em lembrar exatamente quanto tempo passaram sentadas dias ou semanas antes.
Também existe uma lacuna no entendimento de como esses comportamentos funcionam dentro da família. Pais e filhos formam uma “díade”, ou seja, um par no qual comportamento e emoções de um podem afetar o outro. Para investigar isso, uma equipe liderada por Maria Siwa, da SWPS University (Polônia), analisou essas associações usando medidas objetivas. Os pesquisadores quiseram descobrir se a depressão leva a mais tempo sentado ou se o tempo sentado leva à depressão — e se esses efeitos se estendem do filho para o pai ou mãe.
A equipe recrutou 203 díades de pais e filhos. As crianças tinham entre 9 e 15 anos, e cerca de 87% dos adultos eram mães. O estudo foi longitudinal, acompanhando os participantes ao longo do tempo, com coleta de dados em três momentos: início, após 8 meses e após 14 meses.
Para garantir precisão, os pesquisadores não usaram apenas questionários. Os participantes usaram acelerômetros, pequenos dispositivos no quadril que medem intensidade e frequência de movimento, durante seis dias consecutivos enquanto estavam acordados. Isso forneceu registros objetivos do tempo sedentário e ativo. A saúde mental foi avaliada com o Patient Health Questionnaire, que mede a frequência de sintomas depressivos nas últimas duas semanas.
Os resultados mostraram uma relação recíproca nas crianças. Aquelas que passaram mais tempo sedentárias no início apresentaram mais sintomas depressivos oito meses depois, sugerindo que a inatividade pode contribuir para o mau humor. Mecanismos biológicos possíveis incluem alterações inflamatórias e neurobiológicas relacionadas à regulação emocional.
O inverso também ocorreu: crianças com mais sintomas depressivos inicialmente passaram mais tempo sedentárias depois. Isso indica um “ciclo vicioso”, no qual sintomas como baixa energia e isolamento levam a menos movimento, agravando a depressão.
O estudo também identificou um efeito cruzado dentro da família. Altos níveis de sintomas depressivos na criança no início previram mais tempo sedentário dela após oito meses, o que por sua vez se associou a mais sintomas depressivos nos pais após 14 meses. Esse efeito sugere um “efeito dominó”: dificuldades emocionais da criança podem levá-la ao isolamento sedentário, e observar isso pode afetar a saúde mental dos pais, especialmente quando sentem que suas estratégias parentais não estão funcionando.
Um resultado inesperado foi que crianças com menos sintomas depressivos após oito meses passaram mais tempo sentadas aos 14 meses. Os pesquisadores sugerem que isso pode refletir complacência: sentindo-se bem, os adolescentes podem não ver necessidade de reduzir o tempo sentado.
Os modelos estatísticos controlaram o nível de atividade física moderada a vigorosa, mostrando que os resultados refletem especificamente o impacto do comportamento sedentário, e não apenas a falta de exercício.
Há limitações. A amostra era composta majoritariamente por famílias com maior escolaridade e condição econômica média ou alta, limitando a generalização. Além disso, acelerômetros não distinguem tipos de comportamento sedentário — estudar, ler ou usar redes sociais podem ter impactos psicológicos diferentes.
O estudo também analisou uma população comunitária com sintomas leves a moderados, não casos clínicos graves de depressão. Embora os efeitos tenham sido significativos, foram relativamente pequenos, e muitos outros fatores provavelmente influenciam depressão e sedentarismo.
Mesmo assim, as implicações para a saúde pública são claras. Intervenções para melhorar a saúde mental de jovens devem considerar comportamentos físicos, e programas para aumentar atividade física devem abordar barreiras emocionais. Os resultados apoiam intervenções familiares, pois tratar apenas a criança pode ignorar a dinâmica que afeta o bem-estar dos pais.
Pesquisas futuras devem explorar mecanismos específicos dessa relação, como o papel da percepção de eficácia parental e o impacto de diferentes tipos de sedentarismo, especialmente o tempo de tela. Compreender essas nuances pode gerar orientações mais eficazes para famílias que buscam equilibrar hábitos físicos e saúde emocional.
O estudo, “Associations between depressive symptoms and sedentary behaviors in parent-child dyads: Longitudinal effects within- and across-person,” foi conduzido por Maria Siwa e colaboradores.



