Crianças pequenas que consomem uma dieta rica em carnes processadas, lanches açucarados e refrigerantes podem apresentar pontuações mais baixas de inteligência ao chegar ao início da idade escolar. Um novo estudo publicado no British Journal of Nutrition sugere que essa associação negativa é ainda mais forte em crianças que enfrentaram atrasos no crescimento físico durante a infância. Esses resultados somam-se ao crescente conjunto de evidências que relaciona a nutrição na primeira infância ao desenvolvimento cerebral de longo prazo.
Os primeiros anos de vida representam uma janela biológica de mudanças rápidas. O cérebro cresce rapidamente nesse período e constrói as conexões neurais necessárias para aprendizagem e memória. Esse processo exige um fornecimento constante de nutrientes específicos para funcionar corretamente. Sem quantidades suficientes de ferro, zinco ou gorduras saudáveis, o cérebro pode não atingir seu pleno potencial de desenvolvimento.
Tendências recentes mostram que famílias estão recorrendo cada vez mais a alimentos ultraprocessados. Esses produtos industriais frequentemente contêm altos níveis de açúcar, gordura e aditivos artificiais, mas poucos nutrientes essenciais. Pesquisadores temem que esses alimentos substituam opções mais nutritivas e que seus aditivos ou alto teor de açúcar prejudiquem diretamente sistemas biológicos.
Pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas, no Brasil, e da Universidade de Illinois Urbana-Champaign investigaram essa questão. A autora principal é Glaucia Treichel Heller, do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia de Pelotas. Ela trabalhou com colegas, incluindo Thaynã Ramos Flores e Pedro Hallal, para analisar dados de milhares de crianças. O objetivo foi verificar se os hábitos alimentares aos dois anos poderiam prever habilidades cognitivas anos depois.
Os pesquisadores utilizaram dados da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2015, um grande projeto longitudinal que acompanha a saúde de crianças nascidas na cidade de Pelotas. Foram analisadas informações de mais de 3.400 crianças. Aos dois anos de idade, os pais responderam questionários sobre a alimentação habitual dos filhos.
Em vez de analisar alimentos isolados, os cientistas usaram uma técnica estatística chamada análise de componentes principais, que identifica padrões alimentares gerais com base nos alimentos consumidos em conjunto. Dois padrões principais foram identificados.
Um foi classificado como “saudável”, incluindo consumo regular de feijão, frutas, verduras e sucos naturais. O outro foi classificado como “não saudável”, com macarrão instantâneo, salsichas, refrigerantes, salgadinhos industrializados e doces.
Quando as crianças tinham entre seis e sete anos, psicólogos treinados avaliaram sua inteligência usando a Escala Wechsler de Inteligência para Crianças, que gera uma pontuação de QI a partir de diferentes habilidades cognitivas. Os pesquisadores então buscaram associações estatísticas entre a dieta aos dois anos e os resultados quatro anos depois.
A análise revelou uma ligação clara entre o padrão alimentar não saudável e pontuações cognitivas mais baixas. Crianças que consumiam frequentemente alimentos processados e açucarados aos dois anos tendiam a apresentar QI menor na idade escolar. Essa relação permaneceu mesmo após o controle de fatores como escolaridade materna, renda familiar e estímulos cognitivos em casa.
Para isolar o efeito da dieta, os pesquisadores controlaram fatores de confusão com base em revisão da literatura e na construção de um gráfico acíclico direcionado. Mesmo após esses ajustes, a associação negativa entre alimentos processados e QI permaneceu, sugerindo que a qualidade da dieta exerce um papel específico.
O impacto negativo foi mais forte em crianças biologicamente vulneráveis. O estudo analisou crianças que apresentaram baixo peso, baixa estatura ou menor circunferência da cabeça nos dois primeiros anos de vida. Para essas crianças, uma dieta rica em ultraprocessados foi associada a uma queda de quase 5 pontos no QI — uma diferença relevante para o desempenho escolar. Entre crianças sem esses problemas de crescimento, a redução foi menor, cerca de 2 pontos, mas ainda presente.
Esse resultado aponta para o conceito de desvantagem cumulativa: vulnerabilidade biológica e exposição ambiental, como dieta inadequada, interagem entre si. Crianças que já enfrentam dificuldades físicas parecem menos resilientes aos efeitos de uma alimentação ruim.
Curiosamente, não foi encontrada associação estatística entre dieta saudável e QI mais alto. Isso provavelmente ocorreu porque a maioria das crianças da coorte já consumia regularmente alimentos saudáveis, reduzindo a variabilidade necessária para detectar diferenças estatísticas.
Os pesquisadores sugerem possíveis mecanismos biológicos. Um deles envolve o eixo intestino-cérebro: dietas ricas em açúcar e aditivos podem alterar a microbiota intestinal, levando a inflamação sistêmica que afeta o cérebro. Outro mecanismo possível é o estresse oxidativo: alimentos ultraprocessados têm poucos antioxidantes, deixando as células cerebrais mais vulneráveis a danos durante o desenvolvimento.
O estudo possui limitações. Por ser observacional, não prova causalidade direta. Além disso, baseia-se em relatos dos pais sobre a dieta, que podem conter erros. O QI dos pais não foi medido, embora escolaridade materna e estímulo doméstico tenham sido usados como indicadores do ambiente intelectual.
Os resultados têm implicações para políticas públicas. Reduzir o consumo de ultraprocessados na primeira infância pode ser crucial para o desenvolvimento cognitivo, especialmente em crianças com sinais de atraso no crescimento. Apenas incentivar frutas e vegetais pode não ser suficiente se o consumo de ultraprocessados continuar elevado.
Pesquisas futuras podem investigar como esses hábitos evoluem na adolescência e se resultados semelhantes aparecem em países com culturas alimentares diferentes. A nutrição precoce surge, assim, como uma janela importante de oportunidade para promover a saúde cerebral.
O estudo, “Dietary patterns at age 2 and cognitive performance at ages 6-7: an analysis of the 2015 Pelotas Birth Cohort (Brazil)”, foi conduzido por Glaucia Treichel Heller, Thaynã Ramos Flores, Marina Xavier Carpena, Pedro Curi Hallal, Marlos Rodrigues Domingues e Andréa Dâmaso Bertoldi.



