Um estudo recente publicado na revista Addictive Behaviors sugere que vivenciar múltiplos eventos traumáticos na infância está associado a um risco maior de desenvolver comportamentos aditivos interligados na vida adulta. A pesquisa indica que pessoas que passaram por traumas cumulativos tendem a apresentar formas mais severas de dependência — tanto relacionadas a substâncias quanto comportamentais — que se reforçam mutuamente. Esse padrão aponta para uma relação complexa entre sofrimento psicológico precoce e as estratégias de enfrentamento adotadas na vida adulta.
Os cientistas já sabem que experiências adversas na infância aumentam a probabilidade de desenvolver vícios. Tradicionalmente, muitos estudos analisaram como um único tipo de trauma se relaciona a uma dependência específica, como alcoolismo ou jogo compulsivo. No entanto, na realidade, experiências negativas frequentemente se acumulam, e uma mesma criança pode enfrentar diferentes tipos de adversidades.
Ao mesmo tempo, os vícios raramente ocorrem isoladamente. É comum que as pessoas alternem entre comportamentos aditivos ou mantenham vários simultaneamente, sugerindo que diferentes vícios podem compartilhar uma base psicológica comum.
“Nosso estudo foi motivado por uma lacuna importante na literatura científica. Embora a associação entre experiências adversas na infância e comportamentos aditivos tenha sido amplamente investigada, o papel das experiências adversas cumulativas ainda é parcialmente explorado — não apenas em relação a comportamentos isolados, mas também quanto às suas inter-relações”, explicou o autor Giorgio Veneziani, pesquisador de pós-doutorado na Sapienza University of Rome.
“Como diferentes comportamentos aditivos tendem a coocorrer e se reforçar mutuamente, compreender como adversidades cumulativas influenciam essa interação pode ajudar a identificar mecanismos de vulnerabilidade e orientar a prática clínica. Por isso, utilizamos análise de redes para ir além da perspectiva de um único comportamento e capturar padrões mais amplos.”
O estudo envolveu 802 adultos da população geral italiana, recrutados por meio de anúncios no Facebook e Instagram. Os participantes responderam a um questionário online sobre histórico pessoal e desafios psicológicos.
A pesquisa avaliou dez tipos de comportamentos aditivos. Quatro relacionados a substâncias (álcool, tabaco, cannabis e cocaína) e seis comportamentais (jogo, compras, videogames, compulsão alimentar, sexo e excesso de trabalho).
Uma dependência comportamental ocorre quando a pessoa perde o controle sobre determinada atividade, mesmo diante de consequências negativas físicas, mentais ou sociais. Os participantes indicaram com que frequência sentiam perda de controle ou continuavam a atividade apesar de prejuízos.
Também foi aplicado um questionário sobre experiências traumáticas antes dos 17 anos, incluindo morte de familiar próximo, conflitos parentais graves, violência física, doença grave e abuso sexual.
Os participantes foram divididos em três grupos:
- 192 sem experiências adversas;
- 226 com exatamente um evento adverso;
- 384 com dois ou mais tipos de trauma na infância.
Os pesquisadores utilizaram análise de redes, método estatístico que permite visualizar como variáveis se conectam em uma estrutura semelhante a uma teia, identificando comportamentos centrais e interconectados.
Os resultados mostraram que o grupo com múltiplas adversidades apresentou níveis significativamente mais elevados de dependência de tabaco, compulsão alimentar e comportamento sexual compulsivo. A compulsão alimentar também foi mais grave nesse grupo do que no grupo com apenas uma adversidade.
“O principal achado é que experiências adversas cumulativas parecem influenciar não apenas a gravidade dos comportamentos aditivos individuais, mas também o modo como eles se interconectam”, afirmou Veneziani. “Em indivíduos com múltiplas adversidades, os comportamentos estavam mais fortemente relacionados, indicando um padrão de policonsumo e conexões mais intensas entre vícios comportamentais e relacionados a substâncias.”
Na análise de rede, o grupo com múltiplos traumas apresentou uma estrutura mais densa, com maior número de conexões entre vícios — sugerindo reforço mútuo entre eles.
Nesse grupo:
- Tabaco, álcool, cannabis e cocaína estavam fortemente interligados.
- Tabaco e álcool funcionaram como nós centrais da rede.
- Compulsão alimentar conectava-se fortemente a compras, excesso de trabalho e uso de substâncias.
- Sexo compulsivo mostrou conexões amplas, especialmente com compras e excesso de trabalho.
O comportamento de jogo também variou conforme o histórico infantil. Nos grupos com uma ou múltiplas adversidades, o jogo associou-se fortemente a substâncias (álcool e cocaína). Já no grupo sem traumas, o jogo esteve mais associado a videogames.
“Em indivíduos com adversidades cumulativas, o jogo parece inserido em um padrão mais desregulado e compulsivo, vinculado a substâncias”, destacou Veneziani.
Os autores sugerem que clínicos e programas de prevenção devem considerar não apenas vícios isolados, mas também suas dinâmicas interconectadas. Triagem precoce de adversidades cumulativas pode ser estratégica em ambientes educacionais e de saúde.
O estudo possui limitações. Por ser transversal, não permite estabelecer causalidade — apenas associação. Além disso, a amostra foi predominantemente jovem, italiana e feminina, o que limita a generalização.
Pesquisas futuras devem incluir amostras mais diversas e investigar novas formas de dependência, incluindo interações compulsivas com inteligência artificial.
Veneziani também destacou uma implicação metodológica importante: a análise de redes permite compreender a dependência de forma mais personalizada, indo além de categorias diagnósticas isoladas e favorecendo estratégias integradas de prevenção e tratamento.
O estudo, intitulado “The role of cumulative adverse childhood experiences in the interrelationships among addictive behaviors: A network analysis study”, foi conduzido por Giorgio Veneziani e colaboradores.



