Jovens adultos que apresentam ansiedade social podem enfrentar um risco maior de desenvolver dependência psicológica de plataformas digitais de interação social. Um novo estudo revela que essa relação é parcialmente explicada por um hábito psicológico de comparação social online. A pesquisa foi publicada na revista Addictive Behaviors.
Embora acessar redes sociais seja um hábito cotidiano comum, o uso prolongado pode evoluir para um quadro semelhante a um transtorno por uso de substâncias. As diretrizes médicas ainda não classificam a dependência de redes sociais como uma doença mental formal, mas psicólogos reconhecem padrões claros de comportamento aditivo. Os indivíduos podem se tornar excessivamente preocupados com seus feeds e sentir uma forte necessidade de acessar as plataformas ao longo do dia. Esse comportamento pode escalar até interferir regularmente nos estudos, carreira e bem-estar pessoal.
Esse padrão tende a ser especialmente comum no final da adolescência e início da vida adulta, fase chamada de “adulto emergente”. Nesse período, há aumento da autonomia e foco intenso na construção da identidade. As relações sociais, tanto românticas quanto de amizade, tornam-se centrais, o que torna os meios digitais altamente atrativos.
Algumas pessoas entram nessa fase com um medo intenso de avaliação negativa por parte dos outros, conhecido como ansiedade social. Para esses indivíduos, interações presenciais podem ser desgastantes. Como alternativa, recorrem ao ambiente digital para suprir a necessidade de conexão. A internet oferece um espaço controlado, onde é possível observar sem a pressão imediata de uma interação direta.
Teorias psicológicas sugerem que esse comportamento funciona como um mecanismo de enfrentamento. As pessoas tentam compensar necessidades sociais não atendidas no mundo real através da imersão no ambiente digital. Embora isso possa aliviar emoções negativas no curto prazo, pode criar uma vulnerabilidade duradoura. A dependência desse “ambiente seguro” torna o retorno às interações presenciais ainda mais difícil.
A própria estrutura das redes sociais estimula o hábito de comparação social. Esse processo envolve avaliar o próprio valor, sucesso ou posição social em relação aos outros. Como os feeds exibem versões cuidadosamente selecionadas da vida das pessoas, oferecem oportunidades constantes de comparação. Para indivíduos com ansiedade social, que já apresentam inseguranças internas, isso pode ser especialmente impactante.
Observar outras pessoas pode levar à comparação ascendente, quando alguém se compara com pessoas que parecem bem-sucedidas, gerando sentimentos de inferioridade. Também pode ocorrer a comparação descendente, quando a pessoa se compara com alguém que considera estar em situação pior, o que pode gerar um alívio momentâneo e reforçar o comportamento de permanecer conectado.
Estudos anteriores já mostravam associação entre ansiedade e uso de tecnologia, mas pesquisas longitudinais oferecem uma visão mais precisa da evolução desses comportamentos. Os pesquisadores Randolph C. H. Chan e Marcus Shengkai Lam desenvolveram um estudo para entender essa progressão ao longo do tempo.
A amostra incluiu 330 jovens adultos de Hong Kong, com idades entre 18 e 25 anos. A maioria era estudante e cerca de três quartos eram mulheres. Os participantes responderam questionários online sobre saúde mental e hábitos digitais, e foram reavaliados após três meses.
Os questionários avaliaram ansiedade social, frequência de comparação com outros online e padrões de uso problemático da internet. Também investigaram sinais de dependência, como dificuldade de se desconectar ou pensamento constante sobre redes sociais.
Os resultados mostraram que cerca de 30% dos participantes apresentavam alto risco de dependência digital. Ao longo dos três meses, foi identificado um padrão claro: níveis elevados de ansiedade social no início previam aumento do comportamento aditivo posteriormente.
O estudo também identificou o mecanismo central dessa relação. A ansiedade social aumentava a tendência de comparação online, e essa comparação, por sua vez, levava ao desenvolvimento de comportamentos aditivos. Ou seja, o indivíduo busca nas redes uma forma de entender sua posição social, mas acaba preso em um ciclo de comparação e uso excessivo.
Esse efeito foi mais evidente entre mulheres. Os pesquisadores sugerem que mulheres tendem a se envolver mais com aspectos relacionais das redes sociais, o que pode aumentar a sensibilidade à comparação social.
Nos homens, essa relação não foi estatisticamente significativa, possivelmente devido ao menor número de participantes masculinos.
Os autores destacaram algumas limitações. A amostra composta majoritariamente por estudantes universitárias pode não representar outras populações. Além disso, os questionários não diferenciaram tipos de plataformas nem tipos de comparação (ascendente ou descendente), o que pode influenciar os resultados.
Também é possível que outros fatores, como o medo de ficar de fora (FOMO), contribuam para esse ciclo.
Apesar disso, os achados têm implicações práticas importantes. Profissionais de saúde mental devem investigar o uso de tecnologia em pacientes com ansiedade e trabalhar a redução da comparação digital.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores apontam que desenvolvedores de tecnologia têm responsabilidade ética. Ajustar o design das plataformas para reduzir feeds infinitos e mecanismos de comparação pode ajudar a proteger usuários vulneráveis.
O estudo, intitulado “Social anxiety as a predisposing factor for social media addiction: A two-wave longitudinal investigation of social comparison as an underlying mechanism”, foi conduzido por Randolph C. H. Chan e Marcus Shengkai Lam.



