Quando falamos sobre relacionamentos, é comum pensar que as pessoas escolhem parceiros apenas por atração, compatibilidade, valores, química ou circunstâncias da vida. Tudo isso importa. Mas existe uma pergunta psicológica mais profunda: o modo como uma pessoa enxerga a si mesma influencia quem ela acredita que pode buscar?
A resposta parece ser sim.
Muitas pessoas desejam se relacionar com alguém que consideram admirável, interessante, confiante, carinhoso, inteligente, atraente, estável ou inspirador. Mas nem todas se sentem autorizadas a buscar alguém assim. Algumas olham para uma pessoa que admiram e pensam: “por que não tentar?”. Outras pensam: “essa pessoa nunca se interessaria por mim”.
A diferença nem sempre está apenas na aparência, na personalidade ou na realidade objetiva. Muitas vezes, está na narrativa interna.
Um estudo publicado no Journal of Personality investigou como dois estilos de autorregulação influenciam a busca por parceiros românticos: o foco em promoção, ligado a crescimento, avanço e oportunidades; e o foco em prevenção, ligado a segurança, cautela e evitação de perdas. Os pesquisadores observaram que pessoas mais orientadas ao crescimento tendiam a se avaliar de forma mais positiva e a buscar parceiros mais desejáveis. Pessoas mais orientadas à prevenção tendiam a se avaliar de forma mais negativa e a buscar parceiros menos desejáveis.
Isso não significa que alguém “merece mais” ou “merece menos” no amor. Também não significa que devemos transformar relacionamentos em ranking de valor humano. A questão é mais sutil: nossa forma de avaliar a nós mesmos pode ampliar ou limitar nossas escolhas afetivas.
O que significa “parceiro mais desejável” no estudo?
Antes de tudo, é importante esclarecer esse ponto.
Quando o estudo fala em parceiros “mais desejáveis”, ele não está dizendo que algumas pessoas têm mais valor humano do que outras. O termo se refere a traços considerados socialmente positivos ou atraentes dentro do contexto da pesquisa.
Entre esses traços estavam características como confiança, atratividade, ambição, espontaneidade, confiabilidade, apoio, otimismo, criatividade, paciência, inteligência, simpatia e boas perspectivas de futuro.
Ou seja, “desejabilidade” aqui significa um conjunto de atributos que, em média, as pessoas tendem a valorizar ao escolher alguém para se relacionar.
Mas, clinicamente, é essencial lembrar: ninguém é apenas uma soma de características desejáveis. Relacionamentos reais dependem de vínculo, reciprocidade, maturidade emocional, disponibilidade afetiva, valores, respeito e construção conjunta.
Uma pessoa pode ser muito desejada socialmente e, ainda assim, não ser uma boa parceira para você.
E alguém pode não corresponder aos padrões mais valorizados socialmente e, ainda assim, construir uma relação profundamente saudável.
O estudo fala de tendências psicológicas. Não de receita para o amor.
Foco em promoção: quando a pessoa se orienta pelo crescimento
O foco em promoção é uma orientação motivacional voltada para crescimento, avanço, realização, ganho e oportunidade.
Pessoas com esse estilo tendem a pensar mais em termos de possibilidade:
“O que eu posso conquistar?”
“O que posso viver?”
“E se der certo?”
“Posso tentar.”
“Tenho algo a oferecer.”
“Quero crescer.”
“Posso me aproximar do que desejo.”
No campo dos relacionamentos, esse modo de funcionamento pode aumentar a disposição para buscar alguém considerado mais desejável, mesmo com risco de rejeição.
A pessoa sabe que pode dar errado, mas não organiza toda a decisão em torno do medo.
Ela se orienta pela possibilidade.
O estudo encontrou que participantes com maior foco em promoção tendiam a fazer avaliações mais positivas sobre seus próprios traços desejáveis. Essas avaliações, por sua vez, estavam associadas a padrões mais altos para parceiros ideais e à busca por parceiros avaliados como mais desejáveis.
Em termos psicológicos: quando a pessoa se percebe com mais valor, ela tende a mirar mais alto.
Foco em prevenção: quando a pessoa se orienta pela segurança
O foco em prevenção é uma orientação voltada para segurança, estabilidade, responsabilidade, cautela e evitação de perdas.
Pessoas com esse estilo tendem a pensar mais em termos de risco:
“E se eu for rejeitado?”
“E se eu me humilhar?”
“E se eu não for suficiente?”
“Melhor não tentar.”
“Preciso evitar sofrimento.”
“É mais seguro escolher alguém que pareça acessível.”
“Não quero me expor.”
Esse estilo não é ruim em si. Em muitas áreas da vida, a cautela é necessária. Ela ajuda a evitar decisões impulsivas, relações perigosas, exposição excessiva e riscos desnecessários.
O problema aparece quando a prevenção deixa de ser prudência e vira prisão.
No estudo, pessoas com maior foco em prevenção tendiam a avaliar seus próprios traços de forma mais negativa, estabelecer padrões românticos mais baixos e buscar parceiros menos desejáveis.
Não necessariamente porque queriam menos. Mas, possivelmente, porque acreditavam que não poderiam buscar mais.
Autoavaliação: a ponte entre desejo e escolha
Um dos pontos mais importantes do estudo é que a autoavaliação funcionou como uma ponte.
Não era apenas uma questão de autoestima geral. Mesmo controlando autoestima, o foco em promoção e prevenção continuou tendo relação com a forma como as pessoas avaliavam seu próprio valor como parceiras românticas.
Isso é clinicamente muito relevante.
Uma pessoa pode ter autoestima razoável em algumas áreas, como trabalho, estudos ou amizades, mas ainda se sentir insuficiente no amor.
Ela pode pensar:
“Sou competente, mas ninguém vai me escolher.”
“Sou boa pessoa, mas não sou interessante o suficiente.”
“Tenho qualidades, mas não sou desejável.”
“Eu até gostaria de alguém assim, mas essa pessoa está fora do meu alcance.”
A autoimagem romântica tem suas próprias feridas.
Ela é construída por rejeições, experiências familiares, comparações, padrões sociais, história corporal, abandonos, bullying, traições, relações anteriores e crenças antigas sobre valor pessoal.
Por isso, quando falamos de escolha amorosa, não estamos falando apenas de preferência. Estamos falando de identidade.
O medo de rejeição estreita o campo amoroso
A rejeição é uma das experiências mais temidas nos relacionamentos.
Quando alguém se aproxima de uma pessoa desejada, existe risco: a pessoa pode não corresponder, pode rejeitar, pode ignorar, pode escolher outro caminho.
Para algumas pessoas, isso é doloroso, mas tolerável.
Para outras, a rejeição não parece apenas um evento. Parece uma confirmação de identidade.
Não é apenas:
“Essa pessoa não quis.”
É:
“Eu não sou suficiente.”
“Eu fui ridículo.”
“Eu não deveria ter tentado.”
“Eu sempre sou rejeitado.”
“Tem algo errado comigo.”
Quando a rejeição ameaça a identidade, a pessoa passa a evitar situações em que pode ser rejeitada.
Ela não busca quem deseja. Busca quem parece seguro.
Não se aproxima de quem admira. Aproxima-se de quem parece menos ameaçador.
Não escolhe a partir do desejo. Escolhe a partir do medo.
E, aos poucos, pode construir uma vida afetiva baseada em autoproteção, não em autenticidade.
O perigo de “se contentar” por medo
Existe uma diferença enorme entre escolher alguém real, possível e humano — e escolher alguém apenas porque parece menos arriscado.
Todo relacionamento exige algum grau de realidade. Ninguém se relaciona com um ideal perfeito. Relações saudáveis envolvem ajuste, imperfeição, negociação e construção.
Mas “ser realista” não é o mesmo que se diminuir.
Algumas pessoas chamam de realismo aquilo que, na verdade, é medo.
Elas dizem:
“Eu não sou exigente.”
Mas, por dentro, talvez sintam:
“Não posso querer muito.”
Dizem:
“Eu prefiro alguém simples.”
Mas talvez estejam evitando:
“Alguém que eu realmente admire poderia me rejeitar.”
Dizem:
“Não ligo para isso.”
Mas talvez tenham desistido de desejar para não sofrer.
A prevenção excessiva pode transformar a vida amorosa em uma busca por segurança emocional mínima.
A pessoa não pergunta: “com quem eu quero construir?”
Pergunta: “quem tem menor chance de me rejeitar?”
Essa é uma mudança profunda.
Crescimento pessoal não é arrogância
É importante não confundir foco em crescimento com arrogância.
Buscar alguém que você admira não significa se achar superior. Ter padrões não significa desprezar pessoas. Reconhecer seu valor não significa negar suas limitações.
Crescimento pessoal saudável envolve uma relação mais madura com o próprio desejo.
A pessoa consegue dizer:
“Eu tenho algo a oferecer.”
“Eu posso buscar alguém que admiro.”
“Eu posso ser rejeitado e ainda continuar tendo valor.”
“Eu não preciso me diminuir para ser aceito.”
“Eu não preciso perseguir alguém inacessível para provar meu valor.”
“Eu posso desejar sem me perder.”
A autoconfiança saudável não elimina a possibilidade de rejeição. Ela apenas impede que a rejeição destrua completamente a identidade.
Quando o crescimento vira fantasia
Também existe um cuidado importante.
Uma orientação ao crescimento pode levar alguém a buscar parceiros mais desejáveis, mas isso não significa que toda busca ambiciosa seja saudável.
Às vezes, a pessoa busca alguém “muito desejado” não por vínculo, mas por validação.
Ela pensa:
“Se essa pessoa me escolher, finalmente terei valor.”
“Se eu conquistar alguém assim, provo que sou suficiente.”
“Se estou com alguém admirado, eu também me torno admirável.”
“Preciso de alguém incrível para me sentir alguém.”
Nesse caso, o parceiro vira troféu narcísico, não sujeito.
A busca não nasce do encontro, mas da tentativa de reparar uma ferida de autoestima.
Esse é um ponto clínico essencial: o problema não está apenas em buscar alguém desejável. Está na função psíquica dessa busca.
A pergunta não é só:
“Quem eu quero?”
Mas:
“O que eu estou tentando provar ao querer essa pessoa?”
Escolher pelo desejo ou pela ferida?
Muitas escolhas amorosas são menos livres do que parecem.
Às vezes, escolhemos a partir de feridas antigas.
A pessoa que se sentiu invisível pode buscar alguém muito admirado para se sentir vista.
A pessoa que foi rejeitada pode evitar quem realmente deseja para não reviver a dor.
A pessoa que cresceu precisando agradar pode escolher quem exige pouco dela.
A pessoa que teme abandono pode aceitar menos do que precisa.
A pessoa que se sente inferior pode idealizar parceiros emocionalmente indisponíveis.
A pessoa que precisa provar valor pode transformar conquista amorosa em competição.
Nesse sentido, a escolha de parceiro revela muito sobre a estrutura interna.
Ela mostra o que a pessoa acredita merecer.
O que teme perder.
O que tenta reparar.
O que busca confirmar.
O que ainda não elaborou.
O relacionamento é um espelho, mas não um espelho neutro. Ele reflete as narrativas que carregamos sobre nós mesmos.
A realidade percebida no amor
No campo afetivo, ninguém escolhe apenas a partir da realidade objetiva.
Nós escolhemos a partir da realidade percebida.
E essa realidade é filtrada por crenças como:
“Sou desejável.”
“Sou substituível.”
“Preciso me esforçar para ser amado.”
“Pessoas interessantes não escolheriam alguém como eu.”
“Se eu mostrar interesse, vou parecer fraco.”
“Se eu for rejeitado, não vou suportar.”
“Amor é competição.”
“Relacionamento é segurança.”
“Relacionamento é risco.”
“Preciso estar com alguém admirado para me sentir validado.”
Essas crenças funcionam como lentes.
Duas pessoas podem estar diante da mesma possibilidade amorosa. Uma vê oportunidade. Outra vê ameaça. Uma se aproxima. Outra se retrai. Uma interpreta o interesse como possível. Outra interpreta como impossível.
O mundo externo é parecido. O mundo interno é diferente.
A consciência não é a narrativa amorosa
Um dos objetivos da psicoterapia é ajudar a pessoa a perceber que seus pensamentos sobre o amor não são verdades absolutas.
A mente pode dizer:
“Essa pessoa nunca se interessaria por mim.”
Mas isso é uma previsão, não um fato.
A mente pode dizer:
“Se eu tentar, vou ser humilhado.”
Mas isso é uma antecipação de ameaça.
A mente pode dizer:
“Eu só serei alguém se for escolhido por alguém muito desejado.”
Mas isso é uma tentativa de buscar valor fora.
A consciência pode observar essas narrativas.
E quando a pessoa observa a narrativa, ela deixa de ser totalmente guiada por ela.
Em vez de:
“Eu não sou suficiente.”
Pode começar a perceber:
“Existe uma parte de mim que aprendeu a se sentir insuficiente diante de pessoas que admiro.”
Essa diferença é enorme.
A primeira frase prende.
A segunda abre espaço para mudança.
O papel da autoestima nos relacionamentos
Autoestima não é apenas “gostar de si mesmo”.
Nos relacionamentos, autoestima envolve a capacidade de se perceber como alguém digno de amor, respeito, desejo, escuta e reciprocidade.
Uma autoestima mais estável permite que a pessoa deseje sem se humilhar, se aproxime sem se apagar e seja rejeitada sem se destruir.
Ela ajuda a pessoa a sustentar três verdades ao mesmo tempo:
“Eu tenho valor.”
“O outro tem liberdade.”
“A rejeição dói, mas não define quem eu sou.”
Quando a autoestima é frágil, qualquer movimento amoroso vira ameaça.
Se o outro corresponde, a pessoa se sente validada.
Se o outro demora, a pessoa se desorganiza.
Se o outro rejeita, a pessoa se sente anulada.
Se o outro escolhe alguém, a pessoa se compara.
Se o outro se aproxima, a pessoa teme perder.
A vida afetiva fica dependente de sinais externos.
Padrões românticos: exigência ou autocuidado?
Ter padrões em relacionamentos pode ser saudável.
Padrões saudáveis incluem:
respeito;
reciprocidade;
responsabilidade afetiva;
compatibilidade de valores;
maturidade emocional;
capacidade de diálogo;
disponibilidade;
cuidado;
limites;
projeto de vida minimamente compatível.
O problema é quando os padrões viram fantasia rígida ou quando desaparecem por medo.
Algumas pessoas idealizam demais e ninguém real serve.
Outras se diminuem demais e aceitam qualquer coisa para não ficarem sozinhas.
Ambas podem estar sofrendo.
A idealização extrema pode proteger contra intimidade real.
A baixa exigência pode proteger contra rejeição.
Em ambos os casos, o desejo não está totalmente livre. Está organizado por defesa.
O que o estudo ensina para a clínica?
O estudo ajuda a pensar que a escolha amorosa não depende apenas do que a pessoa deseja, mas também do que ela acredita ser possível buscar.
A orientação para crescimento parece ampliar a busca.
A orientação para segurança parece restringir a busca.
Mas, na clínica, precisamos perguntar:
Esse crescimento é autêntico ou compensatório?
Essa segurança é prudência ou medo?
Esse padrão é valor ou defesa?
Essa escolha é desejo ou evitação?
Essa autoconfiança é sólida ou inflada?
Essa cautela protege ou aprisiona?
O estudo não deve ser usado para incentivar as pessoas a perseguirem parceiros “mais desejáveis” como se o amor fosse um mercado de status.
A leitura mais útil é outra: a forma como a pessoa se percebe altera o campo de possibilidades que ela enxerga.
Quando a pessoa busca sempre menos do que deseja
Alguns pacientes vivem um padrão de rebaixamento afetivo.
Eles se interessam por alguém, mas rapidamente desistem:
“Está fora do meu alcance.”
“Eu não sou interessante o suficiente.”
“Melhor nem tentar.”
“Essa pessoa tem opções melhores.”
“Se eu demonstrar interesse, vou passar vergonha.”
Depois, entram em relações onde não se sentem verdadeiramente admirados, conectados ou escolhidos. Relações seguras no sentido de serem menos ameaçadoras, mas pobres em desejo, reciprocidade ou crescimento.
Com o tempo, pode surgir uma sensação de vazio:
“Eu nunca vivo o que realmente quero.”
“Parece que estou sempre aceitando o possível.”
“Não sinto entusiasmo.”
“Eu me contento.”
“Tenho medo de querer mais.”
Esse padrão merece atenção terapêutica.
Não para alimentar exigência irreal, mas para recuperar o direito ao desejo.
Quando a pessoa busca sempre o inalcançável
Também existe o padrão oposto.
Algumas pessoas buscam repetidamente parceiros muito indisponíveis, muito idealizados ou socialmente muito valorizados, mas com pouca possibilidade real de vínculo.
Nesse caso, a busca por alguém “mais desejável” pode ter outra função: manter a pessoa longe da intimidade concreta.
Desejar alguém inalcançável protege contra o risco de uma relação real.
A pessoa sofre, mas também evita:
ser vista de perto;
ser conhecida em suas falhas;
negociar cotidiano;
lidar com reciprocidade;
construir intimidade;
enfrentar vulnerabilidade real.
A fantasia mantém o desejo vivo, mas a relação não se materializa.
Nesse caso, o foco não é “mirar alto”. É entender por que o desejo se organiza ao redor do impossível.
A escolha amorosa como expressão de identidade
Quem eu busco diz algo sobre quem eu acredito ser.
Se eu acredito que tenho valor, posso buscar reciprocidade.
Se acredito que sou insuficiente, posso aceitar migalhas.
Se acredito que preciso provar algo, posso buscar troféus.
Se acredito que amor é perigo, posso escolher distância.
Se acredito que ser rejeitado é insuportável, posso evitar tentar.
Se acredito que só serei amado se agradar, posso me apagar.
Por isso, trabalhar relacionamentos não é apenas falar sobre o outro.
É falar sobre identidade.
A pergunta “por que eu escolho esse tipo de pessoa?” frequentemente esconde outra pergunta:
“Quem eu acredito ser quando estou diante do amor?”
Como desenvolver uma busca amorosa mais consciente?
Algumas reflexões podem ajudar:
“O que eu busco em alguém é realmente meu ou é uma expectativa social?”
“Tenho medo de ser rejeitado por pessoas que admiro?”
“Costumo me aproximar de quem desejo ou de quem parece seguro?”
“Meus padrões são saudáveis ou defensivos?”
“Eu idealizo pessoas para evitar intimidade real?”
“Eu aceito pouco por medo de ficar sozinho?”
“Minha autoestima depende de ser escolhido?”
“Que parte da minha história ainda escolhe por mim?”
“Eu consigo desejar sem me perder?”
“Eu consigo ser rejeitado sem me destruir?”
Essas perguntas ajudam a separar desejo, medo e narrativa.
O que a pesquisa não permite concluir?
É importante ter cautela.
O estudo foi feito com universitários heterossexuais, em um contexto específico. Portanto, os resultados não devem ser generalizados automaticamente para pessoas mais velhas, casais de longa duração, diferentes orientações sexuais, diferentes culturas ou contextos clínicos.
Além disso, os estudos têm desenho observacional. Isso significa que não permitem afirmar causalidade definitiva. Não podemos dizer que ter foco em crescimento “causa” a busca por parceiros mais desejáveis, nem que o foco em prevenção “causa” escolhas menos ambiciosas.
Também é importante lembrar que “desejabilidade” foi medida por traços avaliados em contexto universitário e de speed dating. Isso não captura toda a complexidade de uma relação real, que envolve tempo, convivência, valores, maturidade emocional, comunicação, história e contexto.
A conclusão responsável é:
as orientações motivacionais de crescimento ou segurança parecem influenciar a forma como as pessoas avaliam a si mesmas e, por consequência, o nível de aspiração que levam para suas escolhas românticas.
Psicoterapia e escolhas amorosas
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender o padrão por trás de suas escolhas afetivas.
Não se trata de ensinar alguém a “conquistar pessoas mais desejáveis”. Essa seria uma leitura superficial.
O objetivo é ajudar a pessoa a escolher com mais consciência.
Na terapia, é possível trabalhar:
autoimagem romântica;
medo de rejeição;
padrões de evitação;
idealização;
dependência emocional;
baixa autoestima;
crenças de insuficiência;
necessidade de validação;
histórico de rejeição;
feridas familiares;
repetição de vínculos indisponíveis;
capacidade de sustentar desejo e limite.
O ponto central é recuperar autonomia psíquica.
A pessoa deixa de escolher apenas a partir do medo, da carência ou da fantasia e começa a se perguntar:
“O que eu realmente quero construir?”
“Que tipo de vínculo combina com meus valores?”
“Estou escolhendo alguém ou tentando reparar uma ferida?”
“Estou buscando amor ou validação?”
“Estou evitando rejeição ou buscando conexão?”
Um olhar mais profundo: o amor como campo de projeção
O amor é um dos lugares onde mais projetamos nossas narrativas internas.
Projetamos no outro aquilo que admiramos, aquilo que falta, aquilo que tememos, aquilo que desejamos ser e aquilo que ainda não curamos.
Uma pessoa que prioriza crescimento pode ver o outro como possibilidade.
Uma pessoa que prioriza segurança pode ver o outro como risco.
Uma pessoa ferida pode ver o outro como salvação.
Uma pessoa insegura pode ver o outro como juiz.
Uma pessoa carente pode ver o outro como fonte de valor.
Uma pessoa autônoma pode ver o outro como encontro.
A diferença não está apenas no outro. Está no observador.
A consciência constrói a realidade amorosa a partir de filtros internos.
Quando esses filtros são inconscientes, a pessoa repete padrões.
Quando são observados, podem ser transformados.
Conclusão: quem você acredita ser influencia quem você se permite buscar
A pesquisa mostra que pessoas orientadas ao crescimento tendem a se perceber de forma mais positiva, estabelecer padrões românticos mais altos e buscar parceiros considerados mais desejáveis. Pessoas mais orientadas à segurança tendem a se perceber de forma mais negativa e buscar parceiros menos desejáveis.
Mas a mensagem mais importante não é “busque alguém mais desejável”.
A mensagem é: observe como sua autoimagem define o tamanho do seu desejo.
Muitas pessoas não sofrem porque desejam demais. Sofrem porque aprenderam a desejar pouco. Outras sofrem porque buscam no outro uma validação que ainda não conseguiram construir internamente.
O caminho saudável não está em mirar o “melhor” parceiro como conquista de status. Está em construir uma relação mais consciente consigo mesmo para escolher melhor.
Escolher melhor não significa escolher alguém socialmente mais valorizado.
Significa escolher alguém que combine com seus valores, respeite seus limites, desperte admiração real e permita reciprocidade.
No fundo, a pergunta não é apenas:
“Que tipo de pessoa eu quero?”
Mas também:
“Que tipo de amor eu acredito que posso viver?”
E talvez a psicoterapia comece justamente nesse ponto: ajudar a pessoa a perceber que algumas limitações amorosas não vêm do mundo externo, mas de narrativas internas antigas que ainda dizem até onde ela pode ir.
Por Mateus Costa de Souza
Psicólogo clínico | MaxStats Psicologia
FAQ para SEO
1. O que é foco em promoção nos relacionamentos?
Foco em promoção é uma orientação voltada para crescimento, avanço, oportunidade e realização. Nos relacionamentos, pode levar a pessoa a se sentir mais disposta a buscar parceiros que admira, mesmo com risco de rejeição.
2. O que é foco em prevenção nos relacionamentos?
Foco em prevenção é uma orientação voltada para segurança, cautela e evitação de perdas. No amor, pode fazer a pessoa evitar se expor, temer rejeição e buscar opções percebidas como mais seguras.
3. Crescimento pessoal influencia a escolha amorosa?
Sim. O estudo sugere que pessoas mais orientadas ao crescimento tendem a avaliar a si mesmas de forma mais positiva, estabelecer padrões românticos mais altos e buscar parceiros considerados mais desejáveis.
4. Medo de rejeição pode fazer alguém aceitar menos no amor?
Pode. Quando a rejeição é percebida como ameaça à identidade, a pessoa pode evitar quem realmente deseja e escolher relações menos arriscadas, mesmo que menos satisfatórias.
5. Ter padrões altos em relacionamentos é ruim?
Não necessariamente. Padrões saudáveis envolvem respeito, reciprocidade, maturidade emocional e compatibilidade. O problema surge quando os padrões são idealizados, rígidos ou usados para evitar intimidade real.
6. Buscar alguém muito desejável pode ser sinal de insegurança?
Pode ser, dependendo da função emocional. Algumas pessoas buscam parceiros admirados para validar o próprio valor. Outras fazem isso por autoconfiança e desejo genuíno. A diferença está na motivação.
7. Autoestima influencia a escolha de parceiros?
Sim. A forma como a pessoa se percebe pode ampliar ou limitar quem ela acredita que pode buscar. Mas o estudo mostrou que os efeitos do foco em promoção e prevenção apareceram mesmo após controle de autoestima geral.
8. Psicoterapia pode ajudar nas escolhas amorosas?
Sim. A psicoterapia pode ajudar a identificar padrões de escolha, medo de rejeição, baixa autoestima, idealização, dependência emocional e crenças antigas que influenciam os relacionamentos.



