Um estudo recente publicado na revista American Psychologist apresenta evidências de que pessoas provenientes de culturas com normas sociais rígidas tendem a ser menos habilidosas em criar conteúdo humorístico do que aquelas oriundas de culturas mais flexíveis. Os resultados sugerem que a capacidade de produzir humor não é apenas um traço inato de personalidade, mas uma habilidade fortemente moldada pelas regras sociais do ambiente em que a pessoa vive. Compreender essa dinâmica pode ajudar na comunicação intercultural e na prevenção de mal-entendidos em contextos multiculturais.
O humor é um comportamento humano universal que aproxima as pessoas, mas o que é considerado engraçado em uma parte do mundo pode gerar constrangimento — ou até consequências legais — em outra. Em alguns países, comediantes enfrentaram forte reação ao fazer piadas sobre temas sensíveis, como o exército. Diante disso, os pesquisadores buscaram entender por que essas diferenças culturais existem e quais fatores as explicam.
O foco foi o conceito de “rigidez cultural” (cultural tightness), que se refere ao grau em que uma sociedade impõe normas sociais estritas e pune desvios. Como fazer uma piada frequentemente envolve quebrar expectativas ou normas, os pesquisadores suspeitaram que sociedades mais rígidas desencorajariam o desenvolvimento de habilidades humorísticas.
Yi Cao, pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Pequim e na Universidade Cornell, e Li-Jun Ji, professora da Queen’s University, explicaram que estudos anteriores já indicavam que chineses produzem menos humor do que norte-americanos. Embora valores confucionistas tenham sido apontados como explicação, os autores quiseram investigar de forma mais específica e empírica como as normas sociais influenciam a produção de humor.
Os pesquisadores distinguiram dois aspectos do senso de humor: apreciação (achar algo engraçado) e produção (criar piadas ou comentários humorísticos). A hipótese era que a rigidez cultural afetaria principalmente a produção, pois criar uma piada envolve maior risco social do que apenas rir.
Foram conduzidos seis estudos. No primeiro, 279 participantes — chineses (cultura rígida) e norte-americanos (cultura flexível) — avaliaram suas próprias habilidades humorísticas. Os chineses se classificaram como menos habilidosos na produção de humor, mas não houve diferença significativa na apreciação.
No segundo estudo, 278 universitários criaram legendas engraçadas para fotos. Avaliadores nativos classificaram as legendas. Os estudantes chineses produziram legendas consideradas menos engraçadas do que as dos americanos.
No terceiro estudo, 441 participantes de cinco países (China, Índia e Noruega como culturas rígidas; EUA e Austrália como flexíveis) repetiram a tarefa. Novamente, participantes de culturas rígidas produziram menos humor, embora a diferença na apreciação de piadas prontas fosse pequena.
Os autores observaram que pessoas de culturas rígidas não carecem de senso de humor, mas tendem a expressá-lo de forma mais reservada devido às expectativas sociais.
No quarto estudo, os pesquisadores testaram se o efeito se devia à rigidez cultural e não ao coletivismo (priorizar o grupo sobre o indivíduo). Compararam Alemanha (rígida e individualista) e Brasil (flexível e coletivista). Os alemães produziram menos humor do que os brasileiros, e análises confirmaram que a rigidez cultural — e não o coletivismo — prediz menor produção de humor.
Nos dois últimos experimentos, estudantes chineses e americanos leram textos descrevendo uma sociedade fictícia rígida ou flexível antes de completar tarefas humorísticas. Aqueles expostos à narrativa rígida produziram menos humor, independentemente do país, indicando que o contexto mental imediato influencia a criatividade humorística.
Os pesquisadores ressaltaram que normas culturais moldam a expressão do humor. Uma pessoa que parece pouco brincalhona pode apenas estar seguindo expectativas culturais sobre quando e como o humor é apropriado.
Entre as limitações, destacam-se diferenças demográficas entre os grupos e o uso de narrativas fictícias para induzir estados mentais. Estudos futuros poderiam testar ambientes reais, como reuniões formais, e analisar outras formas de humor, como contar piadas já conhecidas.
Os autores também destacaram pesquisas recentes mostrando que o humor chinês frequentemente combina seriedade e comicidade (“seriocômico”), em vez de tratá-las como opostas. Isso pode explicar por que o humor produzido na China às vezes é percebido como menos engraçado por públicos ocidentais.
O estudo, “Cultural Tightness Reduces Humor Production: Evidence From Multiple Countries”, foi conduzido por Yi Cao, Yubo Hou, Yijiang Wang e Li-Jun Ji.



