Um novo estudo publicado na revista Addictive Behaviors fornece evidências de que o uso excessivo de smartphones e os sentimentos de desconexão se alimentam mutuamente em um ciclo diário contínuo. Quando universitários se sentem desfocados, frequentemente recorrem ao celular em busca de alívio, o que, na prática, tende a deixá-los ainda mais desconectados no dia seguinte. Esses achados sugerem que romper esse ciclo exige substituir ativamente o tempo de tela por atividades offline significativas.
Com o rápido crescimento da tecnologia digital, o uso problemático de smartphones tornou-se uma preocupação relevante entre jovens adultos. Esse padrão refere-se a hábitos de uso que envolvem múltiplos aplicativos, tornam-se difíceis de controlar e acabam interferindo na vida cotidiana. O uso excessivo tem sido associado a pior saúde mental, relações interpessoais prejudicadas e menor desempenho acadêmico.
Um conceito relacionado é o de desengajamento, um estado temporário de tédio no qual a pessoa se sente desconectada do ambiente atual. Indivíduos desengajados costumam ter dificuldade em manter a atenção em tarefas significativas e podem experimentar emoções negativas. Segundo teorias psicológicas, essa sensação funciona como um sinal de que a atividade atual não está sendo percebida como recompensadora.
Alguns pesquisadores sugerem que as pessoas buscam naturalmente um nível ideal de estimulação mental. Quando uma tarefa parece repetitiva ou sem sentido, surge uma sensação desconfortável de apatia. Como os smartphones oferecem entretenimento imediato e praticamente infinito, tornam-se uma forma fácil de escapar do tédio.
“O meu interesse começou ao observar como os smartphones facilmente levam ao uso problemático — basicamente, quando o uso se torna desregulado e difícil de controlar. Foquei em estudantes do primeiro ano porque eles estão lidando com nova autonomia e aprendizagem autodirigida, o que os torna especialmente vulneráveis”, explicou o autor do estudo, Jeong Jin Yu, professor de estudos educacionais na Xi’an Jiaotong-Liverpool University, na China.
“Minha principal questão era a ligação com o ‘desengajamento’, essa dificuldade de se concentrar em tarefas significativas. Embora os estudantes recorram ao celular para se autoestimular e aliviar essa sensação, isso tende a sair pela culatra. Eu quis testar se isso cria um ciclo de reforço: sentir-se desconectado em um dia leva a mais uso do celular, o que então leva a ainda mais desconexão no dia seguinte?”
Para investigar essa dinâmica no cotidiano, Yu desenvolveu um estudo de um mês. A transição para a universidade envolve maior independência, demandas acadêmicas intensificadas e acesso constante aos dispositivos. Ao acompanhar variações diárias, o pesquisador buscou verificar se sentir-se desconectado em um dia levaria a mais tempo de tela no dia seguinte — e vice-versa.
Foram recrutados 138 estudantes do primeiro ano de graduação em duas cidades da China. Como incentivo, os participantes que completassem os questionários diários recebiam um cupom de 100 RMB (aproximadamente 14 dólares). A análise final incluiu 104 estudantes que responderam consistentemente durante 30 dias. A idade média era de 18,6 anos, e pouco mais da metade se identificava como do sexo feminino. Em média, cada participante respondeu cerca de 27 dos 30 questionários diários.
Todas as noites, entre 21h e a hora de dormir, os estudantes respondiam a questionários em seus próprios dispositivos. Foram aplicadas 32 perguntas para medir o uso problemático do smartphone naquele dia específico, avaliando o grau de dificuldade em regular o uso. Também responderam a cinco perguntas sobre desengajamento diário, indicando o quanto se sentiam obrigados a realizar atividades sem valor pessoal. Pontuações mais altas indicavam maior sensação de tédio e desconexão momentânea.
Yu utilizou modelos estatísticos capazes de distinguir diferenças estáveis entre indivíduos das variações diárias dentro da mesma pessoa. Isso permitiu observar como o comportamento de cada estudante variava de um dia para o outro em comparação com sua própria média. O modelo também controlou variáveis como gênero e condição socioeconômica familiar.
Os resultados revelaram uma relação bidirecional clara. Nos dias em que um estudante utilizava o smartphone mais do que o habitual, relatava maior desengajamento no dia seguinte. Da mesma forma, nos dias em que se sentia mais desconectado que o normal, o uso do celular aumentava no dia posterior.
Esse padrão sugere um efeito “bola de neve”, no qual pequenos hábitos diários se reforçam progressivamente. Ao tentar aliviar o tédio rolando aplicativos, o estudante pode acabar se preparando para se sentir ainda menos focado na manhã seguinte. Com o tempo, esse reforço diário cria um ciclo autossustentado de distração.
Além das flutuações diárias, observou-se também que estudantes que, em geral, apresentavam maior uso de smartphone do que seus colegas relatavam níveis consistentemente mais altos de desengajamento. A incapacidade persistente de reduzir o tempo de tela amplificava a sensação de tédio.
“A principal conclusão é que o uso do smartphone e o desengajamento alimentam um ao outro em um ciclo vicioso”, afirmou Yu. “Quando você se sente desconectado ou desfocado, pode recorrer ao celular em busca de alívio, mas isso provavelmente fará você se sentir ainda mais desconectado no dia seguinte.”
Segundo ele, romper esse ciclo exige mais do que força de vontade: é necessário substituir o hábito de rolar a tela por algo significativo, como participar de um clube, fazer voluntariado ou estabelecer horários de estudo livres de celular.
Nem gênero nem condição socioeconômica familiar alteraram significativamente os resultados, sugerindo que esse ciclo afeta amplamente estudantes do primeiro ano, independentemente do perfil demográfico.
O estudo possui limitações. Ele foi conduzido apenas com universitários chineses do primeiro ano, o que limita a generalização para outras culturas ou faixas etárias. Além disso, os dados foram baseados em autorrelato, o que pode introduzir vieses.
Yu destaca que estudos futuros deveriam incluir dados objetivos, como registros reais de tempo de tela, para reduzir vieses. Ele também pretende investigar mecanismos específicos que alimentam esse ciclo, como privação de sono ou o tipo de aplicativo utilizado.
Seu objetivo de longo prazo é desenvolver intervenções práticas, como programas de educação em bem-estar digital, atividades extracurriculares estruturadas e estratégias simples — como limites de uso durante o estudo — capazes de interromper esse efeito cumulativo.
O estudo, intitulado “Problematic smartphone use and disengagement in first-year college students: A daily diary study of between- and within-person differences”, foi conduzido por Jeong Jin Yu.



