Nos últimos anos, medicamentos como Ozempic e Wegovy ficaram muito conhecidos por seus efeitos no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Eles pertencem a uma classe chamada agonistas do receptor GLP-1, medicamentos que imitam a ação de um hormônio envolvido na regulação da glicose, do apetite e da saciedade.
Mas a ciência começou a observar algo além do peso e do metabolismo.
Algumas pessoas que usam esses medicamentos relatam redução de fissuras, compulsões e impulsos. Não apenas vontade de comer, mas também desejo por álcool, nicotina, jogos e outros comportamentos de recompensa. Isso levantou uma pergunta interessante: se esses medicamentos podem modular circuitos de recompensa e impulso, será que também poderiam influenciar comportamentos agressivos ou violentos?
Um estudo publicado na revista Criminology investigou essa possibilidade. Os pesquisadores analisaram adultos norte-americanos que já haviam usado medicamentos GLP-1 e compararam usuários atuais com ex-usuários. O resultado principal foi que, entre usuários atuais, a ligação entre impulsividade e comportamento violento autorrelatado foi significativamente mais fraca.
Isso não significa que Ozempic “cura agressividade” ou que medicamentos GLP-1 devem ser usados para tratar violência. Essa seria uma leitura perigosa e exagerada. O estudo é observacional, transversal e baseado em autorrelato. Ele não prova causa e efeito.
Mas ele abre uma discussão importante: comportamento humano não nasce apenas da vontade consciente. Ele também envolve corpo, cérebro, recompensa, estresse, impulsividade, contexto social e capacidade de regulação.
O que são medicamentos GLP-1?
GLP-1 é a sigla para glucagon-like peptide-1, um hormônio envolvido na regulação da glicose, do apetite e da saciedade.
Os agonistas do receptor GLP-1 são medicamentos que imitam ou potencializam essa ação. Entre eles estão nomes comerciais como Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Trulicity, usados principalmente no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade.
Esses medicamentos ajudam o corpo a regular glicose e apetite, mas também parecem atuar em circuitos cerebrais relacionados à recompensa.
Por isso, pesquisadores começaram a investigar se eles poderiam reduzir “ruídos” internos ligados ao impulso.
Muitas pessoas descrevem o efeito sobre a alimentação como redução do chamado “food noise”, aquela presença mental constante da comida, do desejo, da busca por recompensa imediata. A hipótese levantada pelo estudo é: talvez algo semelhante ocorra com outros impulsos.
Não porque a medicação elimine traços de personalidade.
Mas porque pode reduzir a passagem automática do impulso para a ação.
O que o estudo investigou?
O estudo analisou uma amostra nacionalmente representativa de adultos dos Estados Unidos. Ao todo, a pesquisa original incluiu 7.521 participantes. Dentro desse grupo, 821 pessoas relataram já ter usado algum medicamento GLP-1 ao longo da vida. Entre elas, 597 eram usuários atuais e 224 eram ex-usuários.
Os pesquisadores compararam usuários atuais com ex-usuários porque ambos os grupos tinham histórico de acesso e indicação para esse tipo de medicamento, geralmente por questões como obesidade, diabetes ou saúde metabólica.
Os participantes responderam questionários sobre:
impulsividade;
uso de álcool;
comportamentos violentos no último ano;
comportamentos não violentos;
idade, renda, escolaridade, raça, sexo, peso, diabetes, trabalho, estado civil e segurança percebida no bairro.
O comportamento violento foi medido por uma escala de autorrelato que incluía itens como envolvimento em brigas físicas, agressão após insulto e ameaças ou roubos com arma.
O objetivo não era dizer quem é “violento” como identidade. O objetivo era analisar se a impulsividade e o álcool se associavam de forma diferente ao comportamento violento dependendo do uso atual ou passado de GLP-1.
O principal achado: o impulso parece virar ação com menos força
O resultado mais forte foi a interação entre uso atual de GLP-1 e impulsividade.
Entre ex-usuários, a impulsividade estava fortemente associada a maior comportamento violento autorrelatado. Já entre usuários atuais, essa associação foi muito mais fraca e deixou de ser estatisticamente significativa. O estudo encontrou que a relação entre impulsividade e violência foi aproximadamente 62% mais fraca entre usuários atuais em comparação com ex-usuários.
Esse ponto é fundamental.
A pesquisa não sugere que o medicamento necessariamente reduza a impulsividade de base.
Ela sugere algo mais específico: o medicamento pode enfraquecer o caminho entre ser impulsivo e agir violentamente.
Em termos psicológicos, isso se aproxima de uma ideia muito importante na clínica:
o objetivo nem sempre é eliminar um impulso.
Muitas vezes, é criar espaço entre impulso e ação.
A pessoa ainda pode sentir raiva.
Ainda pode sentir urgência.
Ainda pode ter tendência à reação.
Mas talvez consiga atravessar esse intervalo sem transformar o impulso em comportamento.
Esse intervalo é onde mora o autocontrole.
A figura do estudo: quando as curvas se achatam
A figura 1 do artigo, localizada na página 8, mostra quatro gráficos com previsões de comportamento violento conforme aumentam impulsividade e uso de álcool, separando ex-usuários e usuários atuais de GLP-1.
Nos painéis A e C, referentes aos ex-usuários, as curvas sobem de forma clara: quanto maior a impulsividade ou o uso de álcool, maior a violência prevista.
Nos painéis B e D, referentes aos usuários atuais, as curvas ficam muito mais planas. Isso sugere que, mesmo quando impulsividade ou álcool aumentam, o comportamento violento previsto cresce muito menos entre usuários atuais.
Visualmente, o dado é forte: não é como se o risco desaparecesse, mas como se a inclinação do risco fosse reduzida.
Em linguagem clínica: o impulso continua existindo, mas parece ter menos força para comandar a ação.
E o álcool?
O estudo também encontrou que a associação entre uso de álcool e comportamento violento foi cerca de 52% mais fraca entre usuários atuais de GLP-1.
Porém, esse resultado precisa ser interpretado com mais cautela.
As análises de robustez mostraram que a interação envolvendo impulsividade foi consistente em diferentes modelos estatísticos. Já a interação envolvendo álcool foi mais sensível: perdeu significância em algumas análises, especialmente quando os pesquisadores ajustaram certos modelos ou removeram observações influentes.
A própria matéria de divulgação científica enfatiza esse cuidado: os achados sobre impulsividade são mais fortes, enquanto os achados sobre álcool ainda precisam de confirmação em estudos futuros.
Portanto, a leitura correta é:
o resultado sobre impulsividade é o mais robusto;
o resultado sobre álcool é interessante, mas ainda preliminar.
Isso significa que Ozempic reduz violência?
Não podemos afirmar isso.
O estudo não prova causalidade.
Ele foi transversal, ou seja, os dados foram coletados em um único momento. Os pesquisadores não acompanharam as mesmas pessoas antes e depois de iniciar ou parar o medicamento. Também não foi um experimento clínico randomizado.
Isso significa que não sabemos se o medicamento causou diretamente a redução da associação entre impulsividade e violência.
Pode haver outros fatores envolvidos.
Por exemplo:
pessoas que continuam usando GLP-1 podem ter mais acesso a cuidado médico;
ex-usuários podem ter parado por custo, efeitos colaterais, perda de seguro ou estresse;
mudanças de saúde, renda ou rotina podem influenciar comportamento;
a violência autorrelatada é rara na população geral, o que dificulta conclusões definitivas;
as respostas dependem da sinceridade e memória dos participantes.
Os autores são cuidadosos: os resultados levantam uma hipótese biossocial, mas precisam ser confirmados por estudos longitudinais e experimentais.
Por que esses medicamentos poderiam afetar impulsividade?
Existem algumas hipóteses.
Os medicamentos GLP-1 parecem influenciar circuitos de recompensa, especialmente sistemas ligados à dopamina. A dopamina participa da motivação, prazer, busca por recompensa e resposta a pistas do ambiente.
Quando esses circuitos estão muito ativados, a pessoa pode sentir maior urgência para buscar alívio, prazer ou reação imediata.
Em alguns casos, isso pode aparecer como:
comer compulsivo;
fissura por substâncias;
jogo compulsivo;
busca de recompensa rápida;
reação impulsiva;
dificuldade de esperar;
menor inibição diante de provocação.
O estudo também menciona possíveis efeitos em sistemas de estresse, como o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, além de possíveis reduções em processos de neuroinflamação. Esses mecanismos podem estar relacionados a humor, ativação emocional e controle comportamental.
A hipótese, portanto, não é mágica.
É neurocomportamental: se a medicação reduz saliência de recompensa, fissura e reatividade, talvez reduza também a chance de um impulso virar ação agressiva em situações carregadas emocionalmente.
A agressividade reativa e o impulso
Muitos comportamentos agressivos não são planejados com frieza. Alguns são reativos.
Acontecem em contextos de provocação, ameaça, humilhação, frustração, álcool, tensão corporal e baixa capacidade de inibição.
A pessoa sente algo e age rápido demais.
Depois pode se arrepender, justificar, negar ou nem compreender totalmente como passou do pensamento à ação.
A impulsividade entra justamente aí: na dificuldade de sustentar uma pausa.
Não é apenas “vontade de agredir”.
É falha no intervalo entre emoção e comportamento.
Do ponto de vista psicológico, esse intervalo depende de regulação emocional, autoconsciência, controle inibitório, história de aprendizagem, ambiente, uso de substâncias, sono, estresse, vínculos e estado fisiológico.
O estudo sugere que medicamentos GLP-1 podem interferir nesse intervalo, especialmente em pessoas impulsivas. Mas isso não substitui intervenções psicológicas, sociais e educativas.
O paralelo com a terapia cognitivo-comportamental
Um ponto interessante da matéria é a comparação feita por Christopher Thomas, coautor do estudo. Ele afirma que os achados são consistentes com a ideia de que esses medicamentos funcionariam de forma análoga à terapia cognitivo-comportamental: enfraquecendo o caminho do impulso para a ação, em vez de eliminar a impulsividade em si.
Essa comparação é clinicamente útil.
Na psicoterapia, muitas vezes trabalhamos exatamente isso:
identificar gatilhos;
reconhecer sinais corporais de ativação;
nomear a emoção;
observar pensamentos automáticos;
criar pausa;
avaliar consequências;
escolher respostas alternativas;
reduzir comportamento impulsivo.
A terapia não promete que a pessoa nunca mais sentirá raiva, urgência ou desejo de reagir. Ela ajuda a criar consciência entre o estímulo e a resposta.
O medicamento, se a hipótese for confirmada, poderia atuar em um nível biológico complementar, reduzindo a intensidade da urgência ou o “ruído” impulsivo.
Mas isso não significa substituir psicoterapia por remédio.
Significa que corpo e mente fazem parte do mesmo sistema de regulação.
Cuidado: não transformar medicamento metabólico em tratamento para violência
Este ponto precisa ficar muito claro.
Medicamentos como Ozempic e Wegovy não devem ser tratados como solução para agressividade, criminalidade ou comportamento antissocial.
Eles têm indicações médicas específicas, efeitos colaterais, contraindicações e devem ser usados apenas com acompanhamento profissional adequado.
O próprio estudo reforça que esses medicamentos não devem ser vistos como tratamento isolado para comportamento antissocial. Eles oferecem uma janela para compreender como processos biológicos podem interagir com fatores psicológicos e sociais, mas não anulam o papel do contexto, da desigualdade, do trauma, da educação, do ambiente familiar, da cultura e das condições sociais na produção da violência.
Reduzir violência a biologia seria simplista.
Reduzir violência apenas a escolha individual também seria simplista.
O comportamento humano é construído na interseção entre corpo, história, ambiente, vínculo, cultura, oportunidade, emoção e consciência.
Violência não é apenas impulso
Nem toda violência é impulsiva.
Algumas formas de violência são instrumentais, planejadas, coercitivas ou ligadas a domínio, ideologia, vingança, lucro ou controle.
O estudo encontrou efeitos mais claros para crimes violentos do que para crimes não violentos. Isso faz sentido porque a violência reativa costuma estar mais ligada a impulsividade, álcool, emoção intensa e contexto imediato. Já crimes não violentos, especialmente patrimoniais, podem envolver mais planejamento ou motivação financeira.
Essa distinção é importante.
Se o GLP-1 atua principalmente na passagem entre impulso e ação, ele faria mais sentido em comportamentos reativos do que em comportamentos deliberados.
Em outras palavras: o possível efeito estaria mais relacionado à regulação do impulso do que à moralidade ou ao caráter.
A consciência entre impulso e ação
Do ponto de vista psicológico, um dos temas mais importantes aqui é a capacidade de observar o próprio impulso.
Muitas pessoas vivem como se impulso fosse ordem.
“Senti raiva, então ataquei.”
“Fiquei provocado, então revidei.”
“Me senti humilhado, então perdi o controle.”
“Bebi, fiquei alterado, aconteceu.”
A psicoterapia trabalha para transformar impulso em informação, não em comando.
A raiva informa que algo foi percebido como ameaça, injustiça ou invasão.
A vergonha informa que algo tocou a identidade.
A frustração informa que um desejo foi bloqueado.
O impulso informa que o corpo quer descarregar tensão.
Mas sentir não obriga agir.
Existe um espaço entre emoção e comportamento.
Esse espaço pode ser treinado, ampliado e cuidado.
Se os achados sobre GLP-1 forem confirmados, talvez eles indiquem que certos medicamentos podem facilitar biologicamente esse espaço. Mas a construção de consciência continua sendo indispensável.
Impulsividade como tentativa de regulação
A impulsividade nem sempre é apenas “falta de controle”.
Às vezes, ela é uma tentativa rápida de regular um estado interno insuportável.
A pessoa sente tensão e age para descarregar.
Sente vazio e busca estímulo.
Sente vergonha e reage com ataque.
Sente ameaça e tenta dominar.
Sente frustração e explode.
O comportamento impulsivo pode parecer irracional de fora, mas internamente ele tem uma função: aliviar, defender, escapar, recuperar controle ou reduzir desconforto.
O problema é que o alívio é curto e o custo costuma ser alto.
Na clínica, a pergunta não é apenas:
“Por que você fez isso?”
Mas:
“O que você estava tentando regular naquele momento?”
Essa pergunta abre um caminho mais profundo.
Ozempic, recompensa e “ruído mental”
A ideia de “ruído” é muito útil.
Muitas pessoas descrevem impulsos como um barulho interno:
“Come.”
“Bebe.”
“Responde agora.”
“Compra.”
“Vai atrás.”
“Reage.”
“Não deixa barato.”
“Faz alguma coisa.”
O impulso pressiona a consciência.
Quando a pessoa está cansada, estressada, intoxicada, envergonhada ou emocionalmente ativada, esse ruído pode ficar mais alto.
A hipótese dos pesquisadores é que GLP-1 poderia reduzir parte desse ruído, especialmente relacionado à recompensa e à urgência.
Mas, mesmo que isso se confirme, ainda será necessário construir repertório psicológico.
Silenciar parte do ruído não ensina automaticamente empatia, reparação, comunicação, responsabilidade ou regulação emocional madura.
Medicamento pode reduzir intensidade.
Psicoterapia ajuda a construir significado e escolha.
O que isso ensina para a psicologia clínica?
Esse estudo reforça algo que a clínica já observa: comportamento não é apenas decisão racional.
A pessoa pode saber que algo é errado e ainda assim agir impulsivamente. Pode prometer que não fará de novo e repetir. Pode se arrepender sinceramente e, em outro contexto de ativação, perder o controle novamente.
Isso não significa ausência de responsabilidade. Significa que responsabilidade exige mais do que discurso moral.
Exige trabalho sobre:
gatilhos;
corpo;
sono;
uso de álcool;
estresse;
crenças;
traumas;
ambiente;
habilidades de comunicação;
regulação emocional;
capacidade de mentalização;
controle inibitório;
projeto de vida.
O comportamento violento precisa ser responsabilizado. Mas também precisa ser compreendido se quisermos prevenir repetição.
O risco de uma leitura perigosa
Existe um risco ético em estudos desse tipo: usar achados biológicos para justificar controle social ou medicalização simplista do comportamento.
Isso precisa ser evitado.
Não se deve concluir que pessoas impulsivas precisam ser medicadas para “não serem violentas”.
Não se deve transformar medicamento metabólico em ferramenta de controle comportamental.
Não se deve ignorar pobreza, trauma, violência comunitária, desigualdade, racismo, acesso a armas, álcool, educação e sofrimento psíquico.
Não se deve reduzir criminalidade a cérebro ou hormônio.
A leitura mais responsável é outra:
alguns medicamentos podem revelar mecanismos biológicos que participam da relação entre impulso e ação. Esses mecanismos podem, no futuro, ajudar a entender melhor prevenção, autocontrole e regulação. Mas qualquer aplicação clínica ou social exige cautela, ética, evidência robusta e integração com intervenções psicossociais.
O que o estudo não permite concluir?
O estudo tem limitações importantes.
Primeiro, é transversal. Não acompanhou pessoas ao longo do tempo antes e depois do uso da medicação. Portanto, não prova causalidade.
Segundo, os comportamentos violentos foram autorrelatados. Isso pode gerar subnotificação ou viés de resposta.
Terceiro, a taxa de violência na população geral é baixa, o que limita a precisão das estimativas.
Quarto, os motivos para parar a medicação não foram totalmente controlados. Ex-usuários podem ter interrompido o tratamento por custos, efeitos colaterais, perda de seguro, mudanças de saúde ou eventos estressantes, e esses fatores poderiam influenciar comportamento.
Quinto, os achados sobre álcool foram menos robustos que os achados sobre impulsividade.
A conclusão responsável é:
o estudo sugere que o uso atual de GLP-1 pode enfraquecer a associação entre impulsividade e comportamento violento autorrelatado, mas são necessários estudos longitudinais, experimentais e com populações de maior risco para testar causalidade e mecanismos.
Um olhar psicológico mais profundo
A impulsividade mostra um ponto essencial da vida psíquica: nem sempre a consciência está no comando.
Às vezes, o corpo reage antes que a pessoa consiga simbolizar o que sente. A raiva sobe, o impulso aparece, a ação acontece. Depois, a mente tenta explicar.
O trabalho terapêutico é ampliar o espaço entre sensação e resposta.
Nesse espaço, a pessoa pode perceber:
“Estou ativado.”
“Estou interpretando isso como ameaça.”
“Estou com vontade de reagir.”
“Minha raiva está tentando me proteger.”
“Eu não preciso obedecer ao impulso.”
“Posso sair da situação.”
“Posso responder depois.”
“Posso escolher uma ação que não destrua minha vida.”
Esse espaço é a base da autonomia psíquica.
A medicação, quando indicada para fins médicos apropriados, pode modificar estados corporais e circuitos de recompensa. Mas a consciência precisa aprender a observar, nomear e reorganizar a experiência.
Sem consciência, o impulso apenas procura outro caminho.
Conclusão: entre o impulso e a ação existe um espaço que pode ser cuidado
O estudo sobre medicamentos GLP-1 e comportamento violento abre uma hipótese científica interessante: remédios como Ozempic e Wegovy, usados para diabetes e obesidade, podem influenciar não apenas apetite e peso, mas também processos ligados à recompensa, impulsividade e autocontrole.
A pesquisa encontrou que, entre usuários atuais de GLP-1, a relação entre impulsividade e comportamento violento autorrelatado foi muito mais fraca do que entre ex-usuários. O achado sobre impulsividade foi robusto; o achado sobre álcool foi mais incerto e precisa de confirmação.
Mas a mensagem principal não é que esses medicamentos tratam violência.
A mensagem é mais profunda: comportamento humano depende da interação entre biologia, emoção, ambiente e consciência.
A impulsividade pode aumentar risco.
O álcool pode reduzir inibição.
O estresse pode intensificar reatividade.
A história de vida pode ensinar respostas defensivas.
O contexto social pode ampliar vulnerabilidades.
E o corpo pode influenciar a capacidade de pausar antes de agir.
A psicologia clínica trabalha justamente nesse espaço: o intervalo entre o que a pessoa sente e o que ela faz.
Porque liberdade psíquica não é nunca sentir impulsos.
É não ser completamente governado por eles.
Por Mateus Costa de Souza
Psicólogo clínico | MaxStats Psicologia
FAQ para SEO
1. Ozempic pode reduzir impulsividade?
O estudo não prova que Ozempic reduz a impulsividade em si. Ele sugere que, entre usuários atuais de medicamentos GLP-1, a relação entre impulsividade e comportamento violento autorrelatado foi mais fraca. Isso indica possível redução da passagem do impulso para a ação, mas não causalidade definitiva.
2. Medicamentos GLP-1 podem reduzir violência?
Ainda não é possível afirmar isso. A pesquisa encontrou uma associação entre uso atual de GLP-1 e menor ligação entre impulsividade e violência autorrelatada, mas o estudo é transversal e não prova causa e efeito.
3. O que são medicamentos GLP-1?
São medicamentos usados principalmente para diabetes tipo 2 e obesidade. Eles imitam a ação do hormônio GLP-1, ajudando a regular glicose, apetite e saciedade. Exemplos incluem Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Trulicity.
4. Ozempic pode ser usado para tratar agressividade?
Não. O estudo não recomenda o uso de Ozempic ou outros GLP-1 como tratamento para agressividade ou comportamento antissocial. Esses medicamentos têm indicações médicas específicas e devem ser usados apenas com acompanhamento profissional.
5. Qual foi o principal achado do estudo?
O principal achado foi que a associação entre impulsividade e comportamento violento foi cerca de 62% mais fraca entre usuários atuais de GLP-1 em comparação com ex-usuários.
6. O efeito sobre álcool foi confirmado?
O estudo encontrou uma redução na associação entre uso de álcool e violência entre usuários atuais, mas esse achado foi menos robusto nas análises de sensibilidade. Por isso, deve ser interpretado com cautela.
7. Como a psicoterapia ajuda na impulsividade?
A psicoterapia ajuda a identificar gatilhos, reconhecer emoções, criar pausa entre impulso e ação, desenvolver autocontrole, reduzir comportamentos automáticos e construir respostas mais conscientes.
8. O estudo prova que GLP-1 causa menos comportamento violento?
Não. O estudo é observacional e transversal. Ele mostra associação, mas não prova que o medicamento causou diretamente menor comportamento violento. São necessários estudos longitudinais e experimentais.



