Dois estudos utilizando uma tarefa hipotética de distribuição de dinheiro constataram que, em geral, as pessoas se interessam mais pela generosidade do que pela riqueza de um parceiro em potencial. No entanto, quando os parceiros potenciais diferiam mais em generosidade, a preferência por generosidade se fortalecia; por outro lado, quando variavam mais em riqueza, a preferência por generosidade diminuía. A pesquisa foi publicada na revista Evolution and Human Behavior.
Escolher o parceiro certo — seja para amizade, negócios ou relacionamento amoroso — desempenhou um papel fundamental na evolução da cooperação humana. Quando as pessoas podem decidir com quem interagir, tendem a preferir indivíduos prestativos e confiáveis, o que favorece comportamentos cooperativos. Nesse tipo de “mercado social”, as pessoas geralmente procuram demonstrar que são generosas ou dignas de confiança para atrair bons parceiros.
Um bom parceiro é alguém que oferece benefícios e gera poucos custos ou problemas. No cotidiano, isso costuma ser avaliado com base na bondade (calor humano), na competência ou sucesso (capacidade) e na disponibilidade para ajudar. Tanto a bondade quanto a habilidade são importantes, mas qual delas pesa mais depende do contexto e do ambiente.
É fundamental notar que as pessoas prestam mais atenção a características que variam significativamente entre os indivíduos, pois faz pouco sentido avaliar qualidades que todos possuem em igual medida. Pesquisas com simulações computacionais já mostraram que, quando a bondade varia muito em um grupo, as pessoas desenvolvem preferências mais fortes por bondade; o mesmo ocorre quando há grande variação na capacidade.
Os autores do estudo, Yuta Kawamura e Pat Barclay, quiseram investigar se as pessoas valorizam mais a generosidade quando os parceiros diferem bastante na disposição de compartilhar, e se valorizam mais a riqueza quando diferem na capacidade de oferecer recursos. Para isso, realizaram dois estudos online nos quais os participantes eram apresentados a um conjunto de parceiros hipotéticos em uma tarefa de divisão de dinheiro.
O primeiro estudo contou com 350 residentes dos Estados Unidos recrutados pela plataforma Amazon Mechanical Turk via CloudResearch. A idade média era de 40 anos, e 163 participantes eram mulheres.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos. Para estabelecer a “norma” do ambiente, ambos receberam informações sobre como 20 parceiros potenciais haviam dividido dinheiro em uma ocasião anterior.
No grupo “Generosidade Desigual”, todos os 20 parceiros tinham aproximadamente a mesma quantidade total de dinheiro (149–149–151), mas diferiam na porcentagem do valor compartilhado (variando de 3% a 56%). No grupo “Riqueza Desigual”, todos compartilhavam aproximadamente a mesma porcentagem (29%–31%), mas o valor total que possuíam variava (de 16 a 280 dólares). Importante destacar que os valores absolutos distribuídos eram idênticos em ambas as condições; apenas a variação em riqueza ou generosidade mudava.
Em seguida, os participantes precisavam escolher um novo parceiro para si. Antes de decidir, tinham que optar por qual única informação desejavam ver sobre o parceiro em potencial: sua riqueza (valor total disponível) ou sua generosidade (porcentagem compartilhada).
O segundo estudo incluiu 600 participantes norte-americanos, também recrutados via CloudResearch. O procedimento foi idêntico, com uma adição importante: um terceiro grupo “Controle”, no qual os participantes não recebiam informações prévias sobre como os parceiros haviam se comportado, ou seja, não sabiam se havia variação em riqueza ou generosidade.
Os resultados do primeiro estudo mostraram que, de modo geral, os participantes se interessavam mais pela generosidade do que pela riqueza. Contudo, o contexto influenciou fortemente essa preferência. No grupo em que os parceiros variavam em generosidade, 82% dos participantes buscaram informações sobre generosidade. Já no grupo em que a variação era de riqueza, esse interesse caiu para 55%, pois muitos passaram a priorizar informações sobre riqueza.
O segundo estudo confirmou esses achados e revelou uma espécie de “padrão padrão” humano. O percentual de pessoas interessadas em generosidade foi semelhante no grupo Generosidade Desigual (90%) e no grupo Controle (87%). Entretanto, quando sabiam que os parceiros diferiam amplamente em riqueza, apenas 61% optaram por ver informações sobre generosidade.
Segundo os autores, “os participantes apresentaram uma preferência padrão por conhecer a generosidade dos outros em vez de sua riqueza; essa preferência foi reforçada quando a generosidade variava mais e enfraquecida quando a riqueza variava mais”. O estudo demonstra que as pessoas são sensíveis ao grau de variação de uma característica na população e ajustam suas preferências de parceiro de forma flexível, concentrando-se nos traços que mais diferem entre os indivíduos.
A pesquisa contribui para o entendimento científico dos fatores psicológicos que influenciam a escolha de parceiros. Contudo, os autores destacam limitações: as decisões foram hipotéticas, sem distribuição real de dinheiro, e o estudo foi realizado em uma única cultura (Estados Unidos).
Além disso, é importante observar que “riqueza”, nesse experimento, foi definida como o valor monetário momentâneo em um jogo econômico (até 280 dólares), e não como riqueza acumulada real, status social ou patrimônio líquido. Estudos futuros poderão investigar como essas preferências flexíveis se manifestam quando as diferenças de riqueza envolvem escalas macroeconômicas do mundo real.
O artigo, intitulado “Wealth or generosity? People choose partners based on whichever is more variable”, foi escrito por Yuta Kawamura e Pat Barclay.



