Um estudo longitudinal com adolescentes da região metropolitana de Chicago constatou que, em adolescentes do sexo feminino — mas não do sexo masculino —, uma maior exposição à violência esteve associada a sintomas depressivos mais graves. Entre os meninos, a depressão esteve associada à expansão da rede de saliência do cérebro e ao aumento da conectividade dessa rede. O artigo foi publicado na revista Translational Psychiatry.
Neste estudo, a exposição à violência foi definida como vivenciar, testemunhar ou ser repetidamente confrontado com atos de violência física interpessoal, como ser empurrado, chutado, socado ou atacado com uma arma. Trata-se de um importante fator de risco para problemas de saúde mental, aumentando a probabilidade de diversos tipos de psicopatologia.
Adversidades na infância, como abuso físico e violência familiar, respondem por uma parcela substancial dos transtornos psiquiátricos que emergem na adolescência. Esse período é especialmente sensível porque sistemas cerebrais sociais e emocionais fundamentais ainda estão em desenvolvimento. A exposição à violência durante a adolescência está associada a estratégias desadaptativas de regulação emocional, como ruminação e supressão emocional, que contribuem para o aumento das taxas de depressão.
Embora os meninos sejam mais propensos a serem expostos ou a testemunharem violência, as meninas tendem a apresentar níveis mais elevados de depressão durante a adolescência. Algumas evidências sugerem que a exposição à violência coloca as meninas em maior risco de problemas internalizantes (dificuldades psicológicas voltadas para o interior), especialmente depressão e ansiedade.
Uma explicação possível é que as meninas possam ser mais reativas a estressores interpessoais e apresentar respostas fisiológicas e neurais mais intensas a ameaças após a exposição à violência. Outro mecanismo proposto é a percepção de falta de controle, já que estressores vivenciados como incontroláveis estão fortemente ligados a desfechos depressivos.
A exposição à violência também pode alterar sistemas cerebrais envolvidos na detecção e resposta a ameaças, como a rede de saliência, tornando os indivíduos mais vigilantes a perigos potenciais. A rede de saliência é uma grande rede neural funcional composta por múltiplas regiões interconectadas do cérebro que detecta e prioriza estímulos emocional e comportamentalmente relevantes, ajudando o cérebro a alternar a atenção entre pensamentos internos e demandas externas.
A autora do estudo, Ellyn R. Butler, e seus colegas buscaram investigar se características da rede de saliência — como conectividade e expansão (a proporção do córtex utilizada pela rede) — poderiam explicar a associação entre exposição à violência e depressão em adolescentes. Os autores levantaram a hipótese de que os meninos vivenciam mais episódios de violência do que as meninas e que os sintomas depressivos aumentariam em indivíduos expostos à violência. Esperava-se que esse aumento dos sintomas depressivos após a exposição fosse maior entre as meninas e que estivesse acompanhado pela expansão da rede de saliência.
Os participantes do estudo foram 220 adolescentes, com idades entre 14 e 18 anos, da região metropolitana de Chicago. Os autores priorizaram intencionalmente a inclusão de adolescentes de bairros de baixa renda. Desses participantes, 141 eram meninas; 38% eram negros e 30% eram hispânicos. Em média, haviam sido expostos a 1,8 eventos violentos no ano anterior.
Os participantes forneceram dados em dois momentos: no início do estudo e dois anos depois. Eles responderam a uma avaliação de exposição à violência (um conjunto de sete perguntas sobre eles próprios, amigos ou familiares terem sido feridos fisicamente, atacados ou mortos) e a avaliações de sintomas de depressão e ansiedade (a Revised Child Anxiety and Depression Scale).
Os participantes também realizaram exames de ressonância magnética funcional (fMRI). Os autores utilizaram esses dados para extrair informações sobre a conectividade e o tamanho da rede de saliência dos participantes em ambos os momentos, permitindo o controle dos níveis basais.
Os resultados mostraram que as participantes do sexo feminino que relataram maior exposição à violência tendiam a apresentar sintomas depressivos mais graves. Essa associação não foi observada entre os participantes do sexo masculino. A expansão ou a conectividade da rede de saliência não estiveram associadas à exposição à violência no último ano.
Entretanto, maior expansão da rede de saliência e maior conectividade dessa rede estiveram associadas a sintomas depressivos mais graves entre os participantes do sexo masculino. Os autores observam que ambas as associações permaneceram mesmo após o controle da depressão no início do estudo, indicando que exposições que impactam a depressão dos meninos por meio da rede de saliência podem ocorrer durante a adolescência média.
“Demonstramos que a expansão e a conectividade da rede de saliência estão positivamente associadas à depressão entre os meninos, mesmo após o controle da depressão dois anos antes, o que destaca que é provável que os meninos estejam vivenciando algum tipo de adversidade que aumenta a conectividade da rede de saliência, a expansão dessa rede e a depressão durante esse período do início à metade da adolescência. Portanto, esforços futuros para determinar quais exposições levam à depressão em adolescentes do sexo masculino devem se concentrar nesse intervalo do desenvolvimento”, concluíram os autores.
O estudo contribui para a compreensão científica dos fundamentos neurais da depressão. No entanto, tanto os sintomas depressivos quanto a exposição à violência foram autorrelatados, o que deixa margem para que vieses de relato tenham influenciado os resultados.
O artigo, intitulado “Sex differences in response to violence: role of salience network expansion and connectivity on depression”, foi assinado por Ellyn R. Butler, Noelle I. Samia, Amanda F. Mejia, Damon D. Pham, Adam Pines e Robin Nusslock.



