Novas pesquisas sugerem que adolescentes que praticam a gentileza consigo mesmos têm maior probabilidade de vivenciar uma vida repleta de variedade e de eventos que transformam a perspectiva. Os achados indicam que hábitos mentais positivos específicos podem prever se um adolescente desenvolverá, ao longo do tempo, um senso de riqueza psicológica. Esses resultados foram publicados na revista Applied Psychology: Health and Well-Being.
Para compreender este estudo, é preciso primeiro entender que felicidade não é um conceito único. A psicologia tradicional costuma dividir uma boa vida em duas categorias. A primeira é o bem-estar hedônico, que se concentra em sentir prazer e estar satisfeito. A segunda é o bem-estar eudaimônico, que enfatiza ter um senso de propósito e significado.
No entanto, pesquisadores identificaram recentemente um terceiro tipo de boa vida, conhecido como riqueza psicológica. Uma vida psicologicamente rica é caracterizada por experiências mentais complexas e por uma variedade de eventos novos. Nem sempre é confortável ou feliz no sentido tradicional. Em vez disso, é definida por vivências que mudam a perspectiva da pessoa e aprofundam sua compreensão do mundo.
A adolescência é um período específico em que os jovens exploram suas identidades e enfrentam novos desafios acadêmicos e sociais. Essa fase do desenvolvimento é especialmente propícia para o cultivo da riqueza psicológica, pois os adolescentes estão constantemente entrando em contato com novas informações. Os autores do estudo quiseram saber quais ferramentas internas ajudam os adolescentes a transformar esses desafios em uma vida rica, em vez de uma vida estressante.
A pesquisa foi liderada por Yuening Liu e colegas da Universidade Normal de Shaanxi, na China. Eles concentraram sua atenção no conceito de autocompaixão, frequentemente descrito como tratar a si mesmo com a mesma acolhida e compreensão que se ofereceria a um amigo próximo.
A autocompaixão não é um traço único, mas um sistema composto por seis partes distintas. Três delas são positivas, ou compassivas: autogentileza, mindfulness (atenção plena) e senso de humanidade comum.
A autogentileza envolve ser solidário consigo mesmo diante de fracassos. O mindfulness é a capacidade de observar a própria dor sem ignorá-la nem exagerá-la. A humanidade comum é o reconhecimento de que o sofrimento é uma parte compartilhada da experiência humana.
As outras três partes são negativas, ou não compassivas: autocrítica, isolamento e superidentificação. A autocrítica refere-se a ser excessivamente duro com as próprias falhas. O isolamento é a sensação de ser a única pessoa que sofre. A superidentificação ocorre quando a pessoa se deixa levar completamente por emoções negativas.
Pesquisas anteriores já haviam associado a autocompaixão à felicidade geral, mas a ligação com a riqueza psicológica ainda não estava clara. Os pesquisadores levantaram a hipótese de que os componentes positivos da autocompaixão funcionariam como um motor para a riqueza psicológica. Também previram que os componentes negativos freariam esse crescimento.
Para testar isso, a equipe recrutou 528 estudantes do ensino médio no oeste da China, com idades entre 14 e 18 anos. O estudo foi longitudinal, ou seja, os dados foram coletados em mais de um momento.
Os estudantes responderam a questionários detalhados no início do estudo, relatando como se tratavam em momentos difíceis e avaliando o quanto percebiam suas vidas como psicologicamente ricas.
Quatro meses depois, os alunos responderam aos mesmos questionários novamente. Esse intervalo permitiu aos pesquisadores observar como sentimentos e comportamentos mudaram ao longo do semestre, indo além de um simples retrato momentâneo.
A equipe utilizou uma técnica estatística chamada análise de rede em painel cruzado com defasagem temporal. Esse método permite mapear traços psicológicos como se fossem um sistema climático, mostrando quais características são os preditores mais fortes de mudanças futuras em outras características.
Os resultados revelaram uma distinção clara entre os aspectos positivos e negativos da autocompaixão. A análise mostrou que a autogentileza foi um forte preditor de riqueza psicológica quatro meses depois. Estudantes que eram gentis consigo mesmos relataram vidas mais interessantes e transformadoras no segundo momento de avaliação.
O mindfulness também emergiu como um preditor positivo significativo. Adolescentes capazes de observar suas emoções difíceis com equilíbrio tinham maior probabilidade de experimentar crescimento em riqueza psicológica. Esses dois traços atuaram como núcleos centrais na rede analisada.
O estudo sugere que esses traços positivos ajudam os adolescentes a processar suas experiências de forma mais eficaz. Quando um estudante enfrenta um revés, a autogentileza pode impedir que ele se feche. Essa abertura permite aprender com o evento, acrescentando complexidade e profundidade à sua visão de mundo.
Por outro lado, os pesquisadores encontraram que a autocrítica previu negativamente a riqueza psicológica. Estudantes que se criticavam de forma severa tendiam a perceber suas vidas como menos ricas ao longo do tempo, o que sugere que a autocrítica rígida pode levar à evitação de novos desafios.
O isolamento também apresentou uma conexão negativa com a riqueza psicológica futura. Isso faz sentido do ponto de vista teórico, pois a riqueza psicológica frequentemente surge da interação com perspectivas diversas. Se um estudante se sente isolado, fica privado das trocas sociais que ampliam sua visão de mundo.
A análise de rede também revelou como as diferentes partes da autocompaixão interagem entre si. Os pesquisadores observaram que o isolamento no primeiro momento previu maior autocrítica posteriormente, indicando um ciclo negativo em que sentir-se sozinho leva a ser mais duro consigo mesmo.
Em contrapartida, houve um ciclo positivo entre os componentes compassivos. A autogentileza previu níveis mais elevados de mindfulness no futuro e, por sua vez, o mindfulness previu níveis mais altos de autogentileza.
Esses achados dão suporte a uma teoria conhecida como “modelo do motor do bem-estar”, que propõe que certos traços de personalidade atuam como insumos que impulsionam resultados mentais positivos. Nesse caso, a autogentileza e o mindfulness funcionam como o combustível que alimenta uma vida psicologicamente rica.
Os resultados também se alinham à “teoria bottom-up” do bem-estar, segundo a qual o bem-estar geral resulta do equilíbrio entre experiências diárias positivas e negativas. A autocompaixão parece ajudar os adolescentes a equilibrar essas experiências, evitando que eventos negativos os dominem.
Ao regular suas emoções por meio da autogentileza, os adolescentes conseguem permanecer abertos ao mundo. Eles podem aceitar a incerteza e a mudança, ingredientes essenciais para uma vida rica. Sem essas ferramentas, podem se tornar rígidos ou temerosos.
O estudo destaca alvos potenciais para intervenções voltadas à saúde mental de adolescentes. Programas que ensinem especificamente a autogentileza podem ser muito eficazes. Ensinar os estudantes a observar o sofrimento com atenção plena também pode trazer benefícios a longo prazo.
Há algumas limitações que devem ser consideradas. O estudo baseou-se exclusivamente em autorrelatos dos estudantes, e as pessoas nem sempre percebem seus próprios comportamentos com precisão. Além disso, a pesquisa foi conduzida apenas com adolescentes chineses; diferenças culturais podem influenciar a vivência da autocompaixão e do bem-estar, de modo que os resultados podem não se replicar exatamente em outros contextos culturais.
O intervalo de quatro meses também é relativamente curto. A adolescência se estende por vários anos, e mudanças no desenvolvimento podem ser lentas. Pesquisas futuras se beneficiariam de acompanhar os estudantes por períodos mais longos.
Os pesquisadores também ressaltaram que, embora tenham encontrado relações preditivas, isso não prova causalidade de forma estrita. Outros fatores não medidos podem influenciar tanto a autocompaixão quanto a riqueza psicológica. Estudos experimentais seriam necessários para confirmar uma relação direta de causa e efeito.
Apesar dessas ressalvas, o estudo oferece uma visão detalhada dos mecanismos do bem-estar na adolescência. Ele vai além da ideia de que a autocompaixão é um conceito geral e mostra que hábitos específicos, como ser gentil consigo mesmo, levam a resultados específicos.
A distinção entre simplesmente ser feliz e ter uma vida rica é importante para educadores e pais. Um adolescente pode não estar sempre alegre, mas ainda assim estar desenvolvendo uma compreensão profunda e complexa da vida. Esta pesquisa sugere que a autocompaixão é um recurso fundamental nesse percurso de desenvolvimento.
O estudo, intitulado “Longitudinal relationship between self-compassion and psychological richness in adolescents: Evidence from a network analysis”, foi assinado por Yuening Liu, Kaixin Zhong, Ao Ren, Yifan Liu e Feng Kong.



