Uma nova pesquisa publicada na revista Physiology & Behavior apresenta evidências de que a atividade sexual pouco antes de exercícios de alta intensidade não prejudica o desempenho atlético. O estudo sugere que o orgasmo induzido por masturbação 30 minutos antes do esforço pode, inclusive, aumentar a duração do exercício e melhorar o tempo de reação. Esses achados desafiam crenças antigas sobre a necessidade de abstinência sexual antes de competições esportivas.
A motivação para o estudo surgiu de um debate persistente no mundo esportivo. Técnicos e atletas frequentemente defendem a ideia de que a atividade sexual drena energia e reduz agressividade, levando à recomendação comum de abstinência nos dias que antecedem grandes competições. Diego Fernández-Lázaro, da Universidade de Valladolid, liderou uma equipe de pesquisadores para investigar se essas restrições possuem fundamento científico.
A literatura científica anterior sobre o tema apresenta resultados inconsistentes ou escopo limitado. Muitos estudos analisaram a atividade sexual ocorrida na noite anterior à competição, deixando uma lacuna quanto aos efeitos imediatos. Fernández-Lázaro e seus colegas buscaram examinar os desfechos fisiológicos e de desempenho quando a atividade sexual ocorre menos de uma hora antes de um esforço máximo.
Para isso, os pesquisadores recrutaram 21 atletas homens saudáveis e bem treinados, incluindo jogadores de basquete, corredores de longa distância e boxeadores. A idade média era de 22 anos. O estudo utilizou um delineamento cruzado randomizado, no qual todos os participantes passaram tanto pela condição experimental quanto pela condição controle.
Na condição controle, os participantes permaneceram abstinentes de qualquer atividade sexual por pelo menos sete dias. No dia do teste, assistiram a um documentário neutro por 15 minutos antes de iniciar as avaliações físicas. Na condição experimental, os participantes realizaram masturbação até o orgasmo em ambiente privado, 30 minutos antes dos testes. Para padronizar o procedimento, assistiram a um filme erótico previamente selecionado. Em seguida, também assistiram ao documentário neutro para igualar o período de repouso.
Foram aplicados dois testes físicos principais. O primeiro foi um teste de força de preensão manual com dinamômetro. O segundo foi um teste incremental em bicicleta ergométrica, no qual a resistência aumentava progressivamente a cada minuto até a exaustão. Esse tipo de teste avalia a capacidade aeróbica e o tempo até o esgotamento.
Além do desempenho físico, foram coletadas amostras de sangue para análise de biomarcadores. Os pesquisadores avaliaram hormônios como testosterona, cortisol e hormônio luteinizante. Também mediram marcadores de dano muscular, como creatina quinase e lactato desidrogenase, além de marcadores inflamatórios, como proteína C-reativa, para verificar se a atividade sexual gerava estresse fisiológico adicional.
Os resultados indicaram que a atividade sexual não prejudicou as capacidades físicas. Houve um pequeno, porém estatisticamente significativo, aumento na duração total do teste de ciclismo após a atividade sexual em comparação à abstinência, representando um ganho de 3,2% no tempo de desempenho.
Também foram observadas mudanças na força de preensão manual, com valores médios ligeiramente maiores após a atividade sexual. Isso sugere que o sistema neuromuscular permaneceu plenamente funcional e possivelmente até levemente estimulado.
O monitoramento fisiológico revelou frequências cardíacas mais elevadas durante o exercício quando precedido por atividade sexual. Esse aumento está relacionado à ativação do sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de “luta ou fuga”, que prepara o organismo para o esforço físico.
A análise hormonal mostrou concentrações mais altas de testosterona e cortisol após a atividade sexual. A testosterona é um hormônio anabólico associado à força e à agressividade, enquanto o cortisol mobiliza reservas energéticas. O aumento simultâneo desses hormônios indica um estado de ativação fisiológica, não de fadiga.
Quanto aos marcadores de dano muscular, os níveis de lactato desidrogenase foram menores na condição com atividade sexual. Como essa enzima aumenta quando há dano muscular, a redução sugere que a atividade sexual prévia não agravou o estresse muscular e pode ter tido efeito neutro ou até protetor. Outros marcadores, como creatina quinase e mioglobina, não apresentaram diferenças significativas, assim como os marcadores inflamatórios.
Esses achados divergem de algumas perspectivas históricas e de estudos anteriores, como o de Kirecci e colaboradores, que sugeriu redução de força nas pernas após relação sexual nas 24 horas anteriores ao exercício. A diferença pode estar no tipo de atividade sexual analisada, já que o estudo atual avaliou masturbação, não relação sexual com parceiro.
Os resultados se alinham mais com revisões anteriores, como as de Zavorsky, que concluíram que atividade sexual na noite anterior à competição tem pouco ou nenhum impacto no desempenho. Este estudo avança ao reduzir o intervalo para apenas 30 minutos, demonstrando que nem mesmo a atividade sexual imediatamente antes do exercício parece prejudicial.
Os pesquisadores propõem que o efeito observado pode estar relacionado a um mecanismo de “preparação” fisiológica. A excitação sexual ativa o sistema nervoso simpático e desencadeia liberação de catecolaminas, aumentando frequência cardíaca e estado de alerta — um efeito semelhante ao aquecimento prévio ao exercício.
Do ponto de vista psicológico, não houve diferença na percepção subjetiva de esforço entre as condições. Mesmo com frequência cardíaca maior, os participantes não relataram que o exercício parecia mais difícil após a atividade sexual, sugerindo que motivação e fadiga psicológica não foram afetadas negativamente.
O estudo possui limitações. A amostra foi composta apenas por homens jovens e bem treinados, o que limita a generalização para mulheres, pessoas mais velhas ou indivíduos com menor nível de condicionamento físico. Além disso, a atividade sexual foi restrita à masturbação para controle experimental. Relação sexual com parceiro envolve demandas físicas e componentes emocionais diferentes, incluindo liberação de ocitocina, que pode influenciar relaxamento ou sedação de forma distinta.
O número de participantes foi relativamente pequeno, embora adequado para o delineamento cruzado. Estudos maiores são necessários para confirmar os achados e explorar nuances adicionais. Também seria relevante investigar diferentes intervalos de tempo entre atividade sexual e exercício, bem como comparar masturbação e relação sexual.
Os resultados sugerem que o “mito da abstinência” pode não ter base fisiológica sólida para muitos atletas. A atividade sexual 30 minutos antes do exercício não induziu fadiga nem aumentou dano muscular. Pelo contrário, pareceu desencadear uma resposta neuroendócrina que favorece o desempenho físico. Técnicos e atletas podem precisar reconsiderar políticas rígidas de abstinência à luz dessas evidências.
O estudo, intitulado “Sexual activity before exercise influences physiological response and sports performance in high-level trained men athletes”, foi conduzido por Diego Fernández-Lázaro, Manuel Garrosa, Gema Santamaría, Enrique Roche, José María Izquierdo, Jesús Seco-Calvo e Juan Mielgo-Ayuso.



