Crianças diagnosticadas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, conhecido como TDAH, e tratadas com um medicamento estimulante comum podem ter uma probabilidade ligeiramente maior de apresentar peso corporal mais elevado e uma estatura levemente menor ao atingirem a vida adulta. Essas mudanças físicas são pequenas em magnitude, mas os resultados sugerem que médicos devem monitorar regularmente o crescimento físico de crianças que recebem esse tratamento. A pesquisa foi publicada na revista JAMA Network Open.
O TDAH é uma condição que afeta comportamento, foco e controle de impulsos. Para muitas crianças, os médicos prescrevem metilfenidato para ajudar a controlar esses sintomas. O metilfenidato é um estimulante que atua alterando o equilíbrio de determinados neurotransmissores no cérebro.
O medicamento é amplamente reconhecido como eficaz e seguro para auxiliar jovens no desempenho de atividades diárias. Ainda assim, profissionais de saúde levantaram questionamentos sobre possíveis efeitos no desenvolvimento físico ao longo do tempo. Relatos anteriores sugeriram uma possível associação entre estimulantes e alterações nas taxas de crescimento infantil.
Os pesquisadores buscaram entender se essas mudanças físicas desaparecem com o tempo ou persistem até a vida adulta. Crianças com TDAH frequentemente enfrentam desafios que podem afetar a saúde física de forma independente, como hábitos alimentares irregulares, baixa atividade física e sono inadequado.
O sono é especialmente importante na infância, pois a maior parte do hormônio do crescimento é liberada durante o sono profundo. Privação de sono pode reduzir o ritmo de crescimento. A introdução de um estimulante como o metilfenidato adiciona mais variáveis ao desenvolvimento físico.
O medicamento é conhecido por suprimir temporariamente o apetite durante o dia, podendo levar a omissão de refeições e posterior excesso alimentar à noite, quando o efeito passa. Esse ciclo pode contribuir para ganho de peso ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, a ingestão calórica insuficiente durante o dia pode limitar a energia necessária para o crescimento em altura.
O estresse fisiológico associado ao TDAH também pode afetar os ritmos circadianos e o metabolismo ao longo do tempo. Pequenas alterações repetidas no equilíbrio hormonal e metabólico podem influenciar o ganho de peso. Além disso, o metilfenidato aumenta os níveis de dopamina, neurotransmissor que também interage com sistemas relacionados ao hormônio do crescimento.
Para investigar essas possibilidades, pesquisadores da Coreia do Sul analisaram registros médicos de longo prazo do sistema nacional de saúde. O estudo foi liderado por Jihun Song, da Korea University College of Medicine.
A equipe analisou dois grupos diagnosticados entre 2008 e 2013: 12.866 crianças pré-púberes (6 a 11 anos) e 21.984 adolescentes (12 a 19 anos). Cada participante foi pareado com um indivíduo da mesma idade, sexo e nível de renda sem TDAH.
Os pesquisadores verificaram quais pacientes receberam metilfenidato e calcularam o número de dias de uso ao longo de quatro anos após o diagnóstico. Entre 2018 e 2022, quando os participantes tinham entre 20 e 25 anos, foram analisados dados de exames de saúde nacionais, incluindo altura final e índice de massa corporal (IMC).
Os resultados mostraram que indivíduos diagnosticados com TDAH apresentaram IMC médio mais alto na vida adulta em comparação ao grupo controle. O aumento foi mais acentuado entre aqueles que utilizaram metilfenidato.
No grupo controle, 35% foram classificados como com sobrepeso ou obesidade. Entre diagnosticados sem uso do medicamento, a taxa foi de pouco mais de 43%. Já entre aqueles tratados com o estimulante, chegou a 46,5%. Além disso, maior duração e dose acumulada do medicamento estiveram associadas a IMC mais elevado na idade adulta.
Quanto à altura, o diagnóstico isolado de TDAH não mostrou diferença significativa na estatura final. No entanto, o uso de metilfenidato esteve associado a uma redução mensurável na altura adulta, relacionada à duração do tratamento. Ainda assim, essa diferença foi muito pequena do ponto de vista clínico.
Por exemplo, mulheres que utilizaram o medicamento por mais de um ano durante a infância foram, em média, apenas 0,6 centímetros mais baixas do que as do grupo controle — uma diferença inferior ao que normalmente é considerado clinicamente relevante.
Nos adolescentes diagnosticados entre 12 e 19 anos, os efeitos foram ainda menores, possivelmente porque já haviam completado grande parte do crescimento físico. As mudanças foram mais evidentes nas crianças que iniciaram o tratamento antes da puberdade.
O estudo possui limitações importantes. Por ser observacional, não permite afirmar causalidade direta. Além disso, não havia dados sobre altura dos pais, dieta, exercício ou padrões detalhados de sono, fatores que influenciam significativamente o crescimento.
Os autores enfatizam que os benefícios comportamentais e acadêmicos do tratamento são bem estabelecidos e geralmente superam diferenças mínimas de estatura. A recomendação não é interromper o tratamento, mas monitorar cuidadosamente o crescimento físico.
Pediatras podem intervir com orientações sobre nutrição equilibrada, atividade física regular e hábitos saudáveis de sono caso haja sinais de desaceleração do crescimento ou ganho excessivo de peso. Em casos de risco elevado, pode-se considerar ajuste da dose.
Pesquisas futuras deverão investigar como hábitos de vida interagem com o tratamento ao longo do tempo. Até lá, acompanhamento pediátrico regular e conscientização permanecem as melhores estratégias para garantir desenvolvimento saudável.
O estudo, intitulado “ADHD and Methylphenidate Use in Prepubertal Children and BMI and Height at Adulthood”, foi conduzido por Jihun Song e colaboradores.



