Um estudo com mais de 5.000 pares de pais e adolescentes na Finlândia constatou que um melhor bem-estar mental dos pais está associado a níveis mais altos de atividade física e menor uso de mídia digital em seus filhos de 11 anos. Essas associações também foram observadas aos 14 anos de idade. O artigo foi publicado na revista Mental Health and Physical Activity.
O sobrepeso e a obesidade entre crianças e adolescentes vêm aumentando significativamente nas últimas décadas, tornando-se um grande problema de saúde global. Além disso, o excesso de peso na infância tende a persistir na vida adulta, aumentando o risco de doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos. Baixos níveis de atividade física e longos períodos em comportamento sedentário — especialmente com uso de mídias digitais — são considerados fatores importantes nessa epidemia.
Estimativas indicam que cerca de 80% dos adolescentes entre 11 e 17 anos não atingem os níveis recomendados de atividade física. O uso de mídias digitais também cresceu consideravelmente, e esses hábitos tendem a se manter ao longo da vida.
Um dos fatores que pode influenciar esses comportamentos é a saúde mental dos pais. Pais com sintomas depressivos, por exemplo, podem ter mais dificuldade em estabelecer rotinas saudáveis para si mesmos e para os filhos. Pesquisas anteriores sugerem que estresse ou depressão materna podem estar associados a menor atividade física, mais sedentarismo, alimentação inadequada e maior risco de obesidade nos filhos, embora os resultados ainda sejam inconsistentes.
O autor do estudo, Lauri Hietajärvi, e seus colegas buscaram investigar como o bem-estar mental dos pais influencia comportamentos e desfechos de saúde em adolescentes. O objetivo foi identificar perfis de saúde mental em pais de crianças de 11 anos e verificar se esses perfis se relacionavam com atividade física, uso de mídia digital e índice de massa corporal (IMC) dos filhos.
Os pesquisadores analisaram dados do estudo finlandês Health in Teens, que inclui 10.785 adolescentes de 9 a 12 anos e 6.046 pais. A análise específica envolveu 5.839 pares de pais e filhos. A idade média dos pais era de 42 anos no início do estudo, sendo 89% mães. Entre os adolescentes, 51% eram meninas.
Foram utilizados dados sobre o bem-estar mental dos pais — avaliados por meio do Inventário de Depressão de Beck (versão curta), da Escala de Senso de Coerência e do RAND-36 (qualidade de vida relacionada à saúde mental) — além de dados dos adolescentes sobre IMC, atividade física no tempo livre e uso sedentário de mídia digital.
Os resultados mostraram que os adolescentes praticavam, em média, entre 6,5 e 7,3 horas de atividade física por semana. O uso de mídia digital foi de aproximadamente 1,6 a 1,8 horas por dia durante a semana e de 2,4 a 2,9 horas nos fins de semana. Entre 14% e 15% dos adolescentes apresentavam sobrepeso.
As análises indicaram que melhores níveis de bem-estar mental dos pais estavam associados a maior atividade física e menor uso de mídia digital nos filhos aos 11 anos — e essas associações permaneceram aos 14 anos.
Observando aspectos específicos, verificou-se que maiores níveis de sintomas depressivos nos pais estavam relacionados a menor atividade física nos filhos. Já um maior senso de coerência parental — isto é, a capacidade de perceber a vida como compreensível, manejável e significativa — esteve associado a menor uso de mídia digital pelos adolescentes.
Por outro lado, o bem-estar mental dos pais não apresentou associação com o IMC dos filhos.
“Um melhor bem-estar mental dos pais esteve associado a maior atividade física no tempo livre e menor uso sedentário de mídia digital entre adolescentes, tanto no início quanto no meio da adolescência, sugerindo que o bem-estar parental pode influenciar comportamentos de saúde dos jovens”, concluíram os autores.
O estudo contribui para a compreensão de como o estado psicológico dos pais pode impactar hábitos comportamentais dos filhos. No entanto, os autores ressaltam que o desenho do estudo não permite estabelecer relações de causa e efeito. Além disso, por ter sido realizado na Finlândia, os resultados podem variar em outros contextos culturais.
O estudo, intitulado “Cross-sectional and longitudinal associations between parental mental wellbeing and adolescents’ physical activity, sedentary digital media use, and body mass index”, foi conduzido por Lauri Hietajärvi e colaboradores.



