Um estudo longitudinal realizado em Christchurch, na Nova Zelândia, constatou que indivíduos que apresentaram os sintomas mais severos de TDAH na adolescência tinham maior risco de desenvolver transtornos por uso de substâncias, depressão e ideação suicida no início da vida adulta. Eles também eram mais propensos a se envolver em atividades criminosas e a permanecer desempregados. Além disso, tendiam a ter menor renda, piores condições de vida e relacionamentos menos estáveis. O artigo foi publicado no British Journal of Psychiatry.
O transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e/ou impulsividade que interferem no funcionamento diário ou no desenvolvimento. Geralmente começa na infância, embora muitos indivíduos continuem apresentando sintomas na adolescência e na vida adulta. Na maioria dos casos, o diagnóstico ocorre quando a criança inicia a vida escolar, momento em que os comportamentos associados ao TDAH entram em conflito com regras e exigências acadêmicas.
O TDAH é diagnosticado com maior frequência em meninos, embora meninas frequentemente sejam subdiagnosticadas devido a sintomas menos evidentes. Fatores genéticos desempenham papel importante na condição. O TDAH costuma ocorrer junto com outros transtornos, como dificuldades de aprendizagem, ansiedade, depressão ou comportamento opositor. Seus sintomas podem impactar significativamente o desempenho acadêmico, a produtividade no trabalho e os relacionamentos sociais.
O autor principal do estudo, James A. Foulds, e seus colegas utilizaram dados de um acompanhamento longitudinal de 40 anos de uma coorte de nascimentos em Christchurch para estimar a associação entre sintomas de TDAH na adolescência e uma ampla gama de desfechos de saúde mental e psicossociais na vida adulta, até os 40 anos de idade.
Os dados analisados vieram do Christchurch Health and Development Study. Esse estudo incluiu 1.265 indivíduos nascidos em Christchurch em 1977, que foram avaliados anualmente do nascimento até os 16 anos de idade. Posteriormente, novas coletas ocorreram aos 18, 21, 25, 30, 35 e 40 anos. Nas três últimas ondas de coleta, entre 75% e 80% dos participantes sobreviventes forneceram dados.
A análise utilizou avaliações de sintomas de TDAH, transtorno de conduta e transtorno opositor desafiador realizadas entre os 14 e 16 anos. Dos dados coletados entre os 16 e 40 anos, os pesquisadores utilizaram informações sobre transtornos por uso de substâncias (álcool e cannabis), uso de drogas ilícitas e problemas de saúde mental internalizantes.
Problemas de saúde mental internalizantes são dificuldades psicológicas caracterizadas por sofrimento direcionado para dentro, como ansiedade, depressão e retraimento. Dos dados coletados entre os 25 e 40 anos, os autores utilizaram informações sobre desemprego (por pelo menos três meses), rompimentos de relacionamento, renda e posse de imóvel próprio.
Os resultados mostraram que os 25% dos participantes com os sintomas mais severos de TDAH na adolescência apresentaram maior probabilidade de fumar tabaco (34% contra 15%), preencher critérios para transtorno por uso de álcool (26% contra 14%) e transtorno por uso de cannabis (18% contra 7%), em comparação com aqueles com sintomas menos severos ou ausência de TDAH.
Esses indivíduos também atenderam com maior frequência aos critérios para depressão maior (29% contra 19%), transtornos de ansiedade e ideação suicida. Foram mais propensos a terem sido presos (9% contra 3%), a se envolverem tanto em crimes violentos quanto patrimoniais e a estarem desempregados. Aqueles que apresentaram os sintomas mais severos na adolescência possuíam menos frequentemente casa própria e tendiam a ter menor renda pessoal. Também relataram mais rompimentos de relacionamento.
“Maiores níveis de sintomas de TDAH na adolescência estão associados a problemas com uso de substâncias e envolvimento criminal na vida adulta. São necessárias estratégias de prevenção secundária de longo prazo para detectar e manejar problemas coexistentes entre adultos com histórico de TDAH”, concluíram os autores.
O estudo contribui para a compreensão das relações entre sintomas de TDAH na adolescência e desfechos importantes ao longo da vida adulta. No entanto, é importante destacar que a pesquisa foi realizada com indivíduos nascidos em uma única cidade (Christchurch) e no mesmo ano (1977). Assim, as associações observadas podem ter sido influenciadas por especificidades culturais e sociais daquele contexto e período histórico. Resultados em outras culturas ou épocas podem diferir.
Os autores também observaram que apenas cinco participantes receberam prescrição de medicamentos estimulantes para TDAH. Esse cenário difere da realidade atual, em que o tratamento medicamentoso é muito mais comum. Por fim, não é possível determinar com precisão quanto dos desfechos observados se deve exclusivamente aos sintomas de TDAH e quanto pode estar relacionado a condições coexistentes, como transtorno do espectro autista, que era pouco diagnosticado adequadamente na década de 1970.
O estudo, intitulado “Long-term outcomes associated with adolescent ADHD symptomatology: birth cohort study”, foi conduzido por James A. Foulds, Joseph M. Boden, Jessica A. Kerr, Katie M. Douglas, Michaela Pettie, Jesse T. Young, Mairin R. Taylor, Katherine Donovan e Richard Porter.



