Novas pesquisas sugerem que o caminho para a dependência de álcool pode variar dependendo de quando o transtorno começa. Um estudo publicado na revista Drug and Alcohol Dependence identifica papéis distintos para variações genéticas e experiências da infância no desenvolvimento do Transtorno por Uso de Álcool (AUD). Os resultados indicam que traumas graves na infância aceleram o início da doença, enquanto fatores genéticos específicos estão mais associados ao alcoolismo que surge mais tarde na vida adulta. Essa separação de causas oferece uma visão mais detalhada de uma condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo.
O Transtorno por Uso de Álcool é uma condição médica crônica caracterizada pela incapacidade de parar ou controlar o consumo de álcool apesar das consequências negativas. Os pesquisadores entendem que o risco de desenvolver essa condição resulta da combinação de fatores biológicos e ambientais. A predisposição genética responde por cerca de metade do risco. O restante vem das experiências de vida, especialmente as que ocorrem durante os anos formativos. No entanto, a forma exata como esses fatores interagem ainda é tema de debate.
Um gene específico de interesse produz uma proteína chamada Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, ou BDNF. Essa proteína funciona como um “fertilizante” para o cérebro: apoia a sobrevivência dos neurônios existentes e estimula a formação de novas conexões e sinapses. Esse processo é essencial para a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se reorganizar formando novas conexões neurais.
Variações no gene BDNF podem alterar a forma como o cérebro se adapta ao estresse e a substâncias externas. Como o consumo de álcool modifica a estrutura cerebral, o gene que regula a plasticidade do cérebro é um forte candidato na busca pelas causas biológicas da dependência.
Yi-Wei Yeh e San-Yuan Huang, pesquisadores do Tri-Service General Hospital e da National Defense Medical University em Taiwan, lideraram a investigação. O objetivo foi entender como variantes do gene BDNF, traumas na infância e disfunção familiar contribuem para o alcoolismo. Eles queriam descobrir se esses fatores atuam isoladamente ou se se amplificam mutuamente — por exemplo, se uma variante genética tornaria alguém mais vulnerável aos efeitos de uma infância difícil.
A equipe recrutou 1.085 participantes da população Han chinesa em Taiwan. Após excluir dados incompletos ou problemas com DNA, a análise final comparou 518 pacientes com diagnóstico de Transtorno por Uso de Álcool com 548 indivíduos saudáveis.
Os pacientes foram classificados de acordo com o momento em que o consumo se tornou um transtorno: início precoce (até os 25 anos) e início tardio (após os 25). Essa distinção permitiu investigar se diferentes fatores impulsionavam a dependência em fases distintas da vida.
Para analisar os fatores biológicos, os pesquisadores coletaram amostras de sangue e examinaram quatro regiões do gene BDNF chamadas polimorfismos de nucleotídeo único — pequenas variações no código genético que podem alterar o funcionamento do gene. Eles procuraram padrões mais frequentes entre pessoas com alcoolismo.
Os participantes também responderam avaliações psicológicas detalhadas. O Childhood Trauma Questionnaire investigou abuso físico, emocional e sexual, além de negligência. Um segundo questionário avaliou Experiências Adversas na Infância (ACEs), incluindo divórcio dos pais ou encarceramento de familiares. Um terceiro instrumento, o Family APGAR, avaliou o funcionamento familiar em termos de apoio emocional, comunicação e adaptação.
A análise genética revelou um padrão específico de variações no DNA — chamado haplótipo — mais frequente entre pacientes com alcoolismo. Esse padrão estava associado especificamente ao alcoolismo de início tardio, após os 25 anos. Esse resultado foi inesperado, já que pesquisas anteriores frequentemente associavam fatores genéticos ao início precoce. Os autores sugerem que a influência genética na plasticidade cerebral pode se tornar mais relevante com o envelhecimento do cérebro.
Já os resultados sobre experiências infantis mostraram outro cenário. Pacientes com o transtorno relataram taxas muito mais altas de trauma infantil do que o grupo saudável, incluindo abuso físico, emocional e negligência. Houve uma relação clara entre trauma e idade de início: quanto mais severo o trauma, mais cedo surgia a dependência de álcool. Isso apoia a hipótese de que algumas pessoas usam o álcool como forma de automedicação para a dor emocional.
O impacto das ACEs foi particularmente marcante. Pessoas com uma ou mais experiências adversas tinham cerca de 3,5 vezes mais chance de desenvolver o transtorno. Com duas ou mais experiências, a probabilidade aumentava drasticamente: 48 vezes maior. Isso sugere um ponto crítico em que o acúmulo de estresse supera a capacidade de enfrentamento.
Diferenças de gênero também apareceram. Homens relataram mais abuso físico na infância, enquanto mulheres relataram mais abuso sexual. Entre mulheres, o histórico de abuso sexual esteve associado ao desenvolvimento do alcoolismo de 7 a 10 anos mais cedo. Isso destaca a necessidade de abordagens terapêuticas sensíveis ao gênero.
O ambiente familiar também teve papel importante. Pacientes com o transtorno relataram menor funcionamento familiar independentemente da idade de início do alcoolismo. A falta de suporte familiar parece ser um fator de risco geral, funcionando como ausência de um “amortecedor” contra o estresse.
A hipótese de que o trauma modificaria o efeito do gene BDNF não foi confirmada. Os riscos genéticos e ambientais atuaram de forma independente, seguindo caminhos biológicos paralelos.
O estudo tem limitações: todos os participantes eram Han chineses, o que pode limitar a generalização para outras populações. Além disso, baseou-se em lembranças da infância, sujeitas a falhas de memória. Havia também alta taxa de uso de nicotina entre os pacientes (cerca de 85%), o que pode influenciar a biologia cerebral.
Apesar disso, os resultados têm implicações clínicas importantes. Alcoolismo de início precoce parece estar mais ligado ao trauma, sugerindo prioridade para terapias focadas em trauma. Já o início tardio pode estar mais relacionado à vulnerabilidade genética, indicando alvos biológicos distintos para tratamento.
Os autores recomendam replicar os achados em amostras maiores e usar neuroimagem para entender como essas variantes genéticas afetam o cérebro. Compreender as diferenças entre alcoolismo de início precoce e tardio é um passo rumo à medicina personalizada em psiquiatria, permitindo tratamentos mais direcionados às causas da dependência.
O estudo, “Childhood trauma, family functioning, and the BDNF gene may affect the development of alcohol use disorder”, foi conduzido por Yi-Wei Yeh, Catherine Shin Huey Chen, Shin-Chang Kuo, Chun-Yen Chen, Yu-Chieh Huang, Jyun-Teng Huang, You-Ping Yang, Jhih-Syuan Huang, Kuo-Hsing Ma e San-Yuan Huang.



